Jornal Estado de Minas

Novos diálogos revelam que deputado e doleiro estão juntos em fraude

Conversas gravadas pela Polícia Federal mostram que Alberto Youssef e Luiz Argôlo tramaram tirar duas empresas de uma concorrência na Bahia, estado do parlamentar do Solidariedade

João Valadares Naira Trindade

Diálogos revelam planos de Argôlo com Youssef, com detalhes sobre um vinho de R$ 3 mi - Foto: Carlos Moura/CB/D.A Press


Brasília –
Novos diálogos entre o doleiro Alberto Youssef e o interlocutor identificado na Operação Lava Jato apenas como L.A., que, para a Polícia Federal, é o deputado Luiz Argôlo (SDD-BA), revelam uma trama da dupla com objetivo de evitar que duas empresas participem de uma licitação. Durante a troca de mensagens, o parlamentar chega a escrever palavrões quando descobre que uma das companhias furou o plano. “Filhos da… O cara entrou. Com uma.” Numa das interceptações, registrada em 17 de outubro de 2013, o deputado é taxativo. “Rapaz, vc tem que falar com a pessoa (sic). Ele tem q tirar duas empresas do processo que será amanhã cedo. Se elas participarem, o convênio não será publicado”, avisa.

Ao ser informado pelo doleiro que “elas têm convênio com ele em Fortaleza”, o deputado justifica o pedido inicial. “Fale mesmo.
Se não o pessoal do outro lado trava.” Nos diálogos, não fica claro onde a concorrência seria realizada e também quem é “ele”. Apuração da reportagem indica que a licitação ocorreu na Bahia, estado do parlamentar. No dia seguinte 18 de outubro, às 8h09, Argôlo encaminha nova mensagem para Youssef. “Os nomes das empresas são: Eletronor e Cosampa”, avisa. Um minuto depois, encaminha outro torpedo para avisar a Youssef que o monitoramento está sendo feito e o plano vai bem. “O pessoal já monitorou e sabe que tem relação com ele. Se elas derem preço, o pessoal cancela o outro. Resolvi isso com ele.”

Em outra conversa, em 21 de outubro, Argôlo avisa ao doleiro que está sem dormir e pede que Youssef cheque o contrato. “Quero que você veja logo com o rapaz do contrato. Você não sabe o quanto de compromisso”, alerta. Ao ser questionado pelo doleiro o motivo pelo qual não consegue dormir, o parlamentar responde: “O Roberto não deu mais nada, tô quase correndo nu na rua”. No relatório da Operação Lava Jato, a PF não identifica quem é Roberto.

Em todos os diálogos fica clara a intimidade entre a dupla. As cobranças e pedidos do parlamentar sugerem que os dois são sócios em alguns negócios.
Às 20h13 de 21 de outubro, o político baiano dá satisfação a Youssef sobre o andamento das negociações. “Rapaz, tô sentado aqui. O pessoal quer publicar se o pessoal desistir. Fale com ele. O pessoal tá fazendo a instalação do material dele lá no Ceará.” O doleiro responde em seguida: “Quem contratou não foi ele e sim a Secretaria de Estado do Ceará. Não ele”. O deputado implora ao doleiro. “Ele tem relação o a empresa (Sic). Faça um apelo a ele. Por favor”.
Youssef diz que já fez.

Vinho

Em 14 de outubro, Argôlo e Youssef trocam mensagens sobre um vinho de três mil que tinham tomado na noite anterior. “Foi bom o vinho. Valeu a pena”, escreve Youssef. O deputado pergunta o nome da bebida e o doleiro informa o valor. “Vega Cicilia (Sic). 3 pila. KKK”, responde. Trata-se de uma reserva de 1986 do tinto espanhol Vega Sicilia. “KKK mesmo. Vou voltar para tomar o resto”, diz Argôlo.

Na sexta-feira, a reportagem tentou entrar em contato com Luiz Argôlo. A assessoria de imprensa alegou que ele estava no interior da Bahia em atividades políticas. A assessoria não quis confirmar se o parlamentar reconhece ser o L.A. registrado nos diálogos da PF. Para a investigação, não há dúvida. Em uma das mensagens encaminhadas ao doleiro, L.A. informa o endereço. “302 N, Bloco H, Ap 603”. O bloco H da quadra 302 Norte é um prédio funcional da Câmara dos Deputados. No apartamento 603, mora justamente o deputado Luiz Argôlo. A reportagem telefonou para as empresas Eletronor e Cosampa, citadas nas mensagens da dupla, mas não conseguiu resposta.
Youssef, preso na Operação Lava Jato, é apontado como líder de um esquema de lavagem de dinheiro e evasão de divisas que teria movimentado R$ 10 bilhões.

Relação estreita

O relacionamento estreito entre o deputado Luiz Argôlo (SDD-BA) e o doleiro Alberto Youssef ameaçam a permanência do parlamentar no partido. Líder do Solidariedade, Paulo Pereira da Silva (SP), o Paulinho da Força, prefere aguardar a investigação da Corregedoria da Câmara dos Deputados para decidir se toma alguma medida mais drástica em relação a Argôlo. Nos bastidores, a expulsão do parlamentar da legenda é dada como certa, mas Paulinho diz que “é preciso apurar” as denúncias. A explosão de revelações trazidas pela Operação Lava Jato, deflagrada pela Polícia Federal em 17 de março, desmascarou um esquema de corrupção e pagamento de propina que envolve Luiz Argôlo e o doleiro.  Argôlo nega envolvimento no esquema e diz que só viu Youssef uma vez em um jantar. Agora, o deputado evita comentar o assunto. O caso dele é investigado pela Corregedoria da Câmara dos Deputados a pedido do PPS. Para Rubens Bueno (PR), líder da sigla, há indícios de que o deputado baiano, que trocou recentemente o PP pelo recém-criado Solidariedade, quebrou o decoro parlamentar ao manter relações com o doleiro preso.

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