Jornal Estado de Minas

BH em seus 120 anos sempre foi palco de manifestações

Diretas Já - 1984 Megacomício levou para a Avenida Afonso pena mais de 400 mil manifestantes - Foto: Alberto escala/EM - 24/2/84

As ruas da capital são palanque antigo para um povo que ao longo do tempo marcou posição nos grandes acontecimentos do país. A história política de Belo Horizonte se desenvolveu desde 1893, quando o então presidente de Minas Gerais, Augusto de Lima, decretou a transferência da capital do estado de Ouro Preto para a nova cidade – sendo instaurada completamente a mudança apenas em 1897. Um dos primeiros registros de uma manifestação popular data de 1899, quando membros do Club Republicano Floriano Peixoto se reuniram no encontro da Avenida Afonso Pena com a Rua da Bahia para uma “procissão cívica”. Não há registro de quais eram as reivindicações dos ativistas, mas as poucas fotografias que resistiram ao tempo mostram dezenas de homens reunidos na porta da prefeitura.

Black Blocs - 2013 - 23/06/13 Vandalismo em loja na Avenida Antônio Carlos durante protesto contra a Copa do Mundo - Foto: Leandro Couri/EM/D.A PressConforme a cidade se desenvolvia, cresceram em corpo e importância suas manifestações políticas. Em 1930, uma das primeiras grandes passeatas foi convocada por integrantes da Aliança Liberal. Centenas de pessoas tomaram conta da Rua da Bahia para um comício em apoio à candidatura presidencial de Getúlio Vargas.

Mais tarde, a comoção nacional em torno da Segunda Guerra foi tanta que o dia 9 de maio de 1945, data formalizada como “o dia da derrota da Alemanha Nazista pelos Aliados”, foi comemorado em todo o país. Na capital mineira não foi diferente.

As manifestações tomaram conta de quase toda a Avenida Afonso Pena, no que foi noticiado pelo Estado de Minas como uma “notável concentração que passará à história como maior acontecimento publico já realizado em Minas”. A Afonso Pena foi descrita como uma “grande artéria que se cobria de uma formidável massa humana”.

Naquele mesmo ano, outra grande movimentação política se estabeleceu em Belo Horizonte. Em resposta ao desgaste político de Vargas, uma grande comoção em torno da Constituinte de 1946 se estabeleceu em todo o país. Em 3 de outubro de 1945, um grande protesto – que se estendia por todo o Brasil – tomou corpo nas ruas da capital. Milhares de pessoas que levavam cartazes e gritavam palavras de ordem saíram às ruas “na maior manifestação cívica de toda a sua história” para reafirmar sua “vontade soberana” pela convocação de eleições livres para uma assembleia constituinte. A pressão popular repercutiu e culminou na renúncia de Getúlio Vargas no fim de outubro.

O cenário político teve nova reviravolta quando João Goulart assumiu a Presidência da República em 7 de setembro de 1961. Envolto em polêmicas desde a sua candidatura e assumindo “uma política econômica conservadora”, a tensão entre os que o acusavam de “permissividade com os movimentos sociais” e denunciavam um viés comunista em suas ações o colocava em choque tanto com a população proletária, que era submetida a condições de trabalho ainda muito rudimentares, quanto com as elites econômicas do país.
Um dos maiores pontos de tensão, em julho de 1962, foi a greve geral da qual Belo Horizonte também tomou parte. O movimento resultou, mais tarde, no direito ao 13º salário.

O ápice da discórdia política foi na virada para o ano de 1964 quando as “reformas de base” – agrária, tributária, bancária, educacional e administrativa – de João Goulart tomaram conta do debate público. Em um fogaréu caótico, acusações de envolvimento com o movimento marxista tomaram conta da imagem pública de Jango. Em 22 de janeiro de 1964, um grande ato público realizado em frente à Matriz de São José, no Centro de BH, reuniu “milhares de pessoas” que repudiavam um “congresso comunista” – que na realidade se tratava de uma reunião sindical. A corda bamba do conflito de poderes culminou em 13 de março de 1964 na “Marcha da Família com Deus pela Liberdade” convocada pela classe média, que reuniu cerca de 200 mil pessoas na capital mineira e legitimou o golpe militar.

REGIME MILITAR

Instaurada a ditadura militar, as manifestações políticas em Belo Horizonte se concentraram em dois fronts: os movimentos estudantis e os movimentos sindicais de um lado, colocando-se em oposição ao governo militar, e parte da classe média que louvava as ações autoritárias dos generais. Atos como o de 16 de setembro de 1966, quando cerca de 500 estudantes ocuparam a Faculdade de Direito da UFMG exigindo a “colocação em liberdade de todos os seus colegas detidos pela Delegacia de Vigilância Social”, se tornaram cada vez mais frequentes na cidade. O avanço da repressão militar se tornou evidente e prisões, torturas e execuções de manifestantes da oposição se intensificaram no decorrer da década de 1960, bem como os protestos, reprimidos com violência pelo governo ditatorial.

