São Paulo, 15 - Na opinião de Roberto Romano, professor de Ética e Filosofia da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), o País vive "uma espécie de liquefação dos partidos políticos", o que se "reflete na incerteza do voto". "Eles (os partidos) perderam o caráter de liderança social, política e institucional." Segundo o filósofo, neste cenário de alienação do voto, são "as mulheres que sentem mais o peso da crise econômica, da crise política e da crise de segurança". Leia os principais trechos da entrevista ao jornal
O Estado de S. Paulo
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O que explica a expectativa de aumento nos votos brancos e nulos?
Esse aumento exponencial dos indecisos tem a ver com a queda cada vez mais célere da confiabilidade nas instituições de Estado e nos partidos políticos. Temos uma espécie de liquefação dos partidos políticos. Eles perderam o caráter de liderança social, política e institucional. Isso se reflete na incerteza do voto. Não há um programa de governo coerente, um programa de modificação do Estado ou de melhoria da sociedade.
Como esse cenário afeta o processo eleitoral?
Serve para encobrir essa ausência programática e doutrinária. Temos uma espécie de Fla x Flu delineado para enganar justamente os que são mais politizados. De um lado, a extrema direita, representada pelo Jair Bolsonaro, e a esquerda, liderada por (Luiz Inácio) Lula (da Silva, preso e condenado na Lava Jato). Esse verniz ideológico vem para cobrir essa ausência de propostas ideológicas, programáticas e técnicas para os problemas brasileiros.
O que explica a maior quantidade de mulheres optando por votar nulo, em branco e indecisas neste momento?
Quem sente mais o peso da crise econômica, da crise política e da crise de segurança são as mulheres. Quando você tem o caso daquelas que trabalham, elas dividem as preocupações com o salário, que não aumenta, com a inflação, que volta, com os preços, que sobem e também com o desemprego familiar. É toda uma situação de incerteza no amanhã. As mulheres têm que se preocupar com várias pautas ao mesmo tempo, com a pauta do marido desempregado, dela própria desempregada, dos filhos, da recessão batendo, dos alimentos aumentando, dos serviços como água e luz subindo.
É possível reduzir ou quebrar esse ciclo de corrupção?
É preciso questionar a estrutura do Estado brasileiro supercentralizado no Executivo federal, essa falta de isonomia dos poderes e a perda de capacidade de retorno dos impostos para os municípios. E aí nasce uma grande fonte de corrupção. Quando o presidente assume o poder, para se manter ele precisa criar uma base, que cobra o retorno de impostos para os municípios sob forma de emendas parlamentares. Em uma verdadeira federação, os impostos devem sair do município, ir para o Estado e para o poder central, para depois retornar. Isso é o que não existe no Brasil.
As informações são do jornal
O Estado de S. Paulo.
(Adriana Ferraz e Paulo Beraldo).