Jornal Estado de Minas

Condenado no mensalão, Pizzolato planejava fuga do país há oito anos

Ex-diretor do Banco do Brasil começou a elaborar rota para deixar o Brasil em 2006, quando iniciou venda de seus imóveis para financiar a saída

Ana D'angelo
Pizzolato: único condenado no mensalão que está foragido - Foto: Lula Marques/FolhapressFiel amigo de Henrique Pizzolato, o blogueiro Alexandre Teixeira garante que o réu do processo do mensalão só decidiu fugir do país em cima da hora, quando o Supremo Tribunal Federal (STF) negou, em 4 de setembro, os embargos de declaração à condenação de 12 anos e 7 meses de cadeia em regime fechado. O ex-diretor do Banco do Brasil (BB) não tinha direito aos embargos infringentes, a exemplo do ex-ministro da Casa Civil José Dirceu e do ex-tesoureiro do PT Delúbio Soares. O Estado de Minas apurou, no entanto, que os planos de Pizzolato para escapar da mão da Justiça começaram oito anos atrás.
O passo inicial dele foi se desfazer de quase todos os 11 imóveis que possuía em 2005. Uma busca feita pela reportagem nas últimas três semanas em cartórios do Rio de Janeiro e de cidades no Sul do país revelou a movimentação imobiliária de Pizzolato desde o início de 2006. Em 28 de março daquele ano, o relatório da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) dos Correios havia confirmado o pior, embora já esperado por Pizzolato, conforme as sinalizações recebidas: a proposta de indiciamento de 60 pessoas, entre elas o tesoureiro da campanha de 2002 de Luiz Inácio Lula da Silva, enquadrado pela CPI nos crimes de falsidade ideológica, lavagem de dinheiro e peculato.

Duas semanas depois, a Procuradoria Geral da República (PGR) ofereceu a denúncia contra 40 réus ao Supremo Tribunal Federal (STF), disparando a movimentação de Pizzolato. “Ele trabalhou com planos A, B e C”, admitiu Alexandre Teixeira, após questionamentos do Estado de Minas sobre a venda dos imóveis. O ex-diretor do BB ainda acreditou que pudesse ser inocentado, mas não deixou de se preparar para o extremo, a cadeia. E dela escapar. Petistas ouvidos pela reportagem descreveram Pizzolato como uma pessoa meticulosa, disciplinada e excelente estrategista.

Quando soube que o relatório da CPI seria implacável, o ex-diretor do BB deu início a um dos planos, que era livrar os bens de um eventual bloqueio judicial para a fuga. Ele já havia tido uma experiência nada boa. Entre junho de 2002 e fevereiro de 2003, ele ficou com os bens indisponíveis por ordem judicial, por conta de uma intervenção do governo federal na Previ, o fundo de pensão do BB, do qual foi diretor de 1998 até maio de 2002.

Em julho de 2005, quando veio à tona que ele recebeu R$ 326,6 mil em dinheiro sacados da conta da agência de propagada de Marcos Valério no Banco Rural, que lhe foram entregues por um contínuo da Previ, ele possuía 11 imóveis, entre casas e apartamentos, declarados à Receita Federal. À época, estavam avaliados, de forma conservadora, em R$ 2,2 milhões, conforme o levantamento feito pelo EM.

Na lista, está incluída uma cobertura em Copacabana, adquirida em fevereiro de 2004 por R$ 400 mil (hoje avaliada em R$ 3,5 milhões), 35 dias após receber os R$ 326 mil. À Receita, além dos imóveis, ele declarou cerca de R$ 500 mil em investimentos (incluídos R$ 100 mil em nome da mulher, sua dependente na declaração) e R$ 81 mil em dólares e euros. Seria o correspondente a ter atualmente R$ 1 milhão em conta e em moeda estrangeira.

Partilha Em abril de 2006, Pizzolato e a mulher, Andrea, foram parte num processo judicial de partilha de bens, na 4ª Vara de Família do Rio. O casal teria se separado e se reconciliado logo depois. Andrea está com Pizzolato na Itália. Na partilha, homologada em dezembro de 2006, ela ficou com três dos imóveis mais valiosos, avaliados hoje em cerca de R$ 6 milhões: uma casa e um apartamento em Florianópolis, além de um duplex de 158 metros quadrados em Copacabana, no Rio de Janeiro. No mesmo ano, Pizzolato vendeu três apartamentos: dois em Curitiba e um em São Leopoldo. Outros dois, também no município gaúcho, foram transferidos a terceiros em 2009.

Passos no exterior

Enquanto desmobilizava o próprio patrimônio, entre 2006 e 2012, Henrique Pizzolato passou a maior parte do tempo no exterior. A justificativa foi amparar uma sobrinha, filha da irmã, que morava no Sul da Espanha, com problemas de saúde e em tratamento. Foi nesse período que ele providenciou a cidadania italiana e obteve uma identidade como cidadão daquele país, além de passaporte estrangeiro, em 2010. Em novembro de 2012, Pizzolato entregou ao STF os dois passaportes que tinha, o italiano e o brasileiro. Assim, ele afastou eventual suspeita de que pudesse fugir, o que terminou fazendo.