História preservada

Livro faz alerta para conservação dos documentos sobre a ditadura

Relatório final da Comissão Municipal da Verdade de Juiz de Fora faz alerta para conservação dos documentos

Daniel Camargos
O relatório final da Comissão Municipal da Verdade de Juiz de Fora (CMV-JF) será lançado na quarta-feira.
O texto, em formato de livro, com 272 páginas, esmiuça os acontecimentos da cidade, que foi preponderante durante a ditadura militar (1964-1985), pois lá o golpe teve início em 1964. Também em JF, no presídio de Linhares, ficaram encarcerados a presidente Dilma Rousseff, o governador Fernando Pimentel e o prefeito de Belo Horizonte, Marcio Lacerda, por lutarem pela democracia.

O livro Memórias da repressão deixa um alerta para que a memória seja preservada com mais cuidado. “A experiência de consulta aos arquivos nos colocou diante de algo que desafia a sociedade brasileira em geral e também Juiz de Fora: a necessidade de preservação da memória e da história da sociedade, por meio da conservação dos documentos que a encarnam e resumem. A falta de uma metodologia de organização dos arquivos que facilite a consulta, o estado de abandono da documentação e a precariedade das instalações onde se encontram são características que evocam, embora a contragosto, a ideia de negligência”, publica o relatório.

Um dos casos mais graves foi o encontrado na Penitenciária José Edson Cavalieri, conhecida como Penitenciária de Linhares. A Comissão teve acesso, inicialmente, a uma pequena sala com documentos dispostos em ordem alfabética e depois a um depósito, chamado de “lava-jato”, com pastas de documentos empoeiradas. “As poucas fichas de presos políticos identificadas pela CMV-JF foram localizadas em um fichário que continha o termo ‘foragidos’, o que não corresponde ao histórico dos presos em questão”, destaca o relatório. “Um número expressivo de pastas foi colocado sobre os arquivos de aço sem nenhuma organização.
Os armários são de difícil manuseio, enferrujados, empoeirados. É impossível uma pesquisa no local, a menos que o pesquisador se disponha a, primeiramente, organizar todo o material. Não foi possível encontrar um só prontuário de preso político da ditadura.”.

A CMV-JF recomenda, no relatório, a digitalização e organização do acervo e a destinação dos documentos referentes às prisões políticos da ditadura militar ao Arquivo Histórico de Juiz de Fora ou ao Arquivo Público Mineiro. Outra sugestão é criar um memorial destinado à preservação da história do período, seguindo o exemplo do que já foi realizado em São Paulo; Berlim, na Alemanha; Auschwitz, na Polônia; Santiago, no Chile; e Buenos Aires, na Argentina.

O relatório traz um detalhamento completo das vítimas da ditadura que passaram por Juiz de Fora ou que nasceram na cidade, totalizando 151 pessoas. Em 63 casos há algum relato de tortura, sendo que em 20 são menções vagas e, em 43, há relatos mais detalhados e bem documentados. Um dos relatos citados é da presidente Dilma Rousseff, baseado nos depoimentos da presidente à Comissão Estadual de Indenização às Vítimas de Tortura (Ceivt) do Conselho Estadual de Defesa dos Direitos Humanos de Minas Gerais (Conedh–MG), conforme o Estado de Minas revelou em uma série de reportagens publicada em 2002. Em novembro do ano passado, a comissão entregou para ex-presos políticos e familiares das vítimas da ditadura os documentos da época em que estiveram presos na Penitenciária de Linhares, incluindo os da atual presidente.

REVISÃO O relatório da CMV-JF também sugere mudar o nome de logradouros e prédios públicos, que homenageiam os militares que tomaram o poder a força:  Avenida Presidente Costa e Silva, no Bairro São Pedro; Escola Estadual Presidente Costa e Silva, no Bairro Benfica e uma estação de tratamento de águas da Cesama “Castello Branco”. “A ideia é buscar uma reparação simbólica, que sirva de marco para as atuais e futuras gerações”, pontua o relatório. Outra proposta é incluir o conteúdo histórico, com os fatos ocorridos em JF, nos currículos escolares da cidade..