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Estado de Minas ENTREVISTA/LARRY ROTHER

Jornalista desvenda as muitas faces do marechal Rondon

Nova biografia traz a luta do explorador em defesa dos índios e sua atuação como diplomata


postado em 06/05/2019 06:00 / atualizado em 06/05/2019 07:57

Em um de seus primeiros contatos com os índios, Rondon Leva presentes para a tribo dos Parecis(foto: O Cruzeiro/Arquivo EM - 1907)
Em um de seus primeiros contatos com os índios, Rondon Leva presentes para a tribo dos Parecis (foto: O Cruzeiro/Arquivo EM - 1907)

Apesar de ser o único brasileiro com um estado da Federação nomeado em sua homenagem, Cândido Mariano da Silva Rondon tem boa parte de seus feitos e de sua trajetória desconhecidos no Brasil.

Descendente de índios Bororos e Terenas (povos antigos da região amazônica), Rondon saiu do interior do Mato Grosso para se tornar um dos nomes mais respeitados do Exército brasileiro e entre exploradores e cientistas do mundo.

No entanto, seu trabalho foi muito além das expedições que descobriram terras inexploradas e das construções de linhas telegráficas até a região da Amazônia. Em Rondon, uma biografia, o jornalista norte-americano Larry Rother mostra lados pouco conhecidos do explorador.

A obra traz sua luta pela defesa dos povos indígenas – que renderam várias indicações ao prêmio Nobel, uma delas de Albert Einstein – e sua atuação como diplomata, evitando conflitos entre Brasil, Peru e Colômbia por questões de fronteiras na região.

Descendente dos Bororos, o então general conversa com o chefe da tribo na língua deles(foto: Heinz Foenthmann/O Cruzeiro/Arquivo EM - S/D)
Descendente dos Bororos, o então general conversa com o chefe da tribo na língua deles (foto: Heinz Foenthmann/O Cruzeiro/Arquivo EM - S/D)

Parte dos arquivos a que Rother teve acesso para contar os detalhes da vida de Rondon estavam no Museu Nacional, no Rio, e acabaram queimados no incêndio do ano passado. Além do acervo antropológico, com materiais recolhidos durante suas expedições na floresta e doados ao museu, lá estavam também cartas trocadas entre Rondon e outros pesquisadores e cientistas.

“Como pesquisador fiquei estarrecido, muito triste e decepcionado. Porque eu ainda tirei proveito daquela riqueza, mas é difícil pensar que no futuro os pesquisadores não terão mais essa oportunidade. Lamentável”, diz o jornalista.

Larry Rother(foto: Objetiva/Divulgação)
Larry Rother (foto: Objetiva/Divulgação)
Como surgiu o interesse em escrever sobre a história do marechal Cândido Rondon?
A figura de Rondon, sua vida e trajetória me fascinam há mais de 40 anos. Começou quando eu era correspondente no Brasil, ainda no final dos anos 1970. Fui para Amazônia em 1978 e o primeiro lugar que parei foi o então território de Rondônia, ainda não era um estado do Brasil. Fui fazer matérias sobre o garimpo e a atuação de madeireiros na selva, não sabia nada sobre Rondon. Chegando lá, comecei a entender melhor a região e conversando com as pessoas fiquei impressionado com toda a história que envolvia esse importante personagem. Imaginava como era difícil viajar pela região no início do século 20. Quer dizer, se eu tive tanta dificuldade na década de 1980, imaginei como teria sido 75 antes. A ideia de escrever a biografia de Rondon foi semeada na minha cabeça desde então. Durante anos disse que escreveria sobre Rondon.

No início do século passado ele ficou conhecido nos Estados Unidos pela expedição Roosevelt–Rondon pela Amazônia. Como era a imagem de Rondon por lá?
Essa é uma história muito conhecida nos Estados Unidos, mas sempre com Rondon assumindo um papel de coadjuvante e nunca como o comandante da expedição. Papel que ele assumiu na realidade. Quando entrei para valer no projeto, em 2015, tive acesso a documentos nos arquivos brasileiros e americanos mostrando qual foi o real papel de Rondon naquela missão. Não foi um mero coadjuvante, mas o principal nome da expedição.

Por que ele não teve o destaque merecido na época?
A cobertura da imprensa americana e europeia da expedição na Amazônia sempre o tratou como um guia. As características e origens indígenas, por um total preconceito, prejudicaram a imagem de Rondon no exterior. Ele não cabia dentro dos padrões reconhecidos do “grande explorador”. Ele era baixo, magro e mestiço. Não era um europeu, alto e louro. Mas a verdade é que Roosevelt, seu filho e os outros cientistas americanos foram liderados por Rondon, pegaram carona com o brasileiro. Rondon não estava viajando para um lugar considerado exótico como fazem os desbravadores pelos padrões europeus, mas estava na região onde ele nasceu. Ele conhecia profundamente os perigos. Com apenas 6 anos, Rondon já sabia tudo de que precisava para desbravar a selva amazônica.

