Jornal Estado de Minas

Tática no PT sobre mensalão é negar até o fim

Candidatos petistas são orientados pela direção do partido a adotar o mesmo discurso quando surgir o tema mensalão

Paulo de Tarso Lyra

Brasília – Principal partido envolvido no escândalo do mensalão em julgamento pelo Supremo Tribunal Federal (STF), o PT blindou-se para evitar que o caso atrapalhe os candidatos nas eleições municipais de outubro. Para facilitar a tarefa, o discurso foi unificado e a linha mestra do raciocínio foi dado no vídeo divulgado pelo presidente do partido, Rui Falcão, na sexta-feira, 27 de junho. "Não houve mensalão, não foram utilizados recursos públicos no episódio, nenhum petista se beneficiou de qualquer recurso para fins pessoais e nenhum deles se enriqueceu."

O mantra deve ser utilizado, segundo petistas ouvidos pelo Estado de Minas, por candidatos do partido "de norte a sul, de leste a oeste". Desde que o tema seja suscitado nas eleições. Caso contrário, o PT quer é debater ideias, propostas de governo e fingir que não tem nada a ver com a discussão que está sendo travada no STF.

Essa é a tática, por exemplo, do deputado João Paulo Cunha (PT-SP). Réu do mensalão sob a acusação de ter pego R$ 50 mil por intermédio das agências de Marcos Valério, João Paulo ainda não foi confrontado pelos adversários na disputa pela Prefeitura de Osasco (SP). Enquanto isso, vai planejando o transporte urbano e mostrando o que pretende fazer para dar continuidade aos oito anos da gestão petista de Emídio de Souza no município.

O PT conta, por enquanto, com o benefício de uma aparente trégua em diversos municípios. No primeiro debate televisivo realizado em São Paulo, Fernando Haddad – que patina em índices pífios de intenção de voto – foi poupado tanto pelo tucano José Serra quanto pelo candidato do PRB, Celso Russomano. Quem cobrou um discurso ético do candidato do PT foi o candidato do PSOL, Carlos Gianazi. Haddad se esquivou.

Na última segunda-feira, dia 30, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva se reuniu com candidatos petistas nas cidades com mais de 150 mil habitantes. Tirou fotos coletivas e individuais, mas não discursou nem fez qualquer menção "à farsa montada pelas elites", como ele costumava dizer ao longo do segundo mandato e depois que deixou a Presidência, sucedido pela presidente Dilma Rousseff.

No dia em que o julgamento começou no STF, Lula foi questionado se acompanharia o debate travado pelos advogados, pelo Ministério Público e pelos 11 ministros do STF. "Eu tenho mais o que fazer, vou trabalhar". Depois, completou que estava mais interessado em acompanhar as Olimpíadas e a Carminha (personagem de Adriana Esteves na novela Avenida Brasil).

Um dos mais fiéis escudeiros do PT e do ex-presidente Lula, o deputado Devanir Ribeiro lembra que o escândalo do mensalão foi julgado pela população em 2006 – durante as eleições presidenciais que reelegeram Lula para a Presidência da República. Mas, apesar disso, ele admite que o processo forçou a renovação dos quadros no PT, especialmente no diretório paulista. "O mensalão abateu Dirceu (José Dirceu), Luiz Gushiken, José Genoino. Depois, ainda perdemos o Antonio Palocci", recorda.

Devanir acrescentou que a própria eleição do Diretório Nacional do PT naquele ano de 2005 já apresentou uma mudança, com a ascensão de Ricardo Berzoini à presidência do partido, em substituição ao atual governador do Rio Grande do Sul, Tarso Genro. "Em outros estados, essa renovação ocorreu naturalmente, com Genro, Wagner (Jaques Wagner, governador da Bahia) e Déda (Marcelo Déda, governador de Sergipe)", completou.

Em São Paulo, de acordo com Devanir, essa renovação culