Brasília – O governo Dilma sofreu nesse domingo a maior derrota política dos últimos anos com a eleição de Eduardo Cunha (PMDB-RJ) para a presidência da Câmara dos Deputados, realizada após a posse dos 513 deputados eleitos em outubro para 55ª legislatura. Amparado pela traição mais ou menos aberta dos deputados da base aliada, o peemedebista conseguiu tirar votos do adversário Arlindo Chinaglia (PT-SP). Apoiado pelo Planalto, o petista viu os 160 votos dos parlamentares do bloco, oficializado na tarde de ontem, se reduzirem a 136 deputados na hora da urna. A primeira vice-presidência ficará com Waldir Maranhão (PP-MA).
Embora tenha adotado um tom conciliador no discurso feito logo após a vitória, Cunha deixou claro que a relação com o governo se dará em outro patamar a partir de agora: a fatura virá salgada, e a governabilidade, quando houver, terá de ser negociada caso a caso. Para deixar claro, disse que a primeira matéria a ser pautada será o 2º turno da PEC do Impositivo, que obriga o Executivo a executar as emendas dos parlamentares. O comando do Senado voltou às mãos do também peemedebista Renan Calheiros (AL).
Em coletiva, Chinaglia minimizou a derrota. “Seja o poder Executivo ou o Judiciário, a relação com o Legislativo sempre será respeitosa. A presidência não serve para atacar o governo e muito menos para defender.
Embora tenha sido o principal prejudicado, a traição não se resumiu a Chinaglia: Júlio Delgado (PSB-MG), que concorreu com o apoio do PSDB, do PV e do PPS, teve 100 votos, seis a menos que o número de deputados de seu bloco. Chico Alencar (Psol-RJ) teve oito votos, três a mais que a bancada do Psol. A oposição, entretanto, comemorou o resultando como uma vitória própria, por ter ajudado a aprofundar o racha na base aliada.
Governabilidade
“O governo sempre terá, pela sua legitimidade, a governabilidade que a sua maioria poderá dar, no momento em que ela for exercida, se for exercida. Então, há aqui uma palavra de serenidade, de tranquilidade. E não há da nossa parte nenhum julgo de retaliação ou qualquer coisa dessa natureza. Nós assistimos a uma tentativa de interferência do Poder Executivo, ou de parte dele, dentro da eleição do Poder Legislativo. Mas, o Parlamento, pela sua independência, sabe reagir. E ele reagiu no voto, na escolha”, disse Cunha em um breve discurso, logo após o anúncio do resultado. “As disputas acabam aqui. Não seremos nem oposição nem submissos”, acrescentou. A campanha de Cunha providenciou chuva de papel picado no plenário e queima de fogos na Esplanada, além de festa em chácara do Lago Sul.
No grupo que apoiou o petista, as reações variavam do conformismo à revolta.
Entre os petistas, houve inclusive quem criticasse a aposta elevada na candidatura de Chinaglia, antes mesmo de proclamado o resultado. “O PT agiu muito mais pensando no governo, ao montar essa lista para a Mesa, do que do ponto de vista da bancada. Até se cogitou um acordo com Cunha, mas desde o começo ele (Cunha) deixou claro que não estava disposto a fazer acordo.
PMDB fortalecido Embora o mesmo partido assuma o comando do Senado e da Câmara, a vitória do PMDB tem duplo significado para o Palácio do Planalto. Reeleito, Calheiros deve se manter fiel aos projetos de interesse do governo. Em troca, o peemedebista cobrará influência em algumas áreas da administração, como o setor elétrico. Eleito com folga para presidir a Câmara, Cunha agregou apoio de outros partidos da base governista insatisfeitos e já sinalizou que atuará descolado dos interesses imediatos da presidente Dilma Rousseff. Caberá a ela, satisfazer o apetite político do peemedebista e de seus aliados por cargos e fatias do orçamento.
O fortalecimento do PMDB nas duas Casas é uma derrota para Dilma, que se reelegeu com maioria apertada e agora depende do Congresso para aprovação de medidas anunciadas pela equipe econômica como a salvação das finanças do país. É ainda uma derrota ao núcleo político do Palácio do Planalto.
Os ministros da Casa Civil, Aloizio Mercadante, e da Secretaria de Relações Institucionais, Pepe Vargas, trabalharam pessoalmente para tentar alavancar a candidatura de Arlindo Chinaglia (PT-SP). Já há parlamentares cobrando a substituição de Vargas.
Com a vitória de Cunha, Renan também sai ainda mais fortalecido. O Planalto sabe que precisará ainda mais do peemedebista para negociações com a outra Casa, já que Cunha é adversário quase-declarado do Planalto. Na mão dos dois presidentes, está o poder de agilizar ou atrasar a votação de projetos do interesse do Planalto. São os dois que escolhem as propostas que irão ao plenário..