Brasília – Um ano atrás, a Queen’s University Belfast, uma das mais respeitadas instituições do Reino Unido, realizava o seminário Brazil in the spotlight (Brasil nos holofotes). A análise falava mais sobre as crises do que as vitórias do país. Era o fim do “Brasil que deu certo”, diziam especialistas. Doze meses depois dessa discussão, o cenário é outro: a diplomacia avança, nossa economia está se recuperando, os juros baixaram e os investimentos cresceram; a possibilidade de aprovar a reforma da Previdência – vitória máxima para o atual governo – serviria para evitar um caos financeiro a médio prazo. Dessa forma, seria um bom lugar para depositar Até muito recentemente, o Brasil era visto no mundo como um país emergente, como parte dos Brics – grupo formado por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul – e um dos criadores do G20 – de ministros de finanças e chefes dos bancos centrais das 19 maiores economias do mundo mais a União Europeia. Estava pronto para deslanchar. Era a fase áurea do governo Lula (2003 a 2010), já qualificada por economistas como “uma grande maré de sorte”. Hoje, há um certo choque internacional com a crise vivida pelo país, mas estamos em processo de recuperação do protagonismo de outrora com atitudes de impacto internacional, como explica o ministro Benoni Belli, secretário de Planejamento Diplomático do Ministério das Relações Exteriores (MRE).
“O Brasil é um ator global.
“Lideramos essa missão e propusemos mudanças na área que envolve o clima sugerindo uma plataforma de biofuturo. Temos grande conjunto de atividades de cooperação técnica premiadas internacionalmente e que ajudam a fazer a diferença no desenvolvimento e no bem-estar da população”, comentou. Os próximos passos são, segundo ele, “reativar o Mercosul, removendo barreiras entre seus membros e dinamizando a aproximação com outros blocos e outras regiões”.
Mas, “em todos esses âmbitos, o Brasil é uma força, uma voz, a favor do multilateralismo, das soluções pacíficas das controvérsias, uma ordem internacional baseada, sobretudo, no direito, e não na força.
Um dos motivos que contribuem para o bom trabalho da diplomacia brasileira foi a mudança de governo, o que “tranquilizou” a sociedade dentro e fora das nossas fronteiras, conforme analisa o cientista político Antônio Carlos Mendes Rafain, especialista em economia política pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC). “No fim do governo Dilma (2011-2016), com a sociedade em polvorosa, fazendo manifestações diárias e vaiando tanto a presidente quanto a figura presidencial, ficamos muito perto da Venezuela. Falava-se que teríamos um retrocesso de 20 anos.”
O medo era que se criasse uma situação caótica capaz de reviver os tempos de inflação desenfreada, do congelamento das poupanças e dos racionamentos. Com a mudança de governo após o impeachment de Dilma Rousseff (PT), explica o professor, “não dá para dizer que tudo se transformou num passe de mágica, mas conseguimos esse voo de galinha na economia e a política brasileira conseguiu assentar. E isso, claro, tem reflexo no exterior. As pessoas estão percebendo que o Brasil voltou para o caminho certo”, analisa, referindo-se à gestão de Michel Temer.
O exemplo da Lava-Jato
Com três anos e meio de duração, a Operação Lava-Jato foi a “má notícia” mais espalhada sobre o Brasil mundo afora. Mas acredite: o saldo disso no exterior é positivo. As investigações que revelaram um roubo de R$ 6,4 bilhões com fraudes, lavagem de dinheiro, pagamento de propina e centenas de outros crimes despertaram a admiração dos demais países, que veem com bons olhos o enfrentamento à corrupção.
Melhora nas finanças públicas
Levantamento do Fundo Monetário Internacional (FMI), por exemplo, mostra que as projeções para a economia do Brasil neste e no próximo ano melhoraram. Para 2017, a estimativa de crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) passou de 0,3% para 0,7% a 1% e, para 2018, de 1,3% para 1,5%. “Isso é extremamente importante, ainda mais porque a gente tem cerca de 70% do nosso PIB comprometido. Acredito que o crescimento mostra uma eficaz mudança nas políticas públicas, o que possibilitou muita coisa. Hoje, temos o controle da inflação e a melhora da eficiência nas finanças públicas. O resultado será uma aproximação dos demais países emergentes e também daqueles grandões”, disse Lívio Ribeiro, pesquisador de economia aplicada da Fundação Getulio Vargas (FGV).
“No triênio de 2014 a 2016, a redução da riqueza no país aumentou a inflação. Tivemos uma piora geral do quadro econômico, piora da dívida, déficit fiscal nas alturas, um panorama desorganizado. Isso começou a ser revertido com o governo atual, mas é importante que a gente lembre o que passou para tentar não repetir mais os erros já cometidos. O Brasil era visto como um país que estava numa direção boa e foi para uma direção ruim, agora, precisamos mostrar que estamos em uma direção boa novamente ou, pelo menos, buscando esse caminho”, explica o pesquisador.
Lívio garante que, 15 anos atrás, quando o Brasil atingiu o auge de atratividade para a economia internacional e, de repente, entrou em uma crise severa, as coisas se resolveram rapidamente.
Impulso Ainda na seara internacional, o pesquisador diz que “existem coisas que o Brasil não apita, mas consegue participar”. “É uma forma de aproveitar certas mudanças que acontecem no mundo. Houve todo um movimento novo no MRE, por exemplo, para avançar em um bom relacionamento entre o Brasil e a União Europeia. É uma discussão muito importante para colocar o país nos trilhos. Estamos associados a um novo impulso de agenda internacional, o setor automotivo está deslanchando, fizemos acordos bilaterais, facilitamos exportações. Estamos ajustando e resolvendo”, completou Lívio.
Outra política pública necessária que é impopular, a privatização é elogiada pelo professor de Ciências Econômicas da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj) Ubiratan Jorge Iorio. “Se é preciso cortar despesas do governo, eu vejo na privatização das empresas uma saída razoável. E o mercado reagiu bem.
A importância de mudar as aposentadorias
Consenso entre os especialistas, a reforma da Previdência – que ficou para 2018 – pode ser o empurrão que falta para que a nova propaganda do governo federal (“Agora é avançar”) faça realmente sentido. “Mesmo remendada, a reforma precisa ir adiante. É uma coisa que todos os países desenvolvidos já fizeram desde os anos de 1990. A população vive mais, envelhece mais, o que é muito bom, e é justamente por isso que precisamos pagar mais por esse privilégio. Ou você contribui proporcionalmente ou acabará se tornando um peso morto para o Estado, que não pode mais sustentar esse tipo de atitude”, afirmou a socióloga Hellen Castro, doutora em análise de dados financeiros pela Western New England University de Massachusetts, nos Estados Unidos.
“Essa lenga-lenga para aprovar uma coisa importante como a Previdência, causada por uma queda de braço entre parlamentares e o governo, desprestigia qualquer administração. Se Michel Temer bater o pé e conseguir aprovar essa iniciativa, que foi ideia dele, consegue facilmente demonstrar para os demais países um apoio e uma unidade aqui no Brasil. Isso é algo, por exemplo, que Fernando Henrique Cardoso (PSDB) percebeu. Viu que não dava para passar o projeto e desistiu, até que o assunto foi esquecido. Hoje é diferente. O tema está aí e, se o presidente não conseguir aprovar, isso respinga tanto na política quanto na economia”, emendou Hellen. (BB)
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