
Temer cresceu diante da fragilidade política da presidente Dilma. Mas ele é muito mais do que uma mera sombra guindada a um novo patamar de exposição. Temer construiu, ao longo dos anos, a capacidade, ainda que na marra, de unificar o PMDB. “Ele aguentou muita pancada. Penou para rearrumar a legenda. Vide a famosa convenção de 1998, que fez com que o partido apoiasse a reeleição de Fernando Henrique Cardoso (FHC) e se recusasse a dar a legenda ao ex-presidente Itamar Franco. Os insatisfeitos, literalmente, quebraram as vidraças do Congresso”, disse um aliado do atual vice-presidente da República.
Temer começou a construir uma parceria com uma ala peemedebista que até hoje lhe é fiel: Geddel Vieira Lima (presidente do PMDB baiano); Eliseu Padilha (ministro da Secretaria de Aviação Civil); Moreira Franco (presidente da Fundação Ulysses Guimarães); e Eunício Oliveira (líder do PMDB no Senado). Com a ascensão de Temer ao comando partidário e o acerto com a ala independente do partido – composta pela bancada dos senadores, hoje desfalcada de José Sarney (AP) –, Temer conseguiu unificar a legenda e torná-la tão poderosa que qualquer governante se torna obrigado a engolir as sabotagens constantes do partido, em nome da “governabilidade”.
Mas Temer não é apenas respeitado no PMDB. Ele desliza com suavidade na oposição. “Ele é uma pessoa que dialoga com todas as tendências. Prova disso foi o fato de ele estar presente, na noite de quinta-feira, em um evento organizado por uma socialite – Rosângela Lyra – que defende o impeachment da Dilma”, disse um interlocutor do vice-presidente. Foi justamente neste evento que afirmou ser difícil Dilma resistir mais três anos e meio se mantiver as taxas de popularidades baixas como as atuais. “Temer dialoga com a esquerda, radical ou não. A direita, radical ou não, os moderados e os empresários”, enalteceu um admirador do vice-presidente.
Trânsito O vice de Dilma Rousseff é bem-visto pelos tucanos. Em 2002, apoiou a candidatura presidencial de José Serra, contra o petista Luiz Inácio Lula da Silva. Só se aproximou do Planalto em 2006, quando Lula, sobrevivente do escândalo do mensalão, concorreu à reeleição e o PMDB, com felicidade explícita, aderiu ao petismo. Pavimentou o caminho para se tornar candidato a vice-presidente em 2010.
A esses elementos todos, adiciona-se outro, fundamental nesse momento de crise e instabilidade política. “O Temer é o segundo na linha sucessória. Qualquer sinal de impedimento da presidente vai torná-lo presidente da República”, explicou o diretor de documentação do Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar (DIAP), Antonio Augusto de Queiroz, o Toninho do Diap. “Dilma não duelará jamais com Temer por uma razão muito simples: sobrevivência”, resumiu Toninho.
Para o cientista político Ricardo Caldas, o diagnóstico feito por Temer na noite de quinta-feira foi preciso, por isso causou tanto incômodo no governo. “Dilma hoje não tem apoio político, social e não é vista pelo empresariado como alguém capaz de dar o salto necessário para o país sair da atual estagnação. Temer, por outro lado, reúne todos esses pré-requisitos neste momento”, completou o cientista político.
O fantasma do impeachment também torna a presidente refém do vice. “A condenação de um presidente pelo Congresso é uma decisão política. O PMDB comanda as duas Casas – Câmara com Eduardo Cunha e Senado com Renan Calheiros. Se não tratar bem Temer e o partido presidido por ele, permanecerá eternamente nessa crise”, avaliou Caldas.
Política 'burra'
O coordenador nacional do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), João Pedro Stédile, criticou a política econômica do governo Dilma Rousseff, taxada por ele de “burra”. “Ele (o governo federal) tem que mudar essa política, que é burra, equivocada e não sai da crise. Não tem sentido ficar aumentando taxa de juro, ficar cortando gasto social, e é isso que a presidente tem de mudar. Nós a elegemos para um outro programa”, criticou o líder do MST, que esteve na capital mineira para o lançamento da Frente Brasil Popular, que defende a permanência de Dilma no cargo, mas exige mudança nos rumos da economia. “Todas as pesquisas indicam que o nível de popularidade da presidente baixou para 7%, 8%. Esperamos que leia as pesquisas e se dê conta de que isso não é gratuito. O povo quer mudança na política econômica”, defendeu.
