Testemunha de fatos marcantes da história do Brasil, como a Guerra dos Emboabas, a igreja está fechada para celebrações religiosas desde 9 de setembro de 2011. Na tarde de sexta-feira e na manhã de ontem, portando cartazes e faixas, a comunidade de Cachoeira do Campo fez um ato pela continuidade da restauração. “A obra não pode parar, vai ser um prejuízo muito grande. Não temos recursos para tocar os serviços e houve a promessa do governo federal de que tudo seria feito por meio do PAC. E agora? O que vamos fazer? As missas foram transferidas para a Igreja das Mercês, mas ela não comporta o número de fiéis. As pessoas ficam até na chuva. Até as noivas estão na expectativa, pois querem casar aqui”, afirma, com o semblante preocupado, o titular da paróquia, padre Oldair de Paulo Mateus.
“São muitos os danos para a igreja, que tem o primeiro forro pintado em perspectiva de Minas, de autoria do artista português Antonio Rodrigues Belo, em 1751”, diz o restaurador Silvio Rocha Viana de Oliveira, destacando que as peças serão protegidas, “mas os riscos são enormes para uma igreja quando suas portas são fechadas”. Silvio disse que o templo estava completamente tomado pelos cupins e, para exterminá-los, foi feita a desinfestação. “Trocamos a maioria das peças, mas há algumas, como um dos esteios do altar, que precisam ser retiradas e substituídas”, diz Silvio, mostrando a madeira carcomida pelos insetos.
Movimento
O presidente da Associação dos Amigos de Cachoeira do Campo (Amic), Rodrigo da Conceição Gomes, lembra que o movimento para recuperar a igreja começou há mais de 10 anos. “Quando o governo federal anunciou a obra, pensamos: agora vai! Mas estamos vivendo este transtorno”, disse, olhando para a faixa, afixada na grade da igreja, que traz a frase: “Onde está o dinheiro do PAC da reforma da Igreja Matriz de Cachoeira do Campo?”. Ao lado, o coordenador de patrimônio da paróquia, Sebastião Evásio Bonifácio, mostra decepção. “Eu vi quando a presidente Dilma, ao lado de Lula, anunciou na Praça Tiradentes, no Centro de Ouro Preto, que a obra seria feita com dinheiro do PAC – a primeira do país. Não é o que vemos”, afirmou.
O coordenador de comunidades, William Luiz de Castro, falou da tristeza do povo e adiantou que amanhã, às 19h, no salão paroquial, haverá reunião para discutir o assunto. “O bispo da arquidiocese de Mariana, dom Geraldo Lyrio da Rocha, apoia a nossa manifestação”, disse William, com total aprovação da irmã salesiana Gisélia Rodrigues de Souza, diretora da obra social de Nossa Senhora Auxiliadora; da professora Rosângela Silva Guimarães; da secretária da paróquia, Delvânia Garcia, e das paroquianas Efigênia Auxiliadora Silva Pedrosa, Maria das Graças Fernandes e Maria Auxiliadora da Silva. “Estamos recebendo apoio até de pessoas de outras religiões”, conta a irmã Gisélia. Compenetrada no seu ofício, a restauradora Ludmila Ribeiro Souza, de 20, está apreensiva. “Concluir a restauração é fundamental. Mas estou preparando o casamento e quero que seja aqui”, afirma com os olhos cheios de esperança.
Liberação
O Ministério das Cidades, via assessoria de imprensa, informa que a restauração da Igreja Matriz de Nossa Senhora de Nazaré não é obra do PAC das Cidades Históricas – os recursos são de emenda parlamentar, sem autoria, de 2009, no valor de R$ 1,8 milhão. Até o momento, foram executados apenas 8,85% dos serviços, conforme medição da Caixa Econômica Federal, agente financeiro encarregado de liberar o dinheiro. O contrato para a realização da obra foi assinado em 2011. Em 26 de julho deste ano, confirmam os assessores, foi liberado, para a empresa encarregada do serviço, o valor de R$ 34.560. No último dia 5, o Ministério das Cidades autorizou a liberação, também pela Caixa, de R$ 124.740. “Os recursos são liberados de acordo com o andamento da obra”, disseram os assessores.
O secretário municipal de Patrimônio e Desenvolvimento Urbano de Ouro Preto, Gabriel Gobbi, conta que 90% dos recursos são federais e 10% de contrapartida da prefeitura. Gobbi disse que a empresa já comunicou à prefeitura a intenção de paralisar as obras se o depósito do dinheiro não for feito. Ele explicou que os recursos municipais são liberados de forma vinculada aos recursos da União. O superintendente do Iphan em Minas, Leonardo Barreto de Oliveira, disse que a autarquia é apenas responsável pela fiscalização da obra da igreja tombada pelo Iphan desde 1949.
Memória/Fatos históricos
Guerra dos Emboabas
No início do século 18, os paulistas, descobridores das minas, estavam estabelecidos nos arraiais que iam de Caeté a São João del-Rei. Atraídos pelas riquezas, os emboabas – grupo formado por portugueses, baianos e pernambucanos – também chamados de reinóis e forasteiros – chegaram em massa, invadindo a área e revoltando os pioneiros. A disputa pelo ouro e poder – a guerra foi, acima de tudo, uma disputa política, em torno dos principais cargos e postos da administração montada na região – levou a conflitos armados e à escolha, em 1707, de um emboaba para governador, à revelia da coroa portuguesa. A guerra abriu caminho para uma série de levantes, como a Sedição de Vila Rica (1720) e Inconfidência Mineira (1789) e criação das primeiras vilas do ouro. Em Cachoeira do Campo, foi travada, em 1708, uma das batalhas mais sangrentas em frente à Igreja de Nossa Senhora de Nazaré.
Sedição de Vila Rica
Em frente à Matriz de Nossa Senhora de Nazaré, em Cachoeira do Campo, há um cruzeiro de pedra. Conforme documentos, foi ali que ficara exposto um dos braços de Felipe dos Santos, martirizado na Sedição de Vila Rica, em 1720. Um dos principais líderes da revolta contra o controle da coroa portuguesa e o pagamento do quinto do ouro, Felipe dos Santos foi preso no adro da igreja por ordem do governador da Capitania de Minas e São Paulo, conde de Assumar. Depois de enforcado, ele teria, conforme a tradição oral, o corpo dilacerado ao ser amarrado, pelos pés e mãos, a dois cavalos que correram pelas ruas de Vila Rica (ex-Ouro Preto).