PEDREIROS

 Um dos marcos mais importantes da década de 1970 em Minas Gerais foi o protesto realizado por professores na Assembleia Legislativa, que reuniu mais de 10 mil profissionais de 53 cidades de todo o estado na capital, além de país de alunos, representantes de 17 sindicatos e diversas entidades ligadas à educação. As gritos eram por melhores salários e condições de trabalho.

Outro ponto crítico foi o que ficou conhecido como a “rebelião dos pedreiros”, entre julho e agosto de 1979.
Revoltados com os baixos salários e a desvalorização social da profissão e as péssimas condições de trabalho, os operários da construção civil em Belo Horizonte organizaram uma greve e diversas manifestações. As negociações com os militares não iam bem e, já no primeiro dia de greve, em 31 de julho, quatro veículos foram incendiados na Praça da Estação, um operário morreu pela ação policial, outros foram feridos e várias foram presos. A repercussão foi tanta que o então presidente João Figueiredo redigiu uma nota oficial requisitando que “os operários voltem ao espírito de ordem e paz”.

DIRETAS JÁ

Impeachment - 2016 Praça da Liberdade foi ocupada por grupos contrários à então presidente Dilma Rousseff - Foto: Túlio santos/EM/D.A Press - 13/3/16O estopim para o fim da ditadura militar estourou no início dos anos 1980, período que marca um dos momentos mais importantes do século 20 na história nacional: as Diretas Já. O movimento civil começou a ser estruturado em março de 1983 e, já no início de 1984, explodiram as manifestações a favor das eleições diretas em todo o país. Em fevereiro, mais de 400 mil pessoas – recorde de público do movimento até então – se reuniram na Avenida Afonso Pena, desde a Praça da Rodoviária, passando pela Praça Sete e cobrindo toda a região, para mostrar apoio ao movimento em Belo Horizonte. Um dos momentos mais icônicos da história política mineira teve palco durante o comício: a bandeira brasileira foi hasteada no símbolo maior do Centro da capital, o pirulito da Praça Sete.

A redemocratização, porém, não veio com as Diretas Já e, sim, com a eleição indireta de Tancredo Neves em 15 de março de 1985. Doente, Tancredo acabou não tomando posse. A internação do primeiro presidente civil desde o golpe militar causou comoção. Em 21 de abril do mesmo ano, Tancredo faleceu devido a uma infecção generalizada e a população saiu às ruas para homenageá-lo. Em Belo Horizonte, milhares de pessoas se amontoaram na Praça da Liberdade para se despedir do presidente.
As grades do Palácio da Liberdade não suportaram o frenesi e desabaram. Cinco pessoas morreram pisoteadas e mais de 160 ficaram feridas.

Belo Horizonte viveu outro momento de grande tensão em 1997. Policiais militares de Minas Gerais, em greve, saíram às ruas para reivindicar melhores salários. Os conflitos entre as forças da corporação e os grevistas deixaram dezenas de feridos e culminaram na morte de Cabo Valério.

BLACK BLOCS


Décadas desde o fim da ditadura militar se passaram e o país se viu, novamente, em uma crise política. As conquistas sociais e econômicas do governo Lula começaram a perder fôlego no terceiro ano de mandato de sua sucessora, Dilma Rousseff, e levaram à maior onda de protestos da história recente do Brasil – e de Belo Horizonte.

Em junho de 2013, movimentos sociais que militavam sobre o passe livre começaram a organizar passeatas em São Paulo devido ao aumento da tarifa no transporte público. Porém, o que antes era uma ação com pauta e abrangência delimitadas, cresceu de forma disforme até que bandeiras genéricas de “combate à corrupção”, contra a realização da Copa do Mundo no país e marchas “pelo Brasil” se tornaram a tônica das passeatas.

Em Belo Horizonte, o período entre junho e julho foi marcado por violentos conflitos e pela presença dos black blocs, que, mascarados, assumiam a linha de frente das manifestações Os protestos perderam o caráter de esquerda até que pautas completamente destoantes convivessem na mesma rua. Vários deles terminaram em depredações e em duros confrontos com a polícia – que foi amplamente criticada pela truculência e violência como reagiu aos protestos – e deixaram o trágico saldo de dois jovens mortos, milhares de feridos e cerca de 200 pessoas indiciadas por vandalismo ou desacatos.

Em 2015, os protestos pelo impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff ganharam força e revelaram novos “heróis” nacionais, com o juiz federal Sérgio Moro, responsável pelas ações da Lava-Jato na primeira instância. Em abril do ano passado, as tensões chegaram ao ápice quando grandes passeatas contrárias e a favor da petista tomaram conta simultaneamente das ruas da capital mineira até o afastamento definitivo de Dilma, em agosto.

*Estagiário sob a supervisão da editora-assistente Vera Schmitz

 

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