Publicidade

Estado de Minas SAúDE

Homem morre com febre hemorrágica em São Paulo

Caso da doença rara e letal causada por aerovírus é o primeiro em 20 anos no Brasil. Pessoas que mantiveram contato com ele e locais por onde passou são monitorados


postado em 22/01/2020 04:00 / atualizado em 22/01/2020 07:31

Senhor de 52 anos estava internado no Hospital das Clínicas da USP. Contaminação pode ter ocorrido por urina de rato selvagem(foto: banco de imagens/hcfmusp)
Senhor de 52 anos estava internado no Hospital das Clínicas da USP. Contaminação pode ter ocorrido por urina de rato selvagem (foto: banco de imagens/hcfmusp)

Um homem de 52 anos morreu vítima de febre hemorrágica, em Sorocaba, São Paulo. A informação foi confirmada pelo Ministério da Saúde. Esta é a primeira vez em 20 anos que a doença, considerada rara e letal, é registrada no país. A pasta informou que a contaminação do homem, que não teve o nome divulgado, foi causada por aerovírus. A vítima começou a sentir os sintomas no dia 30 de dezembro de 2019 e passou por três hospitais diferentes nos municípios de Eldorado, Pariquera-Açu e São Paulo. O último hospital onde ele ficou internado foi o Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (Famusp).
 
A princípio, foram realizados exames para identificação de doenças como febre amarela, hepatites virais, leptospirose, dengue e zika. No entanto, todos os resultados foram negativos. O homem morreu no dia 11 de janeiro de 2020, 12 dias após ficar doente. Ele não tinha histórico de viagem internacional.
 
A origem da contaminação do paciente ainda não foi confirmada. "O que se sabe é que as pessoas contraem a doença possivelmente por meio da inalação de partículas formadas a partir da urina, fezes e saliva de roedores infectados”, informou, em nota, o Ministério da Saúde. Esses animais, quando cronicamente infectados, podem eliminar o vírus por toda a vida.
 
A transmissão dos arenavírus de pessoa a pessoa pode ocorrer quando há contato muito próximo e prolongado ou em ambientes hospitalares, quando não utilizados equipamentos de proteção, por meio de contato com sangue, urina, fezes, saliva, vômito, sêmen e outras secreções ou excreções. Os funcionários dos hospitais por onde o paciente passou estão sendo monitorados, e avaliados, assim como os familiares da vítima. O Ministério da Saúde também vai realizar uma busca ativa de pessoas que tiveram contato com o homem para investigação ambiental.

Monitoramento A mulher da vítima e uma irmã do homem estão sob monitoramento. “Orientamos as duas para que fiquem isoladas, em quarentena, pelo menos até o dia 3 de fevereiro, quando vence o período máximo de possível transmissão. Também pedimos que evitem compartilhar copos, talheres, roupas e objetos de uso pessoal com outras pessoas”, afirmou a médica infectologista Priscilla Helena dos Santos, coordenadora da Vigilância Epidemiológica de Sorocaba.
 
De acordo com o secretário de Saúde de Sorocaba, Ademir Watanabe, é pouco provável que o homem tenha adquirido o vírus na cidade onde morava. Segundo ele, os locais mais prováveis de contaminação são áreas rurais de Itapeva e Itaporanga, onde o paciente esteve. “Existe o relato de que, em uma dessas localidades, há um paiol com a presença de roedores, ratos do campo, que são os transmissores da doença. Na casa em que ele morava com a companheira, em Sorocaba, não existe a presença de ratos silvestres, que são o reservatório natural do arenavírus.”
 
Mesmo assim, segundo ele, todas as pessoas que tiveram contato com o paciente estão sendo monitoradas. A Vigilância Epidemiológica Estadual já orientou as medidas de bloqueio nas cidades visitadas pelo paciente. Conforme o secretário, os deslocamentos do paciente foram reconstituídos para a adoção das medidas de bloqueio. No período de 1 a 5 de dezembro, ele permaneceu em Sorocaba, em sua casa na Vila Carvalho, viajando em seguida para Eldorado, no Vale do Ribeira, onde tem parentes. No dia 15, retornou para Sorocaba e, no dia 21, viajou para Itapeva, no Sudoeste paulista. No dia seguinte, o homem se deslocou para Itaporanga, cidade da mesma região, permanecendo até o dia 26, quando retornou para Sorocaba.
 
No dia 29, um dia antes de apresentar os sintomas, ele viajou novamente para Eldorado, onde procurou uma unidade de saúde já com os sintomas iniciais da doença. O quadro inicial, de dor no abdômen, náuseas e dores musculares, evoluiu para febre alta, queda de pressão, confusão mental e hemorragia. O paciente foi transferido para o Hospital Regional de Pariquera-Açu e, em seguida, para o Hospital das Clínicas de São Paulo.
 
De acordo com o secretário, a pasta municipal foi notificada no dia 7 de janeiro pelo Hospital das Clínicas da capital e iniciou as investigações epidemiológicas. “Havia suspeita inicial de febre amarela, por ele ter viajado para o Vale do Ribeira, mas os sintomas eram diferentes e ele havia sido vacinado contra essa doença. Como havia ratos urbanos na região em que mora, nós passamos a investigar também a leptospirose. O fato é que, em nenhum momento, esse paciente foi atendido em Sorocaba, o que reduz o risco de contaminação aqui”, disse.

Febre hemorrágica O período de incubação da doença é longo (em média de 7 a 21 dias) e se inicia com febre, mal-estar, dores musculares, manchas vermelhas no corpo, dor de garganta, no estômago e atrás dos olhos, dor de cabeça, tonturas, sensibilidade à luz, constipação e sangramento de mucosas, como boca e nariz. Com a evolução da doença pode haver comprometimento neurológico, como sonolência, confusão mental, alteração de comportamento e convulsão. Por causa da raridade e letalidade da doença, o ministério considera o caso como um evento de saúde pública grave. O fato foi comunicado à Organização Mundial de Saúde e à Organização Pan-americana da Saúde (OMS/Opas), conforme protocolos internacionais estabelecidos.
 
Embora a doença ainda seja pouco pesquisada, sabe-se que o arenavírus é transmitido pelas fezes e excreções do rato silvestre, que vive em matas, mas infesta paióis, lavouras de grãos e depósitos de cereais. A doença difere da leptospirose, pois esta é transmitida pelas fezes e urina de rato doméstico – ratazana, rato de telhado e camundongo – e é causada por uma bactéria.
 
No Brasil, há histórico de quatro casos humanos de febre hemorrágica brasileira causada pelo mesmo vírus, o último deles detectado em 1999, em um paciente de 32 anos, residente em Espírito Santo do Pinhal, no interior paulista. O homem, morador da zona rural e operador de máquinas de café, ficou internado sete dias e acabou morrendo. (Com agência)



Publicidade