Com orçamento de R$ 12,93 bilhões para gerenciar em 2019, o secretário da Fazenda de Belo Horizonte, Fuad Noman, afirma em entrevista ao Estado de Minas que o pior da crise já passou e, mesmo com ela, a PBH conseguiu manter o pagamento dos servidores em dia. Para o próximo ano, não garante reajustes, mas afirma que não há possibilidade de os salários deixarem de ser pagos ou serem sujeitos a um parcelamento. O secretário do prefeito Alexandre Kalil (PHS) afirmou que a prefeitura sofreu com inadimplência, diante das dificuldades financeiras, mas recorreu a esforços de cobrança para melhorar as finanças. Para o ano que vem, estão previstos R$ 2 bilhões em empréstimos para obras de infraestrutura, saneamento e mobilidade urbana. A prefeitura também vai cobrar do novo governador de Minas, Romeu Zema (Novo), R$ 300 milhões que estima serem devidos pela gestão atual, em repasses de ICMS, IPVA e Fundeb. Na entrevista, Fuad Noman defendeu as privatizações e disse apostar na retomada da confiança dos investidores com os próximos governos que se iniciam em 2019, de Jair Bolsonaro (PSL) e Zema.
Em qual situação financeira a prefeitura fecha as contas de 2018?
Equilibrados financeiramente, sem nenhum tipo de sobra, mas também sem dever nada. Os salários estão em dia, o 13º antecipado, todos os fornecedores pagos, os compromissos dentro dos prazos legais, mas em um equilíbrio muito forte, tendo que fazer muita redução de despesa, porque a gente não está recebendo o dinheiro do estado que deveria estar. O estado hoje deve para a prefeitura, em recursos líquidos, R$ 300 milhões, é o número que nós estimamos.
Como neste cenário de crise a prefeitura conseguiu antecipar o pagamento do 13º e do salário?
O cenário de crise é complexo. Em tese, os impostos municipais, especialmente o IPTU, não deveriam sofrer impacto porque são sobre o patrimônio. Mas o que acontece é que as pessoas optam por pagar outros compromissos e acabam aumentando a inadimplência sobre o patrimônio. Quando a crise vai embora, a renda e o consumo voltam rápido. O patrimônio é o último, porque você tem tantos compromissos em débito que acaba deixando para o fim.
Em quanto está a inadimplência em BH?
Normalmente, essa inadimplência beira 15% a 16%. Temos feito um esforço grande de receber esses atrasados.
Qual o orçamento da prefeitura para o ano que vem? Há margem para obras?
O orçamento do ano que vem dentro de uma realidade nossa vai bater perto de R$ 12 bilhões. Temos vários empréstimos em fase final. Estamos fechando uma contratação com o Banco de Desenvolvimento da América Latina (CAF), já aprovada pelo governo federal, de US$ 82,5 milhões para obras de mobilidade urbana e na área da saúde. Fechamos com o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) cerca de US$ 139 milhões. A gente está, para o ano que vem, com recursos estimados de mais de R$ 2 bilhões para fazer obras na área de infraestrutura, saneamento e mobilidade urbana.
Servidores podem esperar reajustes?
Temos que ter muito cuidado, porque qualquer aumento de despesa que não tenha a segurança de que a receita está arrecadada desequilibra lá na frente. Sobre o funcionalismo, é um trabalho que a Secretaria de Planejamento está fazendo. Não adianta dar 20% de aumento e não pagar. É melhor eu ser realista, dar o aumento que pudermos e chegar ao fim do mês e pagar o salário dele em dia. Contar com o recurso que tenho é fundamental para o planejamento. O que posso dizer é que não podemos transigir no equilíbrio das contas.
O senhor pode garantir que não vai haver parcelamento ou falta de pagamento então?
Digo que esses dois anos foram os de maior crise e não atrasamos nem um dia e que no ano que vem não vamos atrasar salário nem um dia também, porque os nossos compromissos, nós planejamos efetuar o pagamento exatamente na forma que a lei manda. Não é favor que estamos fazendo, é cumprir obrigação.
O senhor disse que Minas deve R$ 300 milhões para a PBH. O senhor espera que o novo governo regularize esse repasse e como pretende negociar esse pagamento?
São transferências constitucionais, em tese não precisamos negociar nada, temos que receber o dinheiro.
Que demandas a prefeitura tem para a União no novo governo?
O FPM está em dia. Na área da saúde faltam alguns recursos, mas é um processo que é de constante negociação e vem acontecendo normalmente. Nosso problema é receber do estado.
Que medidas o senhor, que foi secretário da Fazenda no governo Aécio Neves, acredita que o próximo governo tenha de tomar para equilibrar as contas?
Não conheço a situação atual do estado e não sei como está o déficit. Então, prefiro não me manifestar. A única coisa que posso dizer é o padrão que está na lei: diminui despesa e aumenta a receita, não tem outra saída. E não pode aumentar receita aumentando imposto e não pode reduzir despesas reduzindo despesas diárias importantes. Tem que diminuir na área-meio para gastar na área-fim.
O que o senhor acha que levou o estado à atual situação?
O governo Pimentel enfrentou uma crise nacional muito grande e não entendeu, não se preparou, continuou fazendo as mesmas coisas, só pode ser essa a explicação. Não conheço a fundo as questões do estado, mas entendo que algumas medidas de contenção de despesa tinham de ser tomadas e ele não deve ter feito isso.
Como economista, qual perspectiva enxerga para o ano que vem?
Nós, economistas, falamos que a grande arma da economia é a confiança. O momento em que a sociedade perceber que o governo é estável e tem projetos adequados e que isso gera confiança, a economia começa a deslanchar naturalmente. Estamos há muito tempo num estágio de paralisação, o país não cresce, fica andando de lado. Existem muitas empresas precisando investir no Brasil, a demanda é grande, tem muito desemprego e isso tudo é fruto da falta de confiança na economia. Se você não tem segurança jurídica e econômica de qual caminho o país vai seguir, você não investe. O que eu espero é que o novo presidente, com a equipe econômica bem reconhecida que está se mostrando, possa trazer para a sociedade a confiança. E à medida que a confiança vem, permite que você faça as reformas necessárias para reduzir despesa. O Brasil não pode ficar com R$ 150 bilhões de déficit, isso gera uma desorganização na economia importante. A reforma da Previdência está atrasada há 20 anos. À medida que o governo sinaliza que vai fazer essas reformas caminha para equilibrar as contas. Política monetária está equilibrada, a inflação está sob controle, no aspecto macroeconômico a gente está caminhando em todos os segmento da política menos na política fiscal.
Seria este o grande gargalo do próximo governo?
Claramente, o maior gargalo do próximo governo é a política fiscal. Você tem um orçamento comprometido com um déficit elevadíssimo e algumas ações que precisam ser adotadas para intervir na política fiscal, como a reforma da Previdência, dependem de ampla negociação com o Congresso e a gente não sabe o quanto ele vai fazer isso, mas o foco principal precisa ser gastos públicos. A hora que se tiver uma política claramente definida para resolver gastos públicos você tem a confiança da sociedade para a economia voltar a crescer e, isso acontecendo, o efeito multiplicador de investimentos é grande. Estamos no limiar de um governo que tem tudo para devolver para a sociedade a confiança.
Os próximos governos apostam nas privatizações. Como o senhor as avalia como soluções?
A privatização é uma questão que precisa ser entendida não sob o aspecto ideológico, mas pelo econômico. O governo precisa entrar em atividade econômica produtiva porque não tem iniciativa privada capaz de fazer isso. Mas a partir do momento em que ele fez isso e a iniciativa privada está disposta a entrar, é hora de o governo sair para que a iniciativa privada assuma. O Brasil deixou o tempo passar muito, com isso as empresas estatais acabaram ficando em uma situação de extrema penúria financeira, hoje precisam investir e não têm dinheiro. Acho que o caminho é o estado participar daquelas atividades onde não há interesse privado, e quando houver (interesse) ele sai, vende participação, recebe tudo que puder. Também não é para entregar a preço de banana, mas tem que fazer. A privatização é absolutamente necessária por conta da necessidade de investir.
O senhor lançou o livro O amargo e o doce. De onde veio a inspiração?
É um romance, uma novela que conta a história de um fazendeiro do interior de Minas e a família dele vem crescendo. Naqueles momentos em que você está com a cabeça cheia de problema, senta e começa a contar uma história para aliviar a cabeça. Tenho recebido boas avaliações do livro. Espero que as pessoas aproveitem o Natal para dar livros de presente e se quiserem dar O amargo e o doce vou ficar feliz.
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