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Estado de Minas SAÚDE GLOBAL

Varíola dos macacos: LGBTQIA+ não é grupo de risco, afirma especialista

Infectologista diz que não há um grupo de risco, mas comportamento de risco, que pode ser feito por qualquer pessoa de qualquer gênero e orientação sexual


01/08/2022 10:27 - atualizado 01/08/2022 11:13

A infectologista Joana D'arc Gonçalves
A infectologista Joana D'arc Gonçalves diz que um estigma contra a população LGBTQIA+ pode ser criado caso as informações sobre a varíola do macaco não sejam dadas de forma clara (foto: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press)

A recomendação do diretor-geral da Organização Mundial de Saúde (OMS), Tedros Adhanom, de que homens que fazem sexo com homens reduzam o número de parceiros sexuais para minimizar o contágio e a transmissão da varíola dos macacos, acendeu o alerta em especialistas de saúde e pessoas LGBTQIA+ sobre o risco do novo surto da doença ser estigmatizado como um contágio exclusivo dessa parte da população.

O receio dos especialistas é de que as informações e recomendações sobre a doença crie no imaginário popular o entendimento de que a doença é algo exclusivo de gays ou homens bissexuais, como foi erroneamente feito com o vírus HIV nos anos 1980, quando a doença ficou conhecida como "peste gay" - mesmo com o diagnóstico positivo ser registrado também em mulheres, bebês e usuários de drogas injetáveis.

Para a infectologista do Centro Especializado em Doenças Infectocontagiosas (Cedin) Joana D'Arc, o erro foi que a recomendação de Tedros abriu margem para que a comunidade LGBTQIA seja vista como um grupo de risco, o que não é verdade.

Leia também: Varíola dos macacos: o que se sabe sobre a primeira morte no Brasil

"O que existe é um comportamento de risco, no caso aqui é o contato íntimo, que não está relacionado a uma opção sexual ou a determinado grupo. Essa forma de transmissão pode ser feita por todos, não apenas homens que fazem sexo com homens. Além disso, essa via sexual é apenas uma das formas de transmissão, não é exclusiva", pontua a especialista.

A varíola dos macacos também pode ser transmitida por troca de gotículas (como a COVID-19) e pela utilização de toalhas e roupas de camas de uma pessoa infectada. "A gente tem alguns pacientes que contraíram por meio do contato em casa com outras pessoas que se infectaram fora. Não é exclusivo da população LGBTQIA ", compartilha Joana.

A especialista confirma a possibilidade de um estigma ser criado caso as informações não sejam dadas de forma clara. "Infelizmente, hoje em dia no Brasil temos muito preconceito com algumas populações. E quando você analisa que homens que fazem sexo com homens são os que mais se infectaram no momento, temos que ter muita cautela para não estar estigmatizando, como na época do HIV", diz.

"As formas e as vias de transmissão são comuns para todos nós, repito, todos nós podemos ser vulneráveis", declara a especialista. "Eles (homens LGBTQIA ) não são risco e nem grupo de risco. Na verdade, eles estão, agora, como vulneráveis pelo que os dados mostram", diz.

Os dados, de acordo com Joana, devem servir para que os órgãos de saúde façam uma busca ativa e forneçam atendimento médico para essa parte da população. "Os registros têm que ser vistos como uma forma de prevenção e não como uma forma de estigmatizar. Tem que servir para traçar estratégias", defende.

Subnotificação e falta de procura de saúde podem impedir diagnóstico

Para a especialista, um dos motivos que podem justificar que a maior parte (98%) dos infectados serem homens que fazem sexo com homens é porque essa parte da população, historicamente, sempre procura auxílio médico quando percebe algo de errado com o corpo.

"Diferentemente de outros grupos que tendem a esconder sintomas, essa população sempre procura os serviços de saúde. Muitas pessoas apresentam os sintomas e ficam em casa, não vão ao hospital, o que é ruim porque não notificamos os órgãos de saúde e também não conseguimos orientar os cuidados de isolamento para interromper a transmissão", detalha.

Além disso, o prazo para os resultados dos testes de detecção ainda é demorado. "Os testes demoram para sair e há várias outras doenças que simulam a varíola dos macacos, o que torna complicado o diagnóstico", conta Joana.

Os sintomas da varíola são febre, dor de cabeça, dores musculares e nas costas durante os primeiros cinco dias. As erupções e lesões só ocorrem depois da primeira semana. Joana aconselha que, "se alguém tiver algum tipo de lesão sugestiva, procure um serviço de saúde para ser notificado o caso". Em todo caso, é recomendável fazer um isolamento desde os primeiros sintomas.

"Nossa esperança é que o governo adquira o quanto antes os kits de biologia molecular para gente fazer o diagnóstico mais rápido e diminuir o número de expostos. Além disso, que a gente possa adquirir os antivirais e a vacina, que aí a circulação viral será ainda mais restringida", pontua.

A varíola dos macacos

A doença foi identificada pela primeira vez em 1958, entre macacos em laboratório. Os primeiros casos em humanos foram registrados em 1970, na República Democrática do Congo. De lá para cá, a doença sempre se limitou aos países africanos.

O novo surto, iniciado em maio deste ano, espalhou o vírus para, até o momento, 75 países, com prevalência da transmissão pelo contato sexual. No entanto, a transmissão ocorre por troca de gotículas, compartilhamento de toalhas e lençóis com pessoas infectadas.

A OMS afirma que 19 mil casos foram relatados à instituição. No Brasil, há 978 casos confirmados, com maior registro em São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais. Nesta sexta-feira (29/7), o país registrou a primeira morte pela doença. A vítima era um homem de 41 anos, de Uberlândia (MG), que estava com imunidade baixa por ter linfoma, câncer que afeta as células do corpo.


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