Acordo na manhã de sexta-feira com a notícia do incêndio no centro de treinamento do Flamengo, o Ninho do Urubu. Dez meninos das categorias de base morreram. Dez. No dia anterior, uma chuva destruíra a cidade, fazendo seis vítimas. Em 1966, há 53 anos portanto, foram 250 mortos. Não muda nunca, não se faz nada. Assim como o crime da Samarco/Vale em Mariana matou 19 e agora, no repeteco em Brumadinho, as vítimas poderão chegar a 400, entre mortos e desaparecidos. Não se pagou até hoje nem um único real das multas impostas à empresa pelo Ibama, não se realocou os atingidos.
Quando aconteceu o crime de Brumadinho, achei que deveríamos ter parado o futebol. Que sentido fazia aquilo, 22 homens atrás de uma bola enquanto milhares de pessoas buscavam seus mortos sob toneladas de lama, a 90 quilômetros do estádio? O Atlético propôs o adiamento da rodada, não exatamente por iniciativa própria, mas pelo clamor de seus torcedores. O Cruzeiro não quis.
Agora penso comigo: parar pra quê? Pra assistir às “autoridades” sobrevoando de helicóptero a cena do crime enquanto negociam as leis com os assassinos? Pra ver o presidente da Vale dizer que não tem culpa de nada porque seguia as leis que ele próprio criou, financiando deputados, pagando lobistas no Congresso e nas Assembleias? Parar pra ver presidente e governadores em ação no Twitter? A Damares a dizer groselhas? A junta de filhos a destilar ódio e cinismo? Parar pra ver Thiago Neves tirar um sarro com Brumadinho e, agora, colocar fotinha de luto em rede social? Parar pra quê?.
Melhor que o Flamengo entre em campo, como entraram Atlético e Cruzeiro, porque pelo menos existe uma beleza naquele ajuntamento de gente. Que se faça como fizeram os colombianos e o Atlético Nacional diante da tragédia da Chape, lotando o estádio, cantando e chorando. Não pode parar, tem de ser o contrário, porque Atlético, Cruzeiro, Flamengo, esse é o amor possível nessa terra de tanto desamor, tanta falta de empatia. O que sobra são a hipocrisia e o oportunismo, a ganância e salve-se quem puder. Que o Flamengo faça 10 minutos de silêncio por cada menino morto em seu alojamento, porque isso dirá muito mais do que todos os discursos reunidos de seus Witzels e Crivellas, que lástima essas pessoas, que poço sem fundo.
Vejo agora que a Globo emitiu nota se solidarizando com os familiares das vítimas no Ninho do Urubu e, dona dos direitos de transmissão do jogo, cancelou o Fla-Flu deste fim de semana. Não vi essa nota no Atlético x Cruzeiro transmitido pela Globo. Que assim seja, que o Galo continue jogando diante de todas as tragédias, porque só o Galo salva, e já que nos tiraram tudo, que não roubem da gente esse naco de alegria e de amor. Que nos seja permitido abraçar o desconhecido no assento ao lado, e que a gente chore junto a tragédia e a glória, ainda que, terminados aqueles 90 minutos de estado de exceção, voltemos à nossa miserável realidade.
O Galo joga hoje, joga terça, melhor que fosse todo dia.