Brasília – O vice-presidente Michel Temer, com sua fala mansa, articulada, gentil e incapaz de proferir palavras de baixo calão, atingiu nas últimas semanas uma dimensão política muito maior do que ele próprio imaginava. E viu-se obrigado a conviver com uma realidade estratégica e, ao mesmo tempo, perigosa: cada vez mais, suas palavras ganharam força para abalar as estruturas da República. Por coincidência – ou não, já que Temer pode ser tudo, menos um político inexperiente –, passou a usar de maneira moderada essa nova arma que tem em mãos.
Temer cresceu diante da fragilidade política da presidente Dilma. Mas ele é muito mais do que uma mera sombra guindada a um novo patamar de exposição. Temer construiu, ao longo dos anos, a capacidade, ainda que na marra, de unificar o PMDB. “Ele aguentou muita pancada. Penou para rearrumar a legenda. Vide a famosa convenção de 1998, que fez com que o partido apoiasse a reeleição de Fernando Henrique Cardoso (FHC) e se recusasse a dar a legenda ao ex-presidente Itamar Franco.
Temer começou a construir uma parceria com uma ala peemedebista que até hoje lhe é fiel: Geddel Vieira Lima (presidente do PMDB baiano); Eliseu Padilha (ministro da Secretaria de Aviação Civil); Moreira Franco (presidente da Fundação Ulysses Guimarães); e Eunício Oliveira (líder do PMDB no Senado). Com a ascensão de Temer ao comando partidário e o acerto com a ala independente do partido – composta pela bancada dos senadores, hoje desfalcada de José Sarney (AP) –, Temer conseguiu unificar a legenda e torná-la tão poderosa que qualquer governante se torna obrigado a engolir as sabotagens constantes do partido, em nome da “governabilidade”.
Mas Temer não é apenas respeitado no PMDB. Ele desliza com suavidade na oposição. “Ele é uma pessoa que dialoga com todas as tendências. Prova disso foi o fato de ele estar presente, na noite de quinta-feira, em um evento organizado por uma socialite – Rosângela Lyra – que defende o impeachment da Dilma”, disse um interlocutor do vice-presidente. Foi justamente neste evento que afirmou ser difícil Dilma resistir mais três anos e meio se mantiver as taxas de popularidades baixas como as atuais. “Temer dialoga com a esquerda, radical ou não.
Trânsito O vice de Dilma Rousseff é bem-visto pelos tucanos. Em 2002, apoiou a candidatura presidencial de José Serra, contra o petista Luiz Inácio Lula da Silva. Só se aproximou do Planalto em 2006, quando Lula, sobrevivente do escândalo do mensalão, concorreu à reeleição e o PMDB, com felicidade explícita, aderiu ao petismo. Pavimentou o caminho para se tornar candidato a vice-presidente em 2010.
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Fala de Temer eleva desconfiança no Planalto e anima PMDB anti-DilmaImpopular e fragilizada, Dilma tem que engolir declarações de TemerOposição diz que fala de Temer 'amplia afastamento' de DilmaPara cúpula do PMDB, Temer 'escorregou' ao falar de popularidade de DilmaPara Romero Jucá, Temer "não entregou" os pontos e fez apenas uma constataçãoTemer diz que ''não se move pelas sombras'' e segue a ''cartilha da Constituição'' Decisões contestadas por aliados desgastam ainda mais a imagem de Dilma RousseffA esses elementos todos, adiciona-se outro, fundamental nesse momento de crise e instabilidade política. “O Temer é o segundo na linha sucessória. Qualquer sinal de impedimento da presidente vai torná-lo presidente da República”, explicou o diretor de documentação do Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar (DIAP), Antonio Augusto de Queiroz, o Toninho do Diap. “Dilma não duelará jamais com Temer por uma razão muito simples: sobrevivência”, resumiu Toninho.
Para o cientista político Ricardo Caldas, o diagnóstico feito por Temer na noite de quinta-feira foi preciso, por isso causou tanto incômodo no governo.
O fantasma do impeachment também torna a presidente refém do vice. “A condenação de um presidente pelo Congresso é uma decisão política. O PMDB comanda as duas Casas – Câmara com Eduardo Cunha e Senado com Renan Calheiros. Se não tratar bem Temer e o partido presidido por ele, permanecerá eternamente nessa crise”, avaliou Caldas.
Política 'burra'
O coordenador nacional do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), João Pedro Stédile, criticou a política econômica do governo Dilma Rousseff, taxada por ele de “burra”. “Ele (o governo federal) tem que mudar essa política, que é burra, equivocada e não sai da crise. Não tem sentido ficar aumentando taxa de juro, ficar cortando gasto social, e é isso que a presidente tem de mudar. Nós a elegemos para um outro programa”, criticou o líder do MST, que esteve na capital mineira para o lançamento da Frente Brasil Popular, que defende a permanência de Dilma no cargo, mas exige mudança nos rumos da economia. “Todas as pesquisas indicam que o nível de popularidade da presidente baixou para 7%, 8%. Esperamos que leia as pesquisas e se dê conta de que isso não é gratuito.