Jornal Estado de Minas

Relatório sobre morte de JK incomoda e provoca reação

Comissão Nacional da Verdade conclui que ex-presidente morreu em acidente e descarta a tese de atentado. Comissão paulista, OAB mineira e ex-secretário particular contestam resultado

Maria Clara Prates

Pedro Dallari apresentou os resultados da investigação feita pela comissão - Foto: Valter Comparato/Agência Brasil


A conclusão da Comissão da Nacional da Verdade (CNV) de que o ex-presidente Juscelino Kubitschek foi mesmo vítima, em 1976, de um acidente de automóvel causou desconforto e indignação nos defensores da tese de que ele foi vítima de um atentado praticado pela ditadura militar. O relatório divulgado nessa terça-feira contradiz totalmente o resultado da investigação da Comissão da Verdade Vladimir Herzog, da Câmara Municipal de São Paulo, que apresentou, em dezembro, o entendimento de que o político mineiro foi assassinado. Segundo a apuração da comissão paulista, o choque do Opala em que JK e o seu motorista estavam com uma carreta na Via Dutra, rodovia que liga São Paulo ao Rio, não foi um acidente. Juscelino foi vítima de uma conspiração militar e sua morte planejada.

O presidente da Casa Juscelino Kubitschek, Serafim Jardim – que conviveu com o ex-presidente por nove anos e escreveu um livro sobre a vida dele –, bateu na mesma tecla, mas usou tons mais altos. “Essa não é uma comissão da verdade, mas uma comissão da mentira”, reagiu. Para colocar todos os pingos nos is, o presidente da comissão Vladimir Herzog, vereador Gilberto Natalini (PV) – com apoio da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB-MG), que pediu a investigação –, anunciou que vai pedir uma reunião com o grupo nacional para fazer uma “confrontação” entre os dois relatórios para entender por que as conclusões foram tão distintas. De acordo com ele, a comissão recolheu “103 pontos com indícios, testemunhas e evidências” do assassinato do ex-presidente.

Nessa terça-feira, a comissão reafirmou sua conclusão de que o motorista de JK, Geraldo Ribeiro, foi vítima de um tiro e, em razão disso, estava debruçado, com a cabeça caída entre o volante e a porta do veículo, quando o carro perdeu o controle em uma curva e bateu de frente com uma carreta.
A conclusão se baseou no relato feito pelo motorista aposentado Ademar Jahn, que conduzia um caminhão igual ao do amigo Ladislau Borges, no qual o carro bateu. Segundo o texto, à época do crime, peritos foram substituídos, testemunhas sofreram ameaças e tentativas de suborno e houve denúncias de que um tiro foi disparado de um automóvel que emparelhou com o Opala.

Audiência

Serafim Jardim – que foi secretário particular de JK e pede a reabertura das investigações desde 1996 – disse que ontem mesmo enviou um e-mail ao jurista Pedro Dallari, coordenador da Comissão Nacional da Verdade, solicitando uma audiência para discutir o relatório sobre a morte do amigo JK. “Eu pedi várias vezes para ser ouvido e não fui atendido. Para afastar a hipótese de atentado, o grupo usou simplesmente a investigação pela Câmara dos Deputados, instaurada em 2001 e presidida pelo então deputado Paulo Otávio. Eles analisaram apenas laudos periciais produzidos à época do acidente”, afirmou Jardim. Ele insiste que o motorista de JK foi atingido na cabeça por uma bala, que foi recolhida no local e depois desapareceu. “A cabeça do motorista se esfacelou. Temos 103 provas do atentado”, reagiu.

 A investigação pela CNV teve início em setembro de 2012, a partir de um pedido da OAB-MG, por meio da Comissão de Direitos Humanos, com a Comissão da Verdade da autaquia e da Assembleia Legislativa de Minas. Segundo o presidente da comissão da OAB, William Santos, fatos novos revelados após a morte de JK e seu motorista exigiram a reabertura das apurações. Ele afirma que o suposto assassinato do ex-presidente está ligado à Operação Condor, que, por meio do extinto Serviço Nacional de Informações (SNI), órgão da ditadura militar brasileira, perseguiu, torturou e matou opositores nos países vizinhos. Santos também criticou a conclusão da CNV, que teria optado pela “meia verdade”. Ele garante que o grupo nacional concluiu pelo acidente sem nem mesmo analisar as peças de exumação do corpo, a que somente as entidades mineiras tiveram acesso.

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