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Estado de Minas

Grito de alerta. E de resistência

Responsáveis pelas comissões técnicas de clubes mineiros veem desabafo de Marta como uma espécie de convocação para que jogadoras e dirigentes reformulem o esporte no país


postado em 25/06/2019 04:08

"O futebol feminino depende de vocês. É chorar no começo para sorrir no fim. Formiga, Marta e Cristiane não são pra sempre. Por isso repito, chore no começo para sorrir no fim" Marta, armadora da Seleção Brasileira (foto: Pascal Guyot/AFP)


Mais do que um desabafo, figuras que vêm trabalhando com o futebol feminino no Brasil interpretaram as declarações da atacante Marta como uma convocação de resistência, mas também como uma necessidade de correção de rumos. Seis vezes eleita a melhor jogadora do mundo, depois da eliminação da Seleção Brasileira nas oitavas de final da Copa do Mundo com a derrota por 2 a 1 para a França, ela não se conteve. “O futebol feminino depende de vocês para sobreviver. Pensem nisso. Digo isso no sentido de valorizar mais. Valorize! A gente pede tanto, pede apoio, mas a gente também precisa valorizar”, disse. “Não vai ter uma Formiga para sempre, uma Marta, uma Cristiane”, completou, emocionada.

Em Minas Gerais, responsáveis pelas comissões técnicas de América, Atlético e Cruzeiro viram as afirmações da camisa 10 ainda como um alerta, talvez o de maior impacto já feito nessa área no Brasil.  Kethleen Azevedo, técnica do América, Sidney Lima, treinador do Atlético, e Bárbara Fonseca, coordenadora do departamento de futebol feminino do Cruzeiro, dão razão à atleta.

Kethleen avalia que a craque mostrou habilidade também fora de campo. “A atitude da Marta é um sinal de alerta e tem-se de tirar proveito do que ela falou, pois foi um puxão de orelha. O maior de todos. Desde o começo da preparação para o Mundial ela tomou posições honrosas, como, por exemplo, ao usar uma chuteira sem marca. Ela estava pedindo igualdade. Por que um jogador, homem, tem patrocínio de chuteira e a mulher não? Foi isso o que ela quis dizer”, afirma.

Para ela, outra lembrança relevante é a de que o Brasil vive de raros talentos no futebol feminino. “Ela quis dizer que uma vez na vida tivemos Marta, Formiga e Cristiane. Isso foi como no masculino. Houve Pelé, Zico... Isso não acontece toda hora. E chamou para o futuro.”

A treinadora América vai além. “Quando ela disse que tinha de chorar agora, quis dizer trabalhar, muito, para que possamos colher no futuro. Significa também que está na hora de os clubes investirem em estrutura. O problema do Brasil é que a maioria dos times é de amadores. A mentalidade é amadora. Tem-se que trabalhar desde a base. Hoje, começa-se muito tarde. A jogadora chega velha aos times. Para se ter resultado é preciso trabalhar na base. Foi isso o que ela quis dizer.”

Kethleen conta que muitas vezes uma determinada jogadora de qualidade acaba não rendendo o ideal por não ter a estrutura física necessária. “Ela não está acostumada. Não resiste. É preciso, além de começar o trabalho na base, que a CBF crie competições que sejam atrativas, para que possam vir patrocinadores. Têm de ser torneios atraentes. Olha, é muito importante o que a Marta falou. Ela representa muito para o esporte brasileiro.”

DESCASO Sidney concorda com Kethleen. “Foi mais que um desabafo dela como atleta. Foram palavras de quem vive e de quem quer bem ao futebol feminino. Foi também um chamamento para as jovens atletas, aquelas que querem seguir na profissão. Elas têm de ouvir o apelo da Marta.”