''Ele merecia o Nobel. O fato de não ter ganhado o prêmio é outro indício de preconceito contra um mestiço. O trabalho em prol dos povos indígenas, combinado com o trabalho diplomático que ele fez na fronteira do Brasil com Colômbia e Peru, foi extremamente significativo para a região''



Onde o senhor encontrou mais detalhes sobre a vida de Rondon?
Os arquivos no Brasil são riquíssimos em detalhes sobre a vida dele. Destaco os dois arquivos do Exército. Também encontrei muitas informações no Museu Nacional, no Rio de Janeiro, e no arquivo do Itamaraty. Achei outras informações importantes em museus do Mato Grosso e no Rio Grande do Sul. Muita coisa sobre sua trajetória como militar, diplomata e cientista. Mas chegou um momento em que eu tinha colhido muitos fatos sobre sua vida, tinha um cronograma completo de seus passos. Mas olhava fotos e ainda me perguntava: quem foi esse homem? O que conheço dele fora dos documentos oficiais? Fiquei um pouco assustado. Foi então que tive a sorte de encontrar seus diários. A partir de então, tive acesso ao outro lado de Rondon, a faceta do homem. Os sonhos e as decepções. Os sucessos e os fracassos. Consegui ir além do homem oficial. Foi possível saber como ele ficou magoado durante a Revolução de 1930 (quando Getúlio Vargas deu um golpe e assumiu o poder). Depois de tantos anos de trabalho e sacrifício pelo Exército, ele acaba sendo preso e expurgado da instituição. Escreve palavras muito duras e tristes.

O senhor acompanhou o trágico incêndio no Museu Nacional? Muitos materiais recolhidos por Rondon em suas pequisas estavam nos arquivos queimados?
Temo que muita coisa de Rondon tenha se perdido. Passei um mês pesquisando no Museu Nacional. Encontrei tanta coisa sobre ele. Mas não só sobre ele, também sobre cientistas da turma dele, como Roquette Pinto, Frederico Hoehne e outros pesquisadores importantes do país. Tive acesso às correspondências dele com seus colaboradores, todas as gravações que ele fez, todos os artefatos que ele doou para o museu. Temo que tudo isso se perdeu. É muito triste. Ainda estão fazendo um levantamento, mas parece que quase tudo se perdeu nesse incêndio. Como pesquisador, fiquei estarrecido, muito triste e decepcionado. Porque eu ainda tirei proveito daquela riqueza, mas é difícil pensar que no futuro os pesquisadores não terão mais essa oportunidade. Lamentável.

Rondon é o único brasileiro a ter um estado nomeado em sua homenagem. Ainda assim, os brasileiros não conhecem bem esse personagem ou sabem pouco sobre ele...
Todo brasileiro já ouviu falar dele. Seja em praças ou ruas em sua homenagem. Mas a versão transmitida no ensino escolar sobre ele é limitada e unidimensional. Ou ele é apresentado como o desbravador do sertão ou o militar positivista que cunhou a famosa frase ‘Morrer, se preciso. Matar, nunca’ na filosofia de abordar os indígenas. Mas, na realidade, a vida dele tem outras dimensões que são muito pouco conhecidas. Ele fez muito mais do que integrar o norte com o sul do país e levar a comunicação para pontos distantes. Seu trabalho como cientista é primoroso, sua atuação como estadista, diplomata e filósofo. Rondon é uma figura histórica e foi personagem central na República do Brasil.

''As características e origens indígenas, por um total preconceito, prejudicaram a imagem do de Rondon no exterior. Ele não cabia dentro dos padrões reconhecidos do 'grande explorador'. Era baixo, magro e mestiço''



Como era sua filosofia no contato com os índios no início do século 20?
A ideia de Rondon era de buscar sempre uma convivência pacífica entre a sociedade brasileira e os povos indígenas. Ele pregava um sistema em que os grupos indígenas teriam direito às terras de seus ancestrais, a sua própria cultura e, principalmente, de escolher o grau de aceitamento que teriam com a sociedade. Ou seja, os índios poderiam escolher pela integração total, parcial ou afastamento total. É uma posição de respeito às escolhas das tribos indígenas.

Um século depois, o governo brasileiro adota um tom diferente em relação à questão indígena. A filosofia de Rondon seria criticada nos dias de hoje?
Temos que lembrar que ele já era visto pelo governo brasileiro como um empecilho na época também. Rondon fez um esforço enorme para evitar um genocídio indígena em 1910. A briga que comprou contra os partidários da expansão desenfreada da agricultura e das ferrovias em terras indígenas foi um episódio marcante para o país e tem reflexos até os dias de hoje. Sua luta foi muito relevante na época e continua muito relevante atualmente. Rondon nos dá dicas fundamentais sobre como relacionar com os indígenas.

Rondon foi o brasileiro com maior chance de vencer o Nobel da Paz?
Ele merecia o Nobel. O fato de não ter ganhado o prêmio é outro indício de preconceito contra um mestiço. O trabalho dele em prol dos povos indígenas, combinado com o trabalho diplomático que ele fez na fronteira do Brasil com Colômbia e Peru, foi extremamente significativo para a região. Albert Einstein ficou muito impressionado com a atuação do brasileiro e foi o primeiro a sugerir o prêmio a ele. Mas Einstein não foi o único. Ele seria citado outras duas vezes 30 anos depois. Sua contribuição em diversas áreas foi gigantesca.

O senhor voltou a Rondônia recentemente? Consegue comparar o lugar que conheceu na década de 1970 com o lugar nos dias de hoje?
Fiz a viagem em 2015, justamente nas comemorações dos 150 anos do nascimento de Rondon. Viajei por Mato Grosso, Amazonas e Rondônia tentando, de certo modo, seguir a trilha que ele percorreu. Claro que não pretendia duplicar a descida pelo Rio da Dúvida (depois renomeado Rio Roosevelt), mas queria ver alguns lugares, sentir e cheirar o ambiente que ele viveu para poder transmitir um pouco do calor local e dos problemas enfrentados, como a chuva, os insetos. É possível ter uma ideia de todas as dificuldades que os desbravadores enfrentaram há 100 anos.

 

 


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