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Estado de Minas

Especialistas questionam nomeações e fusões do governo Temer

Equi­pe de Te­mer abre se­ma­na com en­con­tros pa­ra anun­ci­ar me­di­das do no­vo go­ver­no. Fu­sõ­es e in­di­ca­çõ­es de ti­tu­la­res sem ex­pe­ri­ên­ci­as de co­man­do são cri­ti­ca­das por especialistas


postado em 16/05/2016 06:00 / atualizado em 16/05/2016 07:20

Michel Temer inicia o seu governo interino com amplo apoio no Congresso, mas com muitas cobranças e desafios para enfrentar em pouco tempo(foto: Valter Campanato/Agêrncia Brasil)
Michel Temer inicia o seu governo interino com amplo apoio no Congresso, mas com muitas cobranças e desafios para enfrentar em pouco tempo (foto: Valter Campanato/Agêrncia Brasil)

Bra­sí­lia - Du­ran­te o pri­mei­ro dis­cur­so co­mo pre­si­den­te em exer­cí­cio, Mi­chel Te­mer de­fen­deu a im­por­tân­cia das par­ce­ri­as com a ini­ci­a­ti­va pri­va­da pa­ra bus­car fi­nan­ci­a­men­tos pa­ra di­ver­sos setores. “O Es­ta­do não po­de tu­do fa­zer”, des­ta­cou o presidente. Mas dei­xou cla­ro que três áre­as são es­sen­ci­ais pa­ra se­rem con­du­zi­das e ad­mi­nis­tra­das di­re­ta­men­te pe­lo go­ver­no fe­de­ral: se­gu­ran­ça, saú­de e educação. Das três pas­tas, ape­nas o ti­tu­lar da Jus­ti­ça, Ale­xan­dre de Mo­ra­es, tem fa­mi­li­a­ri­da­de di­re­ta com a área que vai comandar. Os dois ou­tros são de­pu­ta­dos fe­de­rais e não têm mi­li­tân­cia nos res­pec­ti­vos setores. No ca­so de Men­don­ça Filho (DEM-PE), as crí­ti­cas fi­ca­ram ain­da mais con­tun­den­tes, pe­lo anúncio da fu­são de du­as áre­as díspares: educação e saúde. Ar­tis­tas e pro­du­to­res cul­tu­rais fi­ze­ram ma­ni­fes­tos cri­ti­can­do a in­di­ca­ção dele pa­ra a pasta. Pa­ra ten­tar ama­i­nar os ata­ques, Te­mer si­na­li­zou que cri­a­rá a Se­cre­ta­ria Na­ci­o­nal de Cul­tu­ra com pos­si­bi­li­da­de de in­di­car o ex-de­pu­ta­do Ste­pan Ner­ces­si­an, do PPS, pa­ra o comando. O car­go, en­tre­tan­to, de­ve ser ocu­pa­do por uma mu­lher, de­pois das crí­ti­cas so­bre o atu­al re­tra­to da Es­pla­na­da, for­ma­da por ho­mens bran­cos e de meia ida­de, uma sim­bo­lo­gia de­vas­ta­do­ra nas po­lí­ti­cas de gê­ne­ro e diversidade. A jornalista Marília Gabriela teria sido convidada, mas recusou o cargo.

A vi­são con­si­de­ra­da mais li­be­ral de Mendonça tam­bém é vis­ta co­mo ame­a­ça aos pro­gra­mas edu­ca­ci­o­nais já im­plan­ta­das, co­mo o Pla­no Na­ci­o­nal de Edu­ca­ção. “Te­mos uma lei apro­va­da pe­lo Con­gres­so Na­ci­o­nal, com me­tas e es­tra­té­gi­as fi­xa­das e is­so é uma po­lí­ti­ca de Es­ta­do que to­do o go­ver­no de­ve obedecer. Mas te­nho dú­vi­da se ha­ve­rá com­pro­mis­so mui­to fi­el des­sas me­tas, por­que elas es­tão em de­sa­cor­do com al­gu­mas ma­ni­fes­ta­çõ­es que o pre­si­den­te vem fa­zen­do”, ana­li­sa o dou­tor em edu­ca­ção pe­la Uni­camp e mes­tre em edu­ca­ção pe­la Uni­ver­si­da­de de Bra­sí­lia (UnB), pro­fes­sor Eras­to For­tes Mendonça.