O treinador atleticano cita o exemplo de Marta e diz que há situações de descaso. “Ela saiu lá do interior de Alagoas. Saiu do nada para chegar aonde chegou. Seis vezes a melhor do mundo. Levou o esporte a sério. O que ela pede é que olhem um pouco mais para a modalidade. Que é preciso pensar no estatuto do futebol feminino. Repensar como algo rentável. Tem de haver um planejamento de verdade, categoria por categoria. Isso não acontece hoje. O futebol feminino no Brasil é muito deficiente.”

Coordenadora no clube celeste, Bárbara Fonseca vê ainda um puxão de orelhas de Marta nas jogadoras, incluindo as companheiras de Seleção, para que repensem seu papel. “Ela faz uma crítica às atletas de um modo geral. No caso das da Seleção, além de não terem perfil técnico e tático, não têm preparação física adequada”, interpreta. E diz que o esporte vive um momento de transição no país. “O futebol feminino no Brasil passa por uma mudança de chave. As atletas são ainda amadoras. Nosso trabalho hoje está em mudar isso. As atletas não se cuidam nem fisicamente nem na alimentação nem fora de campo. A batalha é mudar hábitos e podemos entender que esse foi o recado da Marta”.

DESAFIOS Mas se engana quem imagina que a Copa do Mundo da França tenha sido um ponto final para a carreira de Marta, de 33 anos. “Foi uma grande experiência para todas nós. Agora é o momento de aproveitar esta exposição e fazer com que o futebol feminino seja ainda maior e melhor. A Copa acabou, mas temos que continuar. No ano que vem temos os Jogos”, declarou Marta, descartando uma possível aposentadoria da Seleção e já projetando participação na Olimpíada de Tóquio, em 2020.

A atacante não quer que a versão de seu futebol apresentado na França, onde claramente jogou debilitada por causa da lesão muscular na coxa esquerda sofrida pouco antes do torneio, seja a última imagem deixada vestindo a amarelinha.

Apesar de seu estado físico, Marta marcou dois gols de pênalti e se tornou a maior artilheira da história de todas as Copas, masculina ou feminina, com 17 gols, superando o alemão Miroslav Klose. Tudo indica que Formiga, de 41 anos, que continuará nesta temporada no poderoso Paris Saint-Germain, e Cristiane, de 34, também estarão presentes no que aparenta ser o último desafio da ‘geração dourada’ do Brasil.


DAQUI PARA O FUTURO
Permanência indefinida
Um dia depois de o Brasil ser eliminado pela França nas oitavas de final do Mundial Feminino, o coordenador de seleções femininas da CBF, Marco Aurélio Cunha, afirmou em Le Havre que o futuro do técnico do time nacional, Vadão, está nas mãos do presidente da entidade, Rogério Caboclo. O dirigente evitou projetar a continuidade ou a possível saída do comandante, assim como elogiou o trabalho realizado pelo treinador. “Acho que ele fez uma ótima Copa, independentemente das críticas de costume contra ele. Agora, quem decide o futuro da seleção é o presidente da CBF. Sou tão funcionário da CBF quanto o Vadão”, ressaltou Marco Aurélio. Até mesmo a sequência dele está indefinida. “Se (os dirigentes) acharem que nosso tempo deu, a gente vai entender. Se quiserem que a gente prossiga, a gente prossegue. Estou com a minha consciência absolutamente tranquila. Fiz tudo o que eu pude por essa Seleção”, afirmou.


Cristiane passará por exames
Depois de se lesionar e precisar ser substituída no primeiro tempo da prorrogação do confronto com a França, a atacante Cristiane será examinada mais minuciosamente no Brasil para ser detectada a gravidade do problema na coxa esquerda que a tirou da partida. Chorando, a atleta do São Paulo deixou o campo amparada por causa do incômodo. “Ela sentiu uma dor no músculo quadríceps e não conseguiu continuar a partida. Fiz uma avaliação clínica, mas o ideal é aguardar de 24 a 48 horas para ver a evolução e, então, fazer exames complementares para entender o estado real da lesão”, explicou o médico da Seleção Feminina, Nemi Sabeh Jr., que é cirurgião ortopedista.


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