Presença de José Dirceu divide moradores de bloco do Sudoeste

Enquanto alguns protestam por meio de gritos e cartazes, outros demonstram solidariedade, especialmente à mulher e à filha de José Dirceu

Renato Alves
Morador do bloco onde Dirceu mora protesto por meio de cartaz na janela - Foto: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press

Moradores do prédio onde o ex-ministro José Dirceu mora desde a noite de quinta-feira (4) estão divididos sobre o novo vizinho. Enquanto alguns o xingam verbalmente e por meio de cartazes fixados nas janelas, outros preparam ato em solidariedade a ele.

Mineira de Belo Horizonte, Marcia Alves Ferreira, 70 anos, saiu cedo nesta sexta-feira, vestida com a camisa do Clube Atlético Mineiro, para comprar flores. "Eu e outras moradoras estamos solidárias à mãe e a mulher do José Dirceu. Vou entregar as flores pessoalmente à esposa dele. Ninguém merece passar pelo que essa família passou ontem", comentou a aposentada.

Subsíndico do Bloco A da 305 do Sudoeste, onde Dirceu reside agora, Francisco Lucas falou da preocupação com a segurança dos moradores. "O que aconteceu ontem aqui é inadmissível. Invadirem o prédio, uma área particular.
A PM soltou gás. Moradoras choraram. Havia muitas crianças vendo tudo", reclamou.

Quanto ao novo vizinho, ele disse que será tratado como mais um morador. " As regras são as mesmas para todos", ressaltou.

Ações contra ativistas


Após a tumultuada noite de quinta-feira, que teve invasão ao prédio, tentativa de agressão e gás de pimenta, o ex-ministro José Dirceu recebeu a solidariedade de amigos em seu novo endereço, em Brasília, na manhã desta sexta-feira-feira.

Entre eles, a do ex-ministro Gilberto Carvalho. Ele anunciou que advogados preparam ações cíveis e criminais contra os manifestantes que partiram para cima do colega petista e danificaram o carro dele, dentro da garagem do Bloco A da quadra 305 do Sudoeste, onde Dirceu agora reside com a mulher e a filha.

Policiais militares usaram gás lacrimogêneo para dispersar a multidão, que tentou agredir o petista, quando ele chegava da viagem de carro, vindo de São Paulo, por volta das 21h30 de quinta-feira. O tumulto começou em frente ao Bloco A da 305 e terminou no elevador que leva aos apartamentos.

Ativistas queriam agredir José Dirceu, que precisou ser escoltado por policiais militares. "Os advogados vão pedir as imagens do circuito interno de TV do edifício para identificar os agressores e processá-los", contou Carvalho.

Ao menos 20 pessoas entraram na garagem no momento do desembarque de Dirceu. Outras 100 foram impedidas com o fechamento do portão eletrônico. Além dessas, moradores do Bloco foram para o subsolo e hostilizaram o ex-ministro, além de fazer fotos e vídeos dele, amplamente divulgados em redes sociais.

Gilberto Carvalho disse que Dirceu já pensa em se mudar para um bairro mais tranquilo. Ele ainda pediu para que manifestantes não voltem ao prédio. "O recado vale para todos, inclusive simpatizantes do José Dirceu.

Agora, se vierem grupos para atacar, disseminar o ódio, vamos acionar a nossa militância (petista)", ponderou Carvalho. Condenado na Lava-Jato e no Mensalão, Dirceu ganhou o direito de recorrer em liberdade.

Ele estava preso desde agosto de 2015 em Curitiba e deixou o Paraná na quarta-feira (3). Passava das 21h30 quando o carro dele, que o trouxe, chegou ao edifício.
Dirceu, que tem de usar tornozeleira eletrônica, estava preso desde 2015. Ele cumpria pena no Presídio de Pinhais, em Curitiba (PR).

Noite de confusão


Cantaria, fechamento de via, balão inflável, faixas, bandeiras, policiais militares fortemente armados, cavalaria. O sempre tranquilo Setor Sudoeste vive uma noite atípica nesta quinta-feira. O motivo: o anúncio da mudança do ex-ministro José Dirceu para a região administrativa com o metro quadrado construído mais caro de Brasília.

Cerca de 200 pessoas se manifestavam na quadra 305. Mais da metade, moradores. Eles desceram dos blocos residenciais após ouvir a barulheira de ativistas, a maioria do movimento Na Rua, que participou das manifestações pelo impeachment da presidente Dilma Roussef (PT), em 2016. Quem não foi para a rua passou de carro buzinando.