Declaração de ministro leva delegado da PF do bastidor ao holofote

Entrada conturbada do novo ministro da Justiça pôs o discreto diretor-geral da Polícia Federal, Leandro Daiello, no centro da disputa entre agentes e delegados com o Planalto

Maria Clara Prates
Daiello, há cinco anos no cargo, já enfrentou várias crises internas. Agora, tem recebido apoio da categoria - Foto: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press - 14/1/11

A declaração do novo ministro da Justiça, Eugênio Aragão, de ameaçar de afastamento delegados da Polícia Federal diante do “cheiro de vazamento” de informações referentes a investigações, jogou o foco da atenção sobre o discreto diretor-geral da PF, Leandro Daiello Coimbra, que há mais de cinco anos ocupa o comando da corporação. Desde que assumiu a cadeira, no primeiro governo da presidente Dilma Rousseff, Daiello tem evitado as polêmicas e troca uma boa briga pelo trabalho de bastidores, conforme relatam companheiros do delegado.

Longe de ser uma unanimidade, sua gestão à frente da corporação – a mais longa até hoje –, enfrentou várias crises institucionais, mas, agora, delegados se unem em apoio a Daiello. Sob o risco de eventualmente ser substituído em razão de insatisfações de representantes do PT, principalmente após o vazamento pelo juiz Sérgio Moro de gravação de conversa telefônica entre a presidente Dilma Rousseff e o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o diretor-geral da PF recebeu moção de apoio de entidades representantes das categorias, em especial da Associação dos Delegados de Polícia Federal.

Se Daiello permanece calado, apesar dos ataques que vem sofrendo, alguns de seus colegas defendem que ele já deveria ter colocado seu cargo à disposição, assim como todos os delegados em postos comissionados na corporação, para deixar evidente a insatisfação com tentativas de intervenção na corporação. Desde que foi escolhido pelo ex-ministro da Justiça José Eduardo Cardozo como chefe da PF, mais em razão de ter chefiado também a superintendência da corporação em São Paulo e de não ter padrinho político do que por seu currículo, Daiello ganhou a confiança de Cardozo.

O processo de conquista mútua entre Cardozo e o chefe da PF possibilitou ainda que a corporação fosse tocando operações espinhosas para o governo, como a Lava-Jato, a Zelotes, a Acrônimo, além de outras 200 investigações que ele próprio admite estar em andamento. O apoio que ele recebe hoje dos colegas se aproxima muito da máxima: ruim com ele, pior sem ele.

Como ainda superintendente de São Paulo, Daiello foi acusado de ter tentado por fim à Operação Satiagraha, comandada à época pelo delegado expulso da PF Protógenes Queiroz. Em dezembro de 2010, ele teria pressionado Protógenes durante reunião para saber quem eram os alvos dos mandados de prisão expedidos pela Justiça. Diante da recusa do então delegado de fornecer os nomes, ele ameaçou não ceder ao subordinado o efetivo necessário para prender alvos como o empresário Naji Nahas e o ex-prefeito de São Paulo Celso Pitta. A reunião foi gravada.

CHIMARRÃO Daiello é gaúcho, tem 44 anos, e descrito pelos colegas como uma pessoa afável, brincalhona, extrovertida, dedicado às peladas de fim semana com os amigos e não abandona o hábito do chimarrão, que mantém em seu gabinete para oferecer a todos que vão até ele.

Desse jeito, não encontrou resistências quando foi anunciado para conduzir a corporação. No entanto, com o tempo, a indecisão e a insistência em evitar quedas de braço, terminou por causar insatisfações internas. Por várias vezes, ele enfrentou movimentos de paralisação de agentes, peritos e papiloscopistas por reajuste de salário e ainda teve que conviver com um racha entre os delegados e as demais carreiras.

Em julho de 2012, cerca de 400 servidores fizeram o enterro simbólico de Daiello em Brasília e, à época, o acusavam de ser omisso e corporativista. Permaneceu em silêncio, não acusou o golpe, e ainda trabalhou nos bastidores para a aprovação dentro do governo de duas leis de interesse dos delegados: como o impedimento do cargo de diretor-geral ser ocupado por outra carreira e ainda a proibição de troca de equipes de investigadores sem a devida justificativa.

A Associação dos Delegados jogou pesado junto a congressistas e Daiello se encarregou de fazer sua parte dentro dos gabinetes do governo. “Se não tivéssemos conseguido garantir que apenas delegados podem comandar a PF, com certeza, em tempos de representantes do Ministério Público no Ministério da Justiça, o nomeado para a corporação seria um procurador”, disse um colega de Daiello.

AUTONOMIA As estocadas do subprocurador da República e agora ministro da Justiça, Eugênio Aragão, contra integrantes da PF na Operação Lava-Jato ocorrem justamente no momento em que os delegados colocam na rua a campanha pela autonomia administrativa e financeira da corporação, nos mesmos moldes do Ministério Público. Dentro dessa filosofia, a defesa do diretor-geral Daiello é parte dessa luta de não aceitação de interferência externa. A Associação dos Delegados de Polícia Federal, que tem cerca de 150 filiados, fez consultas internas para formar uma lista tríplice e emplacar o nome para o comando da PF. Não obtiveram sucesso. E nem Daiello, que em outubro de 2014, quando da reeleição de Dilma Rousseff, não teve seu nome citado entre os mais votados.

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