Ao contrário do que o presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), prega, na avaliação de Antonio Augusto Queiroz, diretor de Documentação do Diap, há uma falsa impressão de aceleração do ritmo de votações. Ao fazer um balanço do ano na última semana, o peemedebista afirmou que 2015 “teve o maior número de deliberações da história da Câmara”. “Mas, na verdade, a produção legislativa foi menor do que no início de Legislaturas anteriores, além do ponto de vista da qualidade”, rebate Queiroz. Ele aponta o envolvimento do deputado em denúncias de corrupção e a discussão do impeachment da presidente Dilma Rousseff, aceito em dezembro, como fatores para esse cenário. “Por uma questão de sobrevivência, ele (Cunha) decidiu centrar na luta política e não mais na produção legislativa”, completa.
Para o cientista político Cláudio Couto, da Fundação Getúlio Vargas (FGV), o esfacelamento na base contribuiu para dificultar a votação de matérias, principalmente as enviadas pelo Executivo.
DESTINO INCERTO Denunciado por corrupção e lavagem de dinheiro, e alvo de processo por quebra de decoro no Conselho de Ética, Cunha é acusado pela Procuradoria-Geral da República (PGR) de usar o cargo para barrar as investigações. No conselho, apesar de o processo ter sido instaurado em 3 de novembro, a votação do parecer de admissibilidade sofreu sete atrasos e só ocorreu em 15 de dezembro, dia em que imóveis ligados ao deputado foram alvos de operação da Polícia Federal. O primeiro atraso ocorreu em 19 de novembro, quando parlamentares tentaram esvaziar a sessão para não completar quórum até a ordem do dia ser iniciada em plenário, antes do horário previsto. A manobra levou cerca de 100 deputados a deixarem o plenário aos gritos de “fora, Cunha”.
O colegiado foi o protagonista das confusões provocadas pela disputa entre aliados e opositores do peemedebista. Em 10 de dezembro, os deputados Wellington Roberto (PR-PB) e Zé Geraldo (PT-PA) chegaram à briga física. As decisões da comissão tiveram um impacto direto no processo de impeachment, baseado na tese de que a presidente cometeu crime de responsabilidade com as “pedaladas fiscais”, manobras contábeis para atrasar repasses de recursos. O deputado aceitou o pedido do jurista Hélio Bicudo em 2 de dezembro, um dia após o PT anunciar que votaria pela continuidade do processo no Conselho. Foram apresentados outros 36 pedidos em 2015, dos quais 31 foram arquivados. Os cinco restantes ainda estão em análise.
Logo após a aceitação do pedido de impeachment, os embates chegaram ao ápice. Em 8 de dezembro, parlamentares quebraram, em plenário, urnas destinadas à votação secreta da comissão especial do impeachment. Apesar de se concentrar na Câmara, as confusões atingiram também o Senado. Neste ano, a Casa assistiu à primeira prisão de um parlamentar em exercício. O líder do governo no Senado, Delcídio do Amaral (PT-MS), acabou detido em 25 de novembro, acusado de tentar impedir investigações da Lava-Jato.
Rotina de confrontos
Em 10 de junho, a polícia legislativa chegou a usar spray de pimenta para dispersar manifestantes contrários à redução da maioridade penal. A leitura do relatório do deputado Laerte Bessa (PR-DF) na comissão especial que discutia a PEC 171/1993 foi feita a portas fechadas, após os parlamentares mudarem de plenário. Diante de provocações entre estudantes contrários à PEC e deputados favoráveis, o presidente da comissão, deputado André Moura (PSC-SE), determinou que a sala fosse esvaziada. Os manifestantes se recusaram a sair e teve início um bate-boca que chegou a empurrões e troca de tapas entre os presentes. A polícia então disparou spray de pimenta na sala e no corredor das comissões, enquanto os parlamentares se dirigiam para outro plenário.
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