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Estado de Minas

Quem tem Cruzeiro na certidão de nascimento?

Em fevereiro de 1967, exatamente na Venezuela, o Cruzeiro nascia na Copa Libertadores


postado em 24/04/2019 05:06


Twitter: @gustavonolascoB

“Quando você nasceu, o Cruzeiro estava jogando?” Não consigo me recordar em qual copo sujo eu estava a degustar uma cerveja de milho quando outro cliente me lançou essa pergunta, intrigado com o meu incontrolável amor por esse clube multicampeão.

Se não me emana à mente o local, tal fato ainda vive a povoá-la. Sempre invejo os cruzeirenses que, de fato, vieram ao mundo num dia de jogo do Cabuloso. Afinal, quem não gostaria de nascer ao rebento de um gol? Ou soltar o primeiro choro no instante do apito final a certificar uma vitória maiúscula. Receber o primeiro afago de mão de mãe enquanto milhares de outros torcedores se abraçam para compartilhar mais um título azul estrelado.

A resposta ao questionamento na mesa de bar, eu tenho. Não nasci com o Cruzeiro em campo. Vim ser cruzeirense às vésperas de disputarmos a final do Teresa Herrera contra o Real Madrid, em 1976. Mas entre tantas certidões de nascimento datilografadas em dia de jogo, numa delas, datada de 22 de fevereiro de 1967, está o nome 'Karina'.

Dias antes, o Cruzeiro havia embarcado para a Venezuela. Nascia naquele voo a história da primeira participação do clube na Copa Libertadores. Contra o Deportivo Galícia, no jogo inaugural, a primeira vitória e o gol de Evaldo, aos 49min da prorrogação, decretando 1 a 0.

Dias depois, em Belo Horizonte, Hilma ajustou a roupa na barriga de nove meses de gestação. Deixou sua casa e foi ao salão para pintar as unhas. Foi lá que sentiu o estouro da bolsa e o líquido a molhar seu vestido.

O marido estava exatamente na Venezuela, acompanhando o seu Cruzeiro. Não foi nem possível avisá-lo da entrada às pressas pelos corredores do hospital São Lucas. Lá, enfermeiros e médicos, entre uma vida salva e outra proporcionada, comentavam sobre a segunda partida da Academia Celeste que se avizinhava no torneio sul-americano. Dali a algumas horas, entraria em campo contra o Deportivo Itália, em Caracas.

A madrugada do 22 de fevereiro já estava rompida quando a filha de Hilma forçou a saída para vir ao mundo num dia de Cruzeiro e Libertadores. Horas depois, lá na Venezuela, pelo alto-falante do estádio Olímpico de La Universidad Central, o locutor, gentilmente, anunciava o nascimento de Karina. À beira do campo, o pai do bebê recebia, novamente, os cumprimentos de jogadores e comissão técnica do escrete celeste.

No dia em que nascia em Belo Horizonte sua filha caçula, o lendário Carmine Furletti, dirigente que formou a dupla mais importante da história do Cruzeiro ao lado do genial Felício Brandi, estava liderando a delegação do seu time na primeira participação no torneio, no qual, anos depois, se tornaria La Bestia Negra. Evaldo e Tostão – duas vezes – ainda o brindaram com os três gols da vitória.

Furletti chegou a Belo Horizonte apenas sete dias depois do nascimento de sua filha, pois o Cruzeiro, de Caracas, ainda teve de seguir para Lima, onde enfrentou e perdeu para o Universitário. Ao descer no aeroporto da Pampulha, o dirigente celeste trazia um embrulho de presente. Dentro, um par de sapatinhos de algodão branco com pequenos olhos vermelhos bordados, dando forma à cabeça de uma raposa.

Décadas depois, com o pai já muito doente, Karina resolveu brincar. Foi até o armário e buscou um surrado passaporte. Nele, se espalhavam carimbos de entrada em centenas de países por onde Furletti passou com seu Cruzeiro querido.

A filha sentou-se ao lado do pai fingindo não se lembrar da história do dia de seu nascimento e puxou conversa: “Uai, pai, o que é este carimbo aqui exatamente na época em que eu nasci? O senhor estava na Venezuela? Nem me viu nascer?”.

Carmine Furletti lançou um olhar carinhoso, mesmo bem debilitado, manteve a doçura que sempre nutriu por sua caçulinha e pelo clube ao qual dedicou sua vida, e brincou: “Mas também... Quem mandou você arrumar de nascer logo no dia de jogo do Cruzeiro?”.


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