Pa­ra ele, o anún­cio de des­vin­cu­la­ção de re­cei­tas da Uni­ão e o in­te­res­se em tor­nar as par­ce­ri­as pú­bli­co-pri­va­da uma re­a­li­da­de po­dem trans­for­mar a edu­ca­ção do país num “de­sas­tre com­ple­to”. “Do mo­do que é ho­je, já te­mos precariedade. Se vo­cê ti­ra o re­cur­so, en­tão, a si­tu­a­ção só ten­de a pi­o­rar”, critica. Eras­to For­tes ava­lia os ris­cos de se pri­va­ti­zar edu­ca­ção, com ini­ci­a­ti­vas de PPP. “Edu­ca­ção é um bem pú­bli­co, co­mo re­zam a Cons­ti­tui­ção e a lei de di­re­tri­zes orçamentárias. Ao pri­va­ti­zar, o es­ta­do se afas­ta das obri­ga­çõ­es de cum­prir a ges­tão e en­tre­ga is­so nas mã­os da ini­ci­a­ti­va pri­va­da”, considera.

A área da saú­de tam­bém ge­ra pre­o­cu­pa­çõ­es en­tre es­pe­ci­a­lis­tas, so­bre­tu­do pe­la mu­dan­ça de per­fil na gestão. Pa­ra a co­or­de­na­do­ra ge­ral da As­so­ci­a­ção La­ti­no-Ame­ri­ca­na de Me­di­ci­na So­ci­al e Saú­de Co­le­ti­va, Ana Ma­ria Cos­ta, exis­te um te­mor con­cre­to de que o atu­al go­ver­no, ten­do o deputado Ri­car­do Bar­ros (PP-PR) co­mo ti­tu­lar da pas­ta, pos­sa des­pres­ti­gi­ar o Sis­te­ma Úni­co de Saú­de (SUS). “Exis­te uma ten­dên­cia cres­cen­te no país de en­tra­da de fi­nan­ci­a­do­res in­ter­na­ci­o­nais na área hos­pi­ta­lar, o que aca­ba por mer­can­ti­li­zar a saú­de”, disse. Ela lem­bra que es­sa pos­si­bi­li­da­de era ve­da­da na Cons­ti­tui­ção Fe­de­ral de 1988, jus­ta­men­te pa­ra po­der ga­ran­tir o aces­so à saú­de pú­bli­ca gratuita. Ela tam­bém re­ceia que o país pas­se a ado­tar sis­te­mas de pla­nos de saú­de co­mo o da Co­lôm­bia e do Chi­le, que são ex­tre­ma­men­te restritivos. “No Chi­le, o go­ver­no com­prou um pla­no de saú­de que ofe­re­ce cer­ca de 28 especialidades. As de­mais pre­ci­sam ser pa­gas pe­los consumidores. Já na Co­lôm­bia, os pla­nos de saú­de as­se­gu­ram ape­nas pro­ce­di­men­tos co­muns, não as in­ter­na­çõ­es”, com­pa­rou Ana Maria.

Tam­bém pre­si­den­te do Cen­tro de Es­tu­dos Bra­si­lei­ros em Saú­de (Ce­bes), Ana Maria tem ou­tro re­ceio, es­te com­par­ti­lha­do com o se­tor de edu­ca­ção: a per­da de re­cur­sos pa­ra fi­nan­ci­ar o setor. “Uma das gran­des con­quis­tas re­cen­tes foi a des­ti­na­ção, pa­ra saú­de e edu­ca­ção, de 15% dos re­cur­sos ar­re­ca­da­dos com a ex­plo­ra­ção do pré-sal. Se os cri­té­ri­os de ex­plo­ra­ção e par­ti­lha fo­rem al­te­ra­dos, não te­re­mos a ga­ran­tia da ma­nu­ten­ção des­ses re­cur­sos”, lamenta.

SE­GU­RA­NÇA Na área de se­gu­ran­ça, os de­sa­fi­os tam­bém são gigantes. Nos úl­ti­mos anos, o país te­ve uma ex­plo­são nos ín­di­ces de vi­o­lên­cia, atin­gin­do a es­pan­to­sa mar­ca de 60 mil ho­mi­cí­di­os em 2015. “A mai­o­ria de jo­vens é de ne­gros e po­bres”, afirma o vi­ce-pre­si­den­te do Fó­rum Na­ci­o­nal de Se­gu­ran­ça Pú­bli­ca, Re­na­to Sér­gio de Lima. O es­pe­ci­a­lis­ta acre­di­ta que o país pre­ci­sa­rá atra­ves­sar lon­go pe­rí­o­do até re­to­mar a tranquilidade. Ele tam­bém des­ta­ca que é fun­da­men­tal uma mu­dan­ça de mentalidade. “Te­mos que pen­sar que se­gu­ran­ça pú­bli­ca não se res­trin­ge à ação po­li­ci­al”, ex­pli­ca. “Se con­cen­trar­mos es­for­ços ape­nas na re­pres­são, não va­mos atin­gir nos­sos ob­je­ti­vos”, acres­cen­ta, lem­bran­do que o ar­ti­go 5º da Cons­ti­tui­ção Fe­de­ral co­lo­ca, la­do a la­do, a ga­ran­tia da se­gu­ran­ça e a ma­nu­ten­ção dos di­rei­tos individuais.

Pa­ra o co­ro­nel Jo­sé Vi­cen­te da Sil­va Fi­lho, con­sul­tor e ex-se­cre­tá­rio na­ci­o­nal de Se­gu­ran­ça Pú­bli­ca, Te­mer tem sen­si­bi­li­da­de pa­ra a área, ba­se­a­do no fa­to de que foi, por du­as ve­zes, se­cre­tá­rio de Se­gu­ran­ça Pú­bli­ca de São Paulo. “Ao lon­go dos úl­ti­mos anos, foram lançados muitos pro­gra­mas de segurança que con­ti­nham ape­nas açõ­es de ma­rke­ting, sem efei­tos con­cre­tos”, cri­ti­cou ele. Vi­cen­te de­fen­de re­vi­sõ­es de al­gu­mas le­gis­la­çõ­es pa­ra tor­nar mais du­ras cri­mes he­di­on­dos e re­ver­ter a pro­gres­são de pe­nas em al­gu­mas si­tu­a­çõ­es mais graves.

Temer defende pacificação

O presidente em exercício Michel Temer afirmou ontem que não pretende interferir na decisão da Câmara dos Deputados sobre o processo de cassação do deputado Eduardo Cunha (PMDB-RJ) e que a renúncia ou não do parlamentar não influirá no seu governo. “Um poder não pode se meter em outro poder. A renúncia de Cunha, para mim, tanto faz, não altera nada”, disse ele em entrevista ao programa Fantástico, da Rede Globo. Ele afirmou que o seu maior desafio é fazer com que o Brasil seja “pacificado” e que se equilibre política e economicamente, acabando com a polarização atual. E que seguirá com os programas sociais do governo Dilma e continuará apoiando a Operação Lava-Jato, que investiga a corrupção na Petrobras. Prometeu inclusive manter o diretor-geral da Polícia Federal, Leandro Daiello. Durante a entrevista de Temer ocorreram panelaços em São Paulo, no Rio de Janeiro e em Brasília, a exemplo do que ocorria quando a presidente afastada Dilma Rousseff se pronunciava na TV. Em BH, houve apitaços em alguns bairros.

Temer disse que enviará as medidas necessárias para a governabilidade do país à Câmara, independentemente da situação de Eduardo Cunha, que está sendo julgado pela Câmara por quebra de decoro parlamentar. Para consolidar seus projetos, ele diz esperar o apoio da população. “Tenho legitimidade constitucional. Fui eleito com a senhora presidente. Os votos que ela recebeu, eu recebi. Reconheço que só ganharei legitimidade se produzir efeitos benéficos para o país. Tenho esperança de que conseguiremos”. “Estabelecer prioridades é exatamente a atenção com os mais pobres. Não podemos abandonar aqueles que têm dificuldade de sobrevivência. Cortarei de outros setores, se necessário”, garantiu.

Ele reafirmou o que disse em outras entrevistas, ao destacar a necessidade de pacificação do país, “a unificação dos partidos políticos, dos trabalhadores com os empregadores, o conjunto da sociedade brasileira”. Anunciou também que o ministro da Justiça, Alexandre de Morais, vai chamar todos os secretários estaduais de segurança pública para discutir ações coordenadas com os estados.

QUATRO MULHERES Quanto às críticas sobre a ausência de mulheres em seu ministério, Temer rebateu, dizendo que terá quatro em sua equipe. A primeira é a sua chefe de gabinete, que inclusive, segundo ele, participou da reunião ministerial. “Para a cultura quero trazer uma representante do mundo feminino”, disse, além de mulheres também à frente da Igualdade Racial e Ciência, Tecnologia e Comunicação. Outra polêmica do início do seu governo, o anúncio de mudança de regras de aposentadoria, como idade mínima para aposentadoria, também será tratada com cuidado, segundo ele. “Não examinamos esse assunto ainda. Se vulnerar direito adquirido, não faremos”.

Michel Temer defendeu o ministro do Planejamento, Romero Jucá, que é investigado na Lava-Jato. “O Jucá é uma figura de uma competência administrativa extraordinária, ninguém conhece o orçamento como ele. Tem uma capacidade de articulação política fundamental na democracia e me ajudará na tarefa de governar o país. Se ele se tornar réu, vou examinar”, afirmou o presidente, que disse que se algum auxiliar seu cometer irregularidade administrativa, será demitido. Quanto à ação do PSDB no Tribunal Superior Eleitoral que contesta a chapa Dilma-Temer por abuso de poder econômico durante a campanha, Temer disse estar tranquilo. Ele defendeu a separação da ação dele da de Dilma. “O vice tinha uma campanha à parte”, afirmou, por isso ele não considera contraditório separar as ações, apesar de ter sido a mesma chapa.


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