Brasília, 31 - Muito antes da decisão do PSDB de desembarcar da base aliada, o presidente Michel Temer se encontrou algumas vezes, ao longo de 2017, com o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, de quem ouviu conselhos sobre como melhorar a imagem do governo. Dono de estilo formal e discreto, Temer teve conversas reservadas com o tucano, em São Paulo e em Brasília, que passaram longe dos holofotes.
Quando Fernando Henrique subiu o tom e começou a cobrar o desembarque do partido, o presidente pareceu não acreditar. Ligue para o príncipe e avise que a pinguela não está quebrada, disse Temer ao ministro da Secretaria-Geral da Presidência, Moreira Franco, em alusão a Fernando Henrique, conhecido como príncipe da sociologia.
Pinguela foi o termo usado pelo ex-presidente, em 2016, para se referir ao governo de transição, ancorado pelo plano intitulado Uma Ponte para o Futuro. A comparação irritou Temer, mas o pior estava por vir. Em junho de 2017, o próprio Fernando Henrique deu a senha do rompimento ao dizer que, se a pinguela continuasse quebrando, seria melhor atravessar o rio a nado.
A relação entre os dois, desde que Temer assumiu o Palácio do Planalto, seguiu o script do vaivém do PSDB, ora amigável, ora nervosa. Em março deste ano, por exemplo, ao discursar para uma plateia de empresários, no Planalto, o presidente tentou adotar nova estratégia de comunicação. Alguém me dizia que o Brasil é um País oral. É interessante, não basta você escrever.
Poucos sabem que esse alguém era justamente Fernando Henrique. Foi ele quem aconselhou o peemedebista a martelar dia e noite sobre os assuntos de interesse do governo. Cerimonioso, Temer pediu a um auxiliar que telefonasse para o tucano e perguntasse se ele havia ficado aborrecido com o uso da frase.
Que nada!, respondeu o ex-presidente. Pode usar à vontade, emendou. Na prática, quando conversou com Temer sobre a importância da comunicação oral, FHC mencionou ali um estudo do sociólogo Florestan Fernandes sobre o modo de vida dos índios Tupinambá.
Embora sempre diga que presidente não fica irritado nem magoado, Temer nunca conseguiu esconder esses sentimentos em relação ao PSDB. Quando o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, lavou as mãos, recusando-se a pedir à bancada tucana que ajudasse a derrubar as denúncias contra Temer na Câmara, houve inconformismo no Planalto.
Ao receber apelos de um ministro para que cobrasse dos deputados de seu partido os votos necessários para evitar o prosseguimento das investigações, Alckmin afirmou ao interlocutor que não queria se envolver. Além do mais, o governo vai apoiar o Henrique Meirelles (ministro da Fazenda), previu. E foi embora. As informações são do jornal
O Estado de S. Paulo.
(Vera Rosa).