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Estado de Minas

Contra o vento que sopra, o punho cerrado do Rei

"A atleticanidade leva a caminhos tortuosos. Por vezes, já fez o atleticano acordar com a sensação de ter dançado nu sobre a mesa nas bodas de ouro daquela nossa tia-avó"


postado em 30/03/2019 05:09


O atleticano é um sábio. Não tendo muito a comemorar nas últimas temporadas, passou a celebrar seu aniversário como se fosse a refundação do mundo. Rivais dirão que isso é sintomático do nosso flagelo, dos títulos que poderiam ter vindo e não vieram, da nossa vocação para o sofrimento crônico, ainda que tenha havido o interregno 2013/2014. Embora libertos pela canhota salvadora de São Victor – la canhota de Diós –, seríamos, pois, como o negro na senzala: sem mais opção, ele fez do seu infortúnio o samba, a dança, o blues.

Sem clubismo, de fato desconheço uma torcida de futebol que celebre tanto sua própria existência. Não há uma “flamenguicidade”, menos ainda uma “cruzeiricidade”, no máximo há um corintianismo, mas este não se aplica nem se compara ao que o Houaiss já deveria ter levado às suas páginas, a atleticanidade. Seria a única palavra de um dicionário a definir-se por “aquilo que não se explica”, “diz-se do sentimento daquele que só sabe quem é”.

A atleticanidade leva a caminhos tortuosos. Por vezes, já fez o atleticano acordar no dia seguinte com a sensação de ter dançado nu sobre a mesa nas bodas de ouro daquela nossa tia-avó. Sim, falo das vezes em que o talibã se manifestou nos corações alvinegros, isso não é raro, a ponto de tomarmos a participação de uma atleticana no Big Brother como a final de um Brasileiro. Ou quando este escriba, chapadão, saiu com a bandeira pra fora do carro, em São Paulo ainda por cima, a fim de celebrar a merecida conquista de uma das nossas no concurso da Miss Brasil.

Assim torcemos pelo Oscar do Daniel de Oliveira, que virá. Assim torcemos para que o Chico Pinheiro jamais tropece nas palavras ao anunciar o Bom Dia Brasil, e ele jamais tropeçou, nosso santo é forte, São Victor do Horto. Assim, preferimos Jota Quest a Skank, Beto Guedes a Milton Nascimento, Sepultura a Gusttavo Lima, Dilma a Aécio, Patrus a Pimentel. “Se houver uma camisa branca e preta pendurada no varal durante uma tempestade, o atleticano torce contra o vento.”

Contra o vento – eis o nome da música que um grupo de rappers compôs para os 111 anos de Atlético. Felipe Arco, FBC, Chris MC, Hot, Djonga, Vuks, Thiago SKP (filho do nosso Eduardo Maluf), Clara Lima, Froid. Daqui pra frente, maiores que Mano Brown, Thaide e Sabotage juntos. O Galo, diz um trecho da letra, “é mais que futebol, é construção social, arquibancada preta e branca, é todo mundo igual. Jogadores vêm, jogadores vão, mas eu permaneço firme, que retroceder destrói”.

Parabéns ao Atlético, que botou no palco domingo passado a negritude jovem, alvo do genocídio das periferias. A favela e a cadeia são a nova senzala, o rap é o samba e o blues. No Mineirão, “negro entoou um canto de revolta pelos ares, do Quilombo de Palmares, onde se refugiou”. Salve, Clara Nunes, que era Galo mesmo sem saber disso! Salve o Clube Atlético Mineiro, de todas as cores, de todos os credos! 47 mil vozes a celebrar a sorte de ter nascido atleticano. Quem mais é capaz, diante de um Tupynambás com ípsilon e jogando o grosso da bola? “Time de preto, de favelado, mas quando joga o Mineirão fica lotado!”

No domingo 24, os grandes clubes argentinos se uniram numa manifestação coletiva em repúdio ao golpe de Estado que se deu em 1976 naquele país, instalando uma ditadura militar que deixaria cerca de 30 mil mortos e desaparecidos. Em nome dos nossos 111 anos de luta, sempre do lado certo da história, o Atlético bem poderia copiar nossos vizinhos. Isso não tem nada a ver com política. Tem a ver com assassinatos, tortura, estupros, sequestros, crianças que foram retiradas para sempre de seus pais, pais que jamais puderam enterrar seus filhos “desaparecidos”. Retroceder destrói. Contra o vento que sopra, o punho cerrado do Rei.


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