Ao pensar em adoçante, a maioria das pessoas torce o nariz, muda a expressão, faz cara feia, e o adota no dia a dia da alimentação só se for obrigado, por uma questão de saúde e olhe lá. A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) define como edulcorantes as substâncias naturais ou artificiais, diferentes dos açúcares, que conferem sabor doce aos alimentos. Já o adoçante é o produto que contém um ou mais edulcorantes, pode ser acompanhado de um veículo que o transporta, seja ele água, maltodextrina, lactose, entre outros. 





“O primeiro adoçante descoberto foi a sacarina, em 1878, com o objetivo de substituir o açúcar, reduzindo calorias, a glicemia e facilitando o transporte. A sacarina é 300 vezes mais doce do que o açúcar”, explica Elaine Cristina Moreira, nutricionista pela Universidade de São Paulo (USP), com especialização em fisiologia do exercício e nutrição em doenças crônicas no Hospital Israelita Albert Einstein, e especialista em adoçantes.
 
 

O adoçante, até o momento, é uma saída para lidar com o consumo de açúcar, um carboidrato cristalizado comestível (sacarose, lactose e frutose), com alto índice glicêmico. Seu consumo excessivo se tornou um problema de saúde pública em todo o mundo. E os fatores são inúmeros. Ele aumenta os níveis de glicose no sangue, dificultando a produção do hormônio insulina, causando resistência à insulina e diabetes tipo 2, além de estar relacionado ao aumento do risco de outras doenças, como obesidade, gordura no fígado, cáries, hipertensão e doenças cardiovasculares, sendo essas últimas as que mais matam no Brasil.
 
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No entanto, os adoçantes vivem na berlinda. Ora vilões, ora mocinhos. No último dia 15, a Organização Mundial de Saúde (OMS) lançou novas diretrizes para o uso de adoçantes articificais,  afirmando que eles devem ser usados apenas por pessoas com diabetes e em quantidades mínimas. A substituição do açúcar por adoçantes em bebidas e alimentos com o objetivo de emagrecer ou prevenir o desenvolvimento de diabetes pode ser um equívoco, mas por enquanto é apenas uma recomendação. Elaine Moreira diz que os adoçantes são produtos compostos por aditivos alimentares e podem ser formulados quimicamente ou extraídos da natureza, a exemplo da stevia, xilitol e eritritol. “O objetivo principal é eliminar a adição de açúcar aos produtos e/ou reduzir a quantidade de calorias sem, no entanto, diminuir o dulçor.”





A especialista diz que todas as pessoas que desejam reduzir o consumo de açúcar podem utilizar adoçantes. “Para cada tipo tem uma quantidade máxima que pode ser consumida por quilo de peso por dia. Os estudos são precisos para garantir a segurança dentro dessas dosagens. É a chamada ingestão diária aceitável (IDA): quantidade estimada de uma substância química, expressa em miligramas por quilo de peso corpóreo (mg/kg p.c.), que pode ser ingerida diariamente, durante toda a vida, sem oferecer risco apreciável à saúde, à luz dos conhecimentos toxicológicos disponíveis na época da avaliação.”

Mais pesquisados

Os adoçantes estão entre os ingredientes mais pesquisados em todo o mundo, garante a nutricionista. “Antes de serem liberados para consumo, todos foram submetidos a uma avaliação completa de segurança pela autoridade regulatória competente. No Brasil, a responsabilidade é da Anvisa, além de órgãos internacionais competentes, como a Organização das Nações Unidos para a Alimentação e Agricultura (FAO), Organização Mundial da Saúde (OMS), Comitê de Especialistas em Aditivos Alimentares (JECFA), a Administração de Drogas e Alimentos dos Estados Unidos (FDA) e a Autoridade Europeia de Segurança de Alimentos (EFSA). Essas entidades fazem atualizações constantes para confirmar a segurança, levando em conta todos os tipos de evidências relativas a efeitos colaterais, incluindo trabalhos acadêmicos que estudam o aparecimento e/ou desenvolvimento de doenças.”

Mesmo com todo esse aval científico, a insegurança em torno do adoçante é real e persiste. Sem falar na onda de fake news ou mesmo nos modismos comandados por celebridades e influencers, ou ainda por indicação de profissionais de saúde, que não chegam a um consenso sobre o tema. Talvez por isso a prescrição seja individualizada, fomentando mais dúvidas. Adoçantes sintéticos, naturais, de plantas, orgânicos, sendo comumente substituídos por mel ou melado, açúcar mascavo ou demerara. 





“A origem natural ou sintética do adoçante não é o mais importante. Estudos mostram como o aditivo se comporta no organismo independentemente da origem. Os resultados de várias pesquisas formam um consenso chancelado por entidades e especialistas, mas não um estudo único com um resultado crítico que já acarretará na invalidade de todos os outros analisados no momento da aprovação. Então, o melhor adoçante é o que se adapta ao paladar de cada um.”

Na divisão entre quem toma café com açúcar e quem não adoça, Elaine tranquiliza quem estressa diante do sagrado cafezinho. “O café pode não ser adoçado para quem tolera o sabor mais amargo da bebida, mas não acho que aquele que não gosta do sabor puro do café precise se forçar a isso, por medo de usar adoçantes. Eles são seguros.”

Medo de doenças

Fato é que o consumidor fica perdido diante das várias opiniões - seja de profissionais da saúde ou não - além das informações cruzadas que propagam. Um dos últimos estudos associou o eritritol ao maior risco cardiovascular. Já em outra pesquisa, a sucralose foi apontada como causadora do enfraquecimento das células de defesa. “Para que a população fique tranquila, ela não pode se basear na opinião de um profissional apenas ou mudar hábitos de consumo com base apenas em um estudo com resultado contrário”, explica. 

“Muitas vezes, os estudos são observacionais e têm relação de causalidade com muitos vieses. Por exemplo, pessoas que usam adoçantes têm mais infarto. Pessoas obesas usam mais adoçantes e têm maior risco de infarto pela obesidade e não pelo uso de adoçantes. Precisamos ouvir o que as sociedades médicas falam, como a Sociedade Brasileira de Diabetes, Sociedade Brasileira de Nutrição, entre outras, em que vários especialistas se reúnem para discutir uma série de estudos, sem que isso signifique liberar ou condenar o uso de um adoçante.”

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