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Estado de Minas

Caso Semenya pode trazer mudanças

A queda de braço entre a atleta sul-africana e a federação de atletismo traz à tona profunda discussão sobre a questão do gênero no esporte


postado em 16/07/2019 04:09

 Caster Semenya se recusa a tomar remédios para competir, como quer a IAAF, e o governo sul-africano tenta reverter a decisão(foto: GEOFFROY VAN DER HASSELT/AFP - 11/6/19)
Caster Semenya se recusa a tomar remédios para competir, como quer a IAAF, e o governo sul-africano tenta reverter a decisão (foto: GEOFFROY VAN DER HASSELT/AFP - 11/6/19)


A conclusão da disputa legal entre a sul-africana Caster Semenya e a Federação Internacional de Atletismo (IAAF) poderá revolucionar a definição das categorias masculina/feminina no esporte, em meio a amplos debates éticos, médicos e científicos que surgiram com o novo regulamento para atletas com hiperandrogenismo. Para a sociedade, Semenya é uma mulher. Mas, para a IAAF, as mulheres como Caster Semenya, com atributos masculinos devido a uma certa diferença em seu desenvolvimento sexual (DSD), são “homens biológicos”, uma noção muito criticada pela defesa da estrela sul-africana.

A IAAF diz querer proteger “a igualdade na categoria feminina” e por isso considera que “a biologia deve primar sobre a identidade” no contexto esportivo.

“O esporte foi construído sobre esta dicotomia entre homens e mulheres, sobre uma concepção binária dos sexos”, explica a socióloga Beatrice Barbusse. “Existem indivíduos, como Caster Semenya, que não se situam nem de um lado e nem do outro”, continua. “Podemos imaginar que em 50 anos teremos chegado a um nível de sociedade suficientemente desenvolvido para aceitar que não há categorização de gênero obrigatório. Este assunto pode mudar completamente a organização do esporte de amanhã”, garante.

Enquanto não se torna realidade, a IAAF aprovou um regulamento considerado “discriminatório”, mas “necessário, razoável e proporcional” pelo Tribunal Arbitral do Esporte (TAS), a maior instância jurídica esportiva do mundo. Somente o atletismo se pronunciou sobre o polêmico caso. O Comitê Olímpico Internacional (COI) criou um grupo de especialistas para refletir sobre o tema.

Estudo discutido A IAAF apoiou seu regulamento sobre um estudo debatido por vários cientistas. Este estudo foi publicado em julho de 2017 no British Journal of Sport Medicine pelos médicos Stephane Bermon e Pierre-Yves Garnier, que se basearam nos Mundiais de atletismo de 2011 e 2013.

Comparando os resultados do terço das competidoras de maior concentração de testosterona com os resultados do terço de atletas com uma concentração menor deste hormônio, é possível concluir que as mulheres com uma taxa mais alta têm uma “vantagem” significativa em várias provas, como os 400m, os 400m com obstáculos, os 800m, o salto com vara e o lançamento de martelo.

Entre os maiores detratores desse estudo estão os professores Roger Pielke, Ross Tucker e Erik Boye, que afirmam que entre 17 a 33% dos dados apresentados nele estão errados, com alguns tempos de atletas repetidos e que alguns resultados não correspondem à realidade.

Esses professores obtiveram da IAAF cerca de 25% dos dados utilizados pelo estudo e se queixaram de não ter tido acesso a todos os dados, que estariam protegidos pelo código de ética da medicina.

Ética médica Para reduzir sua taxa de testosterona, as atletas enquadradas pelo regulamento podem se submeter a uma cirurgia de ablação das gônadas ou seguir um tratamento que pode ser hormonal, como o uso de pílula contraceptiva.

Mas seria possível obrigar pessoas que não estão doentes a tomar medicamentos que podem ter efeitos secundários? A resposta é não, segundo a Associação Médica Mundial (AMM), que pediu aos médicos que boicotem o regulamento da IAAF.
“Reduzir a taxa de testosterona a níveis femininos utilizando uma pílula contraceptiva (ou outro meio) é a norma reconhecida pelas pessoas que apresentam uma diferença de desenvolvimento sexual 46XY com uma identidade feminina (afetadas pelo regulamento)”, se defende a IAAF.

Quando uma atleta é suspeita de ter níveis de testosterona acima do aceitável pela IAAF, ela precisa passar por um exame clínico. Durante esse exame, a atleta se submete a um teste de “virilização”, no qual o médico examina, entre outras questões, sua pilosidade (quantidade de pelos), o desenvolvimento da região peitoral e também das partes genitais (tamanho do clitóris, por exemplo).

O TAS lembra em sua decisão que um exame como este “pode ser difícil e indesejável, mesmo se for realizado com o cuidado necessário”. Já a defesa de Semenya denuncia um exame “subjetivo e degradante”.

“Isso lembra os testes de feminilidade utilizados durante várias décadas”, declarou ao TAS o médico Eric Vilain, assessor do COI. A partir dos anos 1960, a IAAF e o COI aplicaram testes de feminilidade, com análises das partes genitais e testes dos cromossomos, às vezes seguidos de exames ginecológicos. Criticados e caros, esses testes foram abandonados na década de 1990.


Tiffany ainda causa polêmica no Brasil

A jogadora de vôlei Tiffany, de 35 anos, foi a primeira atleta transexual a disputar a Superliga Feminina de Vôlei e seu caso causa polêmica até hoje, apesar de já ter disputado duas temporadas. Tiffany chegou a disputar a Superliga B Masculina pelo Juiz de Fora e pelo Foz do Iguaçu antes de fazer a transição de gênero fora do país. Em 2017, ela conseguiu a autorização formal da Federação Internacional de Vôlei e, no mesmo ano, disputou a competição nacional pelo Bauru.

No final da última temporada da Superliga, o técnico Bernardinho disse “um homem é f...”, após Tiffany marcar um ponto contra sua equipe, o Rio de Janeiro. Com grande repercussão nas redes sociais, o treinador pediu desculpas à jogadora, mas a polêmica não cessou.

A ex-jogadora Ana Paula defendeu Bernardinho “por dizer a verdade”, e completou: “Me recuso a ceder o meu lugar no esporte feminino para homens biológicos”. Tifanny rebateu: “Essa moça tentou novamente aparecer, oportunista. A senhora Ana Paula nem no Brasil reside. Você se considera uma mulher americana, então vá cuidar das trans que jogam torneios americanos. Nos Estados Unidos, tem muitas trans jogando e você não fala com nenhuma. Por que quer me derrubar no Brasil? Aquela carta que você mandou para o COI é mentira, ninguém vai acreditar. Quem estudou o corpo de uma trans foi o Comitê Olímpico, não foi você. Você dilata homofobia disfarçada de palavras bonitas. Você está se baseando no achismo. Não implorei para jogar, é uma lei que existe para todas as mulheres trans”, desabafou.

No final de junho, Tiffany e Ana Paula participaram de audiência pública na Comissão de Esporte da Câmara dos Deputados que discute três projetos de lei que estão em tramitação para estabelecer o sexo biológico com único critério para definição de gênero em competições esportivas no Brasil.


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