A dona de casa Luana Rocha Viegas Martes, de 31 anos, recebeu o diagnóstico de endometriose logo depois da primeira e única gestação gemelar, em 2019. “Sempre sentia muita dor, bem forte, mas acreditava que fosse cólica, própria do período menstrual. Não conseguia trabalhar, náuseas, vômitos e achava tudo normal. Fui deixando passar. Engravidei e, ao passar por exames mais precisos (já tinha mioma), o diagnóstico da endometriose foi fechado. Assim que os gêmeos nasceram, a dor ficou ainda mais forte, o que me deixava de cama. E com dois bebês adiei ainda mais o cuidado comigo.”




 
De repente, na corrida rotina de mãe de primeira viagem e de gêmeos, Luana se deparou com um caroço e no ultrassom constatou-se a endometriose, adenomiose e miomas decorrentes da gestação. “Enfim, comecei a tratar, depois de enfrentar dor e sangramento que permaneciam o dia todo, o que me levou ao quadro de anemia e fraqueza. Daí, a decisão médica foi pela retirada do útero”, conta. 
“Farei uma histerectomia, mas antes fiquei livre dos nódulos da endometriose. Um deles estava do tamanho de uma maçã. Isso em julho de 2022. Preciso me recuperar, porque ainda sinto dor local e o sangramento continua, ainda que menos. Mas todo mês, já sei, é inchaço, dor nas pernas e assim sigo.”
 

Em Paris, na França, entidades e pacientes promovem campanhas para arrecadar fundos destinados ao tratamento de mulheres com endometriose. A faixa diz %u201CEndometriose: vamos sair das sombras%u201D

(foto: AFP)
 
 
Diante de todo o sofrimento que tem encarado, Luana faz um alerta. “Viramos mãe e nos esquecemos de nós, não pode. Nunca foi uma 'colicazinha'. Fugia dos médicos, adiava as consultas e se tivesse enfrentado antes, o caminho seria menos dolorido. Agradeço a compreensão e ajuda do meu marido, Wesley, e os meninos, Guilherme e Thiago. São um bálsamo em nossas vidas.”




 
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INFERTILIDADE Nas pacientes com infertilidade, a prevalência da doença é maior, podendo acometer até 40% das pacientes inférteis. “A endometriose impacta a fertilidade da mulher, sendo comum a paciente ter que procurar a reprodução assistida para engravidar. Além disso, pode ocorrer alteração da anatomia tubária, qualidade ovocitária menor (comparativamente às pacientes sem endometriose) e mudanças na resposta inflamatória endometrial”, comenta Érica Becker, ginecologista, especialista em reprodução humana, da Huntington/Pró-Criar. 
 
“As pacientes com doença ovariana (endometriomas) podem ter comprometimento da reserva, podendo precisar de óvulos doados, pela destruição progressiva do tecido ovariano. É importante não aguardar muito para procurar atendimento especializado. Já pacientes com endometriose sem parceiro no momento, dependendo do grau da doença, devem procurar orientação para preservação de gametas (congelamento de óvulos). É essencial procurar suporte médico no diagnóstico para orientação e tratamentos adequados.”
 
Quanto aos estudos, Érica Becker conta que as intervenções cirúrgicas têm evoluído na tentativa de se preservar cada vez mais o tecido ovariano e as trompas, com foco na fertilidade da mulher. “As cirurgias robóticas são a última evolução tecnológica na abordagem da endometriose. A evolução das técnicas de reprodução assistida, do congelamento de células e tecidos permitem hoje às mulheres o congelamento de gametas e embriões para uso posterior.”




 
 

Uma década para ter o diagnóstico

 

Antônio Eugênio Motta Ferrari, especialista em reprodução assistida do Hospital Vila da Serra)

(foto: Alexandre Guzanshe/EM/D.A Press)
 
 
Cólica, dor pélvica, inchaço abdominal, náusea e fadiga são os principais sintomas da endometriose, mas o diagnóstico definitivo pode levar de cinco a 10 anos, segundo estudo de médicos do Instituto de Saúde Materno-Infantil Burlo Garofolo, da Universidade de Trieste e Universidade de Udine, na Itália. 
 
“O diagnóstico costuma ser tardio, porque os sinais podem ser facilmente confundidos com incômodos do período menstrual. O quadro pode vir acompanhado de dor durante a relação sexual e menstruação irregular. É comum ainda mulheres descobrirem que têm a doença crônica quando estão tentando engravidar, visto que a endometriose avançada é uma das causas da infertilidade. Exames de imagem e videolaparoscopia são os métodos mais seguros para detectar a condição”, explica Antônio Eugênio Motta Ferrari, especialista em reprodução assistida do Hospital Vila da Serra.
 
 
 
Ele acrescenta que o desconforto varia de intensidade e é sempre individual: “Há pacientes com grau leve a moderado que têm dores incapacitantes, o que reflete nas esferas profissional e pessoal. E há mulheres com um estado clínico severo que não sentem dor. Portanto, a abordagem terapêutica deverá ser individualizada”.




 
Para o especialista, os tratamentos mais empregados e eficazes são a cirurgia por videolaparoscopia para cauterizar os focos de endometriose e cortar as aderências, uso de pílula anticoncepcional de forma contínua, progesterona oral ou dispositivo intrauterino (DIU) de progesterona.

CÂNCER DO ENDOMÉTRIO Vale o alerta que a endometriose não tem qualquer relação com o câncer do endométrio, como enfatiza Antônio Ferrari. “A endometriose é uma condição benigna que pode afetar mulheres de diferentes faixas etárias. Já o câncer de endométrio é uma doença maligna, mais frequente na pós-menopausa, cujo sintoma frequentemente é um sangramento anormal.” 
 
De acordo com o Instituto Nacional do Câncer (Inca), são esperados 7.840 novos casos de câncer do corpo do útero (endométrio) no Brasil para o triênio 2023 a 2025, e o diagnóstico precoce é determinante para o sucesso do tratamento. “A ultrassonografia anual da pelve cumpre um importante papel no rastreio de hiperplasias do endométrio e pólipos, ou seja, lesões que podem evoluir para um câncer”, avisa. 
 
 

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