Jornal Estado de Minas

ENTREVISTA

Janones: 'As pessoas não querem briga por Bolsonaro ou Lula. Querem ter o que comer'

A mãe de todas as lives alcançou não 3,5 milhões de visualizações pelo Facebook, como registrado neste 1º de setembro; mas 32 milhões, em dezembro do ano passado, quando foi alvo de um processo de cassação movido pelo Solidariedade, presidido pelo deputado federal Paulo Pereira (SD-SP). Mas a exemplo da grande exposição durante a greve dos caminhoneiros em 2018, que impulsionou a visibilidade do hoje deputado federal estreante André Janones (Avante-MG) para todo o país; foi nesta semana, com a live que convocava um tuitaço pela manutenção do auxílio emergencial em R$ 600, que despertou a atenção da academia. O vídeo gerou uma onda de compartilhamentos e se tornou o mais comentado do mundo ocidental no Facebook naquele dia, segundo o professor da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) Fábio Malini. Enquanto Janones rodava em vídeo pelo Facebook  por mais de 3,5 milhões de vezes; pelo Twitter se espalhava a hashtag que figurou entre os assuntos mais comentados da plataforma.





Para quem não o conhecia, espanto. Mas para quem o acompanha nas redes, nada de novo. A página de Janones no Facebook alcançou esta semana 48,7 milhões de diferentes formas de engajamento, como curtidas, comentários e compartilhamentos; quase o mesmo resultado do presidente dos Estados Unidos Donald Trump, que teve 55,3 milhões de engajamentos. O resultado deste parlamentar mineiro nesta plataforma, advogado de 36 anos, nascido em Ituiutaba, no Triângulo Mineiro, foi quase cinco vezes superior ao de Jair Bolsonaro e ao de Joe Biden, candidato democrata à Presidência dos Estados Unidos. 

Ao estilo deputado-repórter, ou repórter-deputado, André Janones protagoniza lives “quentes”, no momento dos fatos, apresentando a sua interpretação ao seu público. E não poupa a polêmica. Estreante na política, em menos de dois anos de mandato já registrou ao vivo grandes embates saboreados pelos 6,8 milhões de seguidores em seu principal canal, a página do Facebook; por 1,4 milhão de seguidores no Instagram; e 1,1 milhão de seguidores no Youtube. Ainda iniciante  no Twitter, tem ali apenas 63 mil seguidores.

Num desses momentos de confronto espalhados a todo o Brasil, em fevereiro de 2019, sob a indignação da tragédia de Brumadino, Janones bateu de frente com o então presidente da Vale, Fabio Schvartsman e com o ex-secretário de Estado do Meio Ambiente, Germano Vieira, aos quais chamou de “bandidos” durante audiência da Câmara dos Deputados. E o fez após consultar os seus seguidores. “Fui o porta-voz. Disse o que me pediram”, explica. Tal vídeo alcançou 15 milhões de visualizações só no Facebook e pelo Instagram, 25 milhões de compartilhamentos.





Não menos popular são as peças produzidas no “quadro” Fiscal do Povo. De colete e câmara em punho, ao estilo Polícia Federal em ação, André Janones invade repartições públicas em cidades do interior onde recebe denúncias de corrupção. Cada um destes alcança, em média, entre 5 e 6 milhões de visualizações. “Função do deputado é fiscalizar. E assim eu estou popularizando o nosso trabalho”, avisa.

O sr. esperava a repercussão que obteve com esta live de 1º de setembro, em que convoca a população para um tuitaço em defesa da manutenção do valor de R$ 600 para o auxílio emergencial?

Confesso que não estou entendendo toda essa repercussão. Vi os jornais considerando-a a maior live durante a pandemia, com 3,5 milhões de visualizações. A maior live da pandemia que eu fiz teve 20 milhões de visualizações: foi em 26 de março, quando entrei ao vivo para anunciar assim que a Câmara tinha acabado de aprovar a lei que instituiu o auxílio emergencial. Tenho uma com 12 milhões de visualizações na porta do Congresso, em 15 de junho, sugerindo ao presidente que cobrasse dos grandes devedores da Previdência para que assim prorrogasse o auxílio, este vídeo fiz em 15 de junho. E tenho mais de 20 vídeos que estão na faixa entre 10 e 15 milhões de visualização. E a maior live de meu mandato, até agora, teve 32 milhões de visualizações, foi no final do ano passado, quando abriram processo de cassação do meu mandato.  Considerando a minha relação com a população, o crescimento é contínuo, não aconteceu esta semana. O que teve de diferente esta semana é que as principais lideranças do país começaram a olhar para nosso trabalho. Mas não houve uma “explosão” esta semana.

