Jornal Estado de Minas

Base governista confronta Planalto em votações de projetos na Câmara

Apesar do adiamento da votação do orçamento impositivo para a semana que vem, aliados prometem demonstrar força criando mais problemas para o governo nos próximos 60 dias

Paulo de Tarso Lyra Adriana Caitano Amanda Almeida
Plenário da Câmara só votará o projeto que obriga o governo a liberar emendas na terça, o que dá fôlego ao Planalto para negociar o texto - Foto: Gustavo Lima/ABR
O governo conseguiu adiar para terça-feira a votação do orçamento impositivo na Câmara, mas a estratégia dos aliados é transformar os próximos 60 dias num inferno para o Executivo. Até o prazo final para filiações partidárias, no início de outubro, os partidos da base vão emparedar o PT e o Planalto e mostrar que o tempo em que aceitavam passivamente as diretrizes petistas ficou para trás. Eles querem mostrar que têm força nos estados para definir a formação dos palanques sem a imposição da legenda da presidente Dilma Rousseff e zerar o jogo para a disputa nas eleições de 2014.
O jogo de cena de ontem no Congresso é um sinal de que uma das armas será confundir os interlocutores governistas. Na última terça-feira, após uma manobra do presidente da Câmara, Henrique Eduardo Alves (PMDB-RN), para assegurar a votação da matéria na comissão especial, era certa a análise do orçamento impositivo no plenário da Casa na noite de ontem. No Senado, as informações que circulavam eram de que os senadores segurariam a matéria para ajudar o governo a respirar.

A nuvem, no entanto, mudou de lado. No fim da manhã, o presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), deu uma entrevista coletiva dizendo que colocaria o orçamento para votar tão logo a matéria chegasse à Casa. “Quem sabe talvez seja uma oportunidade para acabarmos, do ponto de vista da relação do Legislativo com o Executivo, com essa coisa do toma lá da cá?”, disse Renan.

Henrique Alves foi convidado para um almoço – que teve a presença também do líder do partido na Casa, Eduardo Cunha (RJ) – com o vice-presidente Michel Temer, preocupado com a rebelião generalizada do PMDB e da base no Congresso. Ele voltou do encontro ainda disposto a manter a votação. A interlocutores do partido o presidente da Câmara afirmou que seu compromisso era com o Parlamento e com a democracia e nada além. E que o primeiro passo seria “vencer a votação na Câmara e depois negociar a matéria com os senadores”.

Sentindo que a situação tinha atingido um limite insuportável, o Planalto fez um novo apelo – desta vez partindo da chefe da Casa Civil, ministra Gleisi Hoffmann – para que a votação fosse adiada. Após uma série de reuniões envolvendo todos os partidos, optou-se por dar uma sobrevida ao governo. Oficialmente, Henrique Alves disse ter adiado a votação para “garantir uma unanimidade”. Segundo Eduardo Cunha, porém, o adiamento foi também uma manobra estratégica.

Ciente de que o governo ameaçava levar o tema ao Supremo Tribunal Federal (STF), o PMDB resolveu minimizar os danos, seguindo literalmente o regimento interno da Casa. Assim, a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) sobre o orçamento impositivo entra em primeiro turno só na terça. A votação em segundo turno será após cinco sessões, provavelmente no dia 27. “Se já temos garantida a vitória política, para que o risco de derrota jurídica? Não queremos dar motivo para o STF ser a favor de derrotar a proposta”, argumentou Cunha. No plenário, o líder do PT, José Guimarães (CE), comemorou o resultado. “É a vitória do diálogo, viu-se que o tudo ou nada não dá em nada”, comentou.