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Torcida Popular Celeste do Povo

Douglas foi o mais habilidoso volante do pós-Felício. Um acadêmico celeste, tratava a bola como uma tese de doutorado


postado em 01/05/2019 05:04


Twitter: @gustavonolascoB

Colecionar os canhotos dos ingressos das partidas foi um dos meus maiores hobbies. A cada final de jogo, eu os tirava do bolso e no verso anotava preço, público, adversário e placar. Guardava-os num plástico da carteira como se fossem o acervo mais precioso do meu museu imaginário de cruzeirense apaixonado.

O câncer das arenas gourmet e os preços exorbitantes dos ingressos vieram. Juntos desse ônus, alguns bônus, modernidades inevitáveis como os cartões magnetizados dos programas de sócio-torcedor. Foi o fim da minha coleção de canhotos de ingressos.

Mesmo assim, ainda guardo os adquiridos nas partidas do Cabuloso como visitante. No último que mantenho no plástico da carteira está anotado: 17/10/2018, Arena Odebrecht, Cruzeiro 2 x 1 Corinthians. Público: eu e mais 45.977 pagantes. No canto, um asterisco: “hexacampeão”.

Às vezes até penso em abandonar o meu cartão de sócio-torcedor para reviver a alegria da coleção de canhotos. Mas se assim o fizesse, renegaria o que acredito ser a minha atual maneira de ajudar o Cruzeiro.

“Ajudar o Cruzeiro com meus ingressos” me faz lembrar de Moacir, um garçom boa praça da minha cidade, Mariana. Quem o vê concentrado em anotar pedidos e equilibrar a bandeja com as fartas porções de frango caipira e feijão tropeiro, não pode imaginar que por detrás do dedicado trabalhador assalariado está um louco iluminado. Moacir tem uma “doença” diagnosticada: Paixão Aguda Pelo Único Gigante de Minas. Sua vida gira em torno do Cruzeiro.

Sua esposa já está avisada... Quando ele morrer, quer 11 camisas do time do coração e a mesma quantidade de bolas azuis e brancas junto ao seu corpo no caixão. Se ela não realizar seu desejo, Moacir voltará em forma de alma penada e puxará o pé da companheira na beirada da cama em todas as noites de céu estrelado.

A paixão do garçom celeste não se resume à morte. Quando seu filho nasceu, Moacir voltou do cartório carregando a certidão como um troféu, uma singela homenagem a um de seus grandes ídolos e, claro, ao Cruzeiro. “William Douglas Palestra Itália”, assim registrou nome e sobrenome de seu rebento.

Para os novos, um adendo. (William) Douglas foi o mais habilidoso volante da história do Cruzeiro no pós-Felício Brandi. Brilhou entre 1982 e 1988, foi para Europa e voltou para comandar o meio campo no bi da Supercopa em 1992. Um acadêmico. Tratava a bola como uma tese de doutorado.

Pois bem, voltemos ao nosso garçom celeste. Antes das arenas gourmet, os ingressos a preços populares permitiam a Moacir seguir toda semana nas excursões de Mariana até o velho Mineirão, em Belo Horizonte, mesmo com todos os seus apertos financeiros.

Corria até a bilheteria e pedia: “Dois ingressos”. Adentrava o lendário portão 3 e sumia na multidão. Mesmo sozinho, Moacir comprava dois bilhetes só para “ajudar o Cruzeiro”.

No momento em que o clube atende o clamor da base de sua torcida e cria um setor popular a R$ 10,00 para o Brasileirão, me emociono ao lembrar do esforço financeiro de Moacir para simplesmente “ajudar o Cruzeiro”. Encho o rosto de sorriso e lágrimas pensando na volta dos geraldinos, dos operários, da mãe pendurada no parapeito a amamentar o filho no peito. Gente que eterniza a história cruzeirense de ser o Time do Povo, dos interioranos, do Barro Preto, bairro para onde a elite higienista renegou os imigrantes italianos e os negros expulsos da primeira favela de Belo Horizonte. É a nostálgica chance de reviver os “ingressos a R$ 1,00” nos embates épicos contra o Palmeiras nos anos de 1990.

Na partida da noite de hoje, na Toca da Raposa 3, os olhares estarão todos voltados para o gramado, esperando o placar ser aberto pela Academia Celeste contra o Ceará. Já os meus, curiosos, estarão a contemplar o novo setor popular, conquistado aos gritos e pelo DNA da nossa torcida.

A cada gol do Cruzeiro nessa noite, vou procurar ali por Moacir e seus dois ingressos. Ao apito final do árbitro, vou correr até lá e lhe pedir os canhotos. Com um abraço, vou lhe prometer voltar a colecioná-los.


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