Uma das características de seu mandato tem sido uma atuação ao estilo “repórter-deputado”, em que o sr entra ao vivo dando as notícias e também mobilizando os seus seguidores para alcançar trend topics. Causa estranheza no Congresso esse tipo de atuação?

Faço a comunicação direta com os meus eleitores. Minha promessa de campanha foi de que transformaria a Câmara num verdadeiro Big Brother, as pessoas saberiam tudo o que acontece lá dentro. Tenho mantido essa política e às vezes isso gera algum mal-entendido. Por exemplo, em 15 de julho, votávamos em plenário a emenda que visava obrigar o presidente a pagamento o auxílio emergencial no valor de R$ 600,00 até dezembro. Essa emenda introduzia a sutil diferença de estar obrigando, diferentemente da matéria aprovada, que autorizava o presidente a pagar. Essa emenda foi rejeitada por 309 a 123.  Divulguei o nome de cada deputado que votou contra e a favor. E alguns deputados começaram a falar que era fake news, que todos haviam votado autorizando o presidente a pagar o auxílio no valor de 600,00. A grande confusão é que não diferenciaram entre facultar e obrigar. Todos os deputados votaram favoráveis a facultar o presidente. Mas o que disse foi que votaram contrariamente a obrigar o presidente a pagar. Esse vídeo deu entre 3 e 4 milhões. E causou polêmica. Eu ganho às vezes a rejeição da classe política, mas o meu compromissos é com o eleitor.





O seu partido, o Avante, está na base de sustentação do governo Bolsonaro. Como o sr. se posiciona em plenário?

Meu trabalho na Câmara dos Deputados, desde o início, é independente. Eu estou fora da polarização. Não me coloco como oposição nem como situação. Nem fico em cima do muro. Se fizer o balanço das minhas votações, verá que votei favoravelmente em 49% dos projetos do governo; em 51% deles votei contra. Praticamente um empate. Estou longe da oposição e da situação. Esta é a minha função de independência no parlamento. Quem não tem capacidade de reconhecer os acertos do governo, perde a credibilidade para criticar. E vice-versa. Quem só sabe bater palma perde credibilidade ao não reconhecer que o governo erra.

A que o sr. atribui a visibilidade e o sucesso em engajamento nas redes sociais?

A resposta é evidente. Há a falsa impressão, uma narrativa, de que o país esteja polarizado, de que o Brasil esteja dividido, de que exista uma polarização entre direita e esquerda. Mas no Brasil real não há polarização. A grande maioria do povo brasileiro não dedica o seu tempo nem a atacar nem a defender Bolsonaro, nem atacar nem defender a esquerda. A maioria está preocupada em colocar comida na mesa. As pessoas não querem briga por Bolsonaro nem por Lula. Querem ter o que comer. Este foi o grande diferencial. Eu represento essa população, que quer saber o mérito dos projetos. As pessoas não querem briga por Bolsonaro nem por Lula. Querem ter o que comer. Isso tendo responsabilidade com o meu trabalho, sem arrogância, trazendo para o debate a população que precisa ter voz no Congresso Nacional. E todo esse engajamento é porque eu tenho no mundo real um trabalho real, de apoio e ajuda às pessoas que necessitam de atendimento jurídico. Durante dez anos atuei advogado para quem precisava de atendimento na fila do SUS por exame, de cirurgia e de medicamentos. Eu me formei advogado trabalhando como cobrador de ônibus e com bolsa para alunos carentes. Quis devolver isso para a sociedade e tirei um dia da semana para atender gratuitamente. E continuo, agora como deputado, atuando como fiscal do povo, a partir de uma interação direta com os eleitores. Então, há uma atuação real, agora impulsionada pelas redes sociais.

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