João Santana, o 'Patinhas' que elegeu sete presidentes

João Santana - Foto: Wilson Pedrosa/Estadão Conteúdo
São Paulo - "Como é que você me reduz a 10% do que eu valho?", brincou o marqueteiro João Santana com o também marqueteiro, escritor e amigo Marcelo Simões. Falavam ao telefone, tempos atrás. Simões havia afirmado, em uma reportagem, que Santana ficou milionário. "Bota aí uns US$ 50 milhões, para mais", disse.

A cogitação foi informada ao próprio Santana, antes da publicação, mas ele limitou-se a rir e a resmungar uns palavrões sobre a inconfidência do amigo. Reclamou depois, a seu modo, com a tirada dos 10%. Nunca desmentiu o valor, nunca disse que era menos, ou que era mais.

O silêncio sempre foi a resposta quando perguntas do tipo foram feitas - ou a Santana, ou à sua esposa e sócia Mônica Moura, que é quem cuida dessa e de quase todas as questões práticas e administrativas que envolvem o marqueteiro e suas empresas. "São números confidenciais, que só interessam à empresa", já afirmou a empresária a respeito.

Imóveis


O fato é que João Santana - que cobra caro - fez um sólido patrimônio imobiliário. Tem um bom apartamento em um bairro chique de Salvador, uma casa de oito quartos na praia de Interlagos, na Bahia, outra casa confortável na praia de Trancoso, uma fazenda em Tucano e outra em Barreiras, cidade vizinha.
Mais recentemente, segundo a Polícia Federal, comprou, em São Paulo, um apartamento estimado em R$ 3 milhões. Viaja com frequência para o exterior, sempre com Mônica, principalmente Nova York e Paris. "Adoro essas duas cidades e já não sou um turista acidental", já disse.

Os números disponíveis no Tribunal Superior Eleitoral mostram que nas principais campanhas do PT, entre 2002 e 2014, a Polis Propaganda e Marketing, de Santana, recebeu R$ 229 milhões. Desses, R$ 140 milhões das campanhas da reeleição de Lula (2006), e as duas de Dilma Rousseff (2010 e 2014).

Em janeiro do ano passado João Santana informou que, além da Polis, com sede em Salvador, existem quatro outras empresas internacionais: a Polis Argentina (Buenos Aires e Córdoba), a Pólis América (Panamá), a Polistepeque (El Salvador) e a Polis Caribe (República Dominicana, onde o casal estava trabalhando, na candidatura à reeleição do presidente Danilo Medina, quando teve a notícia dos mandados de prisão). Os valores recebidos nas campanhas internacionais nunca foram informados.

Além das três eleições presidenciais no Brasil, João Santana já venceu outras quatro, elegendo ao todo sete presidentes em cinco países: Mauricio Funes (El Salvador, 2009). Danilo Medina (República Dominicana, 2012), José Eduardo dos Santos (Angola, 2012) e Hugo Chávez e Nicolas Maduro (Venezuela, 2012).

Baiano da cidade de Tucano, no sertão, onde seu pai foi prefeito, da Arena, João Cerqueira de Santana é avô de quatro netos, dois para cada filho, um casal. Fez 63 anos em 5 de janeiro passado. É capricorniano - dos que levam essas coisas a sério. Já contou, por exemplo, que mantém uma relação espiritual com o físico italiano Ettore Majorana, morto e/ou desaparecido em 1938, com 32 anos. "Tenho uma relação misteriosa e cotidiana com ele", revelou, a sério, em uma entrevista em meados de 2013.

'Patinhas'


Ganhou seus primeiros 15 minutos de fama como letrista da banda Bendegó, nos anos 70. Era Patinhas, então, apelido que ganhou na escola por muito cioso com o caixa do grêmio. Teve uma atirada experiência com música, drogas e a contracultura. Eram tempos da ditadura.
Virou jornalista - também do jornal alternativo Boca do Inferno, que foi fechado pela repressão. Passou por alguns veículos da grande imprensa - como a revista Veja e o jornal O Globo.

João Santana é coautor da reportagem que revelou o motorista Eriberto França - peça-chave para provar a ligação entre o presidente Fernando Collor de Mello e seu tesoureiro de campanha, PC Farias, que acabou levando ao impeachment do hoje senador. "Testemunha chave" foi publicada em 1º de julho de 1982, na revista IstoÉ. J. Santana Filho era diretor da sucursal da Brasília. Ganhou o Prêmio Esso da Reportagem daquele ano, com os colegas Augusto Fonseca e Mino Pedrosa. Depois disso é que abandonou o jornalismo para virar marqueteiro - primeiro trabalhando com Duda Mendonça, e depois em voo solo.

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