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Estado de Minas

Futebol na Ordem do Dia

Ex-jogadores, ídolos, jornalistas e historiadores relembram como os anos de chumbo influenciaram o principal esporte de Minas Gerais


postado em 31/03/2019 05:08

(foto: QUINHO)
(foto: QUINHO)


Há exatos 55 anos, em 31 de março de 1964, o Brasil começou a viver sob o regime militar com o general Castelo Branco assumindo a Presidência depois da deposição de João Goulart. Foi um período de forte repressão e restrição a liberdades que durou até 1985, com a eleição indireta de Tancredo Neves à Presidência da República. Nesse cenário, o futebol se tornou uma das plataformas usadas na propaganda da ditadura. Em Minas Gerais, não foi diferente. De forma direta ou indireta, envolveram-se e foram envolvidos nesse ambiente grandes ídolos, clubes, Federação Mineira de Futebol (FMF) e o próprio Mineirão.

“A criação da Loteria Esportiva, em 1970, do Campeonato Brasileiro, em 1971, e a nomeação do almirante Heleno Nunes para a presidência da Confederação Brasileira de Desportos (antiga CBD, hoje CBF), em 1975, são fatos que demonstram que o futebol se tornou um campo de distensão do poder dos militares”, relata o professor Euclides Couto, pós-doutor em história pela Universitat Ramon Llull, de Barcelona.

Segundo o pesquisador, a primeira vez em que a ditadura se fez perceber no futebol de Minas foi na nomeação do coronel José Guilherme Ferreira, em 1966, à presidência da FMF. O mandatário era chefe do Gabinete Militar e braço direito do então governador Magalhães Pinto, um dos articuladores do movimento que levou os militares ao poder e homem forte do governo federal no estado, e que até hoje dá nome ao Mineirão.


Reinaldo e a resistência ao regime


O punho cerrado erguido a cada comemoração de gol fazia explodir em alegria milhares de torcedores do Atlético no Mineirão durante os anos 1970 e 1980. Ídolo maior do clube, Reinaldo não era apenas a referência de uma geração. Por meio de uma manifestação aparentemente simples, o ex-jogador sintetizava a resistência ao regime autoritário. “Meu gesto era um alento aos socialistas, um sinal de apoio e unidade perante uma causa”, explicou, em trecho publicado na biografia Punho cerrado.

O ano de 1978 foi marcante para Reinaldo. As grandes atuações no Atlético o garantiram na lista de convocados pelo capitão do Exército e técnico da Seleção Brasileira Cláudio Coutinho para a Copa do Mundo na Argentina. O ativismo político, entretanto, incomodava o poder. Ainda no Brasil, o jogador relata no livro um encontro com o presidente Ernesto Geisel, em que recebeu um recado bem claro: “O general, com sua farda verde-oliva, disse que eu jogava muito bem, mas que eu não deveria falar de política, porque disso eles cuidavam. Tudo isso em um tom imperativo e firme”.

As advertências seguiram quando André Richer, chefe da delegação, pediu o fim da comemoração com o punho cerrado, conta Reinaldo. A tentativa de inibi-lo não funcionou. Na Argentina – que também vivia em regime ditatorial –, o atacante marcou e não hesitou ao erguer o punho. Nos jogos seguintes, amargou a reserva.

Daí em diante, as perseguições – seja na Seleção, seja por parte da CBD nas campanhas do vice-campeonato brasileiro do Atlético, em 1977 e 1980 – continuaram. De “revolucionário”, Reinaldo passou a ser associado às drogas e ao alcoolismo. A amizade com o radialista Tutti Maravilha, vanguardista e assumidamente homossexual, ainda repercutiu negativamente numa sociedade homofóbica.

“Transar com o Tutti, minha gente, seria o mesmo que cometer um incesto. Se saio à noite com mulheres, sou boêmio. Se não saio, sou viado. O que fazer?”, ironizou o ex-jogador em entrevista à revista Placar em 1981. Em 1982, Reinaldo ficou fora da Copa do Mundo da Espanha após atritos com o técnico Telê Santana. O Estado de Minas tentou marcar entrevista com o ex-jogador, mas não obteve sucesso.


O “dedo da ditadura” na convocação

Anos antes dos episódios com Reinaldo, o regime se fez ainda mais presente no futebol mineiro. Ídolos de Atlético e Cruzeiro estiveram diretamente envolvidos numa das maiores controvérsias da história da Seleção Brasileira. Responsável pelos anos mais duros da ditadura, o general Emílio Garrastazu Médici foi atuante no processo de convocação de alguns dos jogadores que se sagrariam tricampeões do mundo no México, em 1970.

“Depois que parei, que tive algum esclarecimento político, é que tomei consciência. Eu fui usado (prejudicado) no momento em que fui cortado. Ali era o dedo da ditadura militar”, diz, emocionado, Dirceu Lopes, ídolo do Cruzeiro e peça importante da Seleção Brasileira que garantiu a vaga na Copa sob o comando do técnico João Saldanha.

Com Médici no governo, entretanto, os dias de Saldanha na Seleção estavam contados. “O João, politizado, comunista, começou a bater de frente com o presidente. Ele começou a incomodar o poder”, relata Dirceu. Nesse meio tempo, o general se encantou com o futebol de Dario, histórico goleador do Atlético. “Quando perguntaram ao João Saldanha sobre o Dario, ele disse: ‘Eu não escalo ministros para o presidente, eu não admito que nem o presidente escale jogador na Seleção Brasileira”.

Os atritos resultaram na demissão de João Saldanha às vésperas do Mundial. A vaga, então, passou a ser ocupada por Zagallo, ex-jogador e um treinador mais alinhado com as determinações de Médici e da CBD. “Quando o João (Saldanha) caiu, de jogador mais importante da Seleção, conforme ele mesmo falava, eu passei a ser o menos importante”, lamentou Dirceu, que acabaria fora da Copa.

As mudanças no comando da Seleção deram espaço a Dario. “O Médici pegou e falou: ‘Convoca ele’. O João Havelange respondeu: ‘Também quero a convocação dele, só que o João Saldanha não quer’. Aí, tiraram o João Saldanha e entrou o Zagallo. Depois, quando cheguei nos treinos da Seleção, arrebentei, fiz gols e fui para a Copa do Mundo”, garante o ídolo atleticano.


“Poderíamos ter feito algo diferente”

Os ex-jogadores relatam que assuntos relacionados ao regime militar não permeavam os debates no convívio diário. Para a maioria deles, a conscientização política veio anos depois, já no pós-carreira. “Nós éramos usados pela ditadura militar e a gente não tinha noção nenhuma. Quando tinha movimento de alguma coisa, trazer a Seleção Brasileira mudava o foco”, relembra Dirceu.

Outro ídolo da história do Cruzeiro, o versátil Wilson Piazza – titular da Copa do Mundo de 1970 – lamenta a demora dos jogadores para perceber as motivações políticas do regime. “Infelizmente, faltava consciência política à Seleção. Se soubéssemos que nossa conquista estaria ajudando de alguma forma o governo, poderíamos ter feito algo diferente. Só queríamos jogar bola. Se era ditadura, democracia, pouco importava”, disse, em entrevista ao Correio Braziliense, publicada em 2014.

Pela conquista do tricampeonato no México, os campeões receberam fuscas de presente do então prefeito de São Paulo, Paulo Maluf, indicado pelo marechal Artur da Costa e Silva, segundo presidente do período militar, entre 1967 e 1969. Os automóveis foram comprados com dinheiro público, após aprovação de vereadores da capital paulista.

Maior ídolo do Cruzeiro e peça fundamental na campanha do título da Seleção em 1970, Tostão se arrepende de ter recebido o presente. No livro autobiográfico Tempos vividos, sonhados e perdidos: um olhar sobre o futebol, o ex-jogador lamentou: “Com o tempo, amadureci, entendi e aprendi que dinheiro público não pode ser distribuído para quem quer que seja”.

Embora mais comedido que Reinaldo, Tostão também se mostrou resistente à ditadura militar. Em emblemática entrevista ao tabloide de esquerda Pasquim, em 1970, o ex-jogador do Cruzeiro se posicionou de forma contrária às privações de liberdade impostas pelo regime. Dias depois, ele acabou censurado.

“No ano de 2009, ele (Tostão) me relatou que, dias depois da declaração, recebeu um telefonema anônimo em sua residência. Na ocasião, uma pessoa de voz desconhecida disse que, se continuasse a conceder entrevistas daquele tipo, ele seria cortado da Seleção Brasileira”, revelou o pesquisador Euclides Couto. A reportagem tentou contato com Tostão, mas não obteve sucesso.

Anos de chumbo Estima-se que 20 mil pessoas foram torturadas durante os 21 anos de ditadura militar no Brasil, apontam dados da Human Rights Watch (HRW). Nesse período – que se encerrou em 1985 –, pelo menos 434 morreram ou estão desaparecidas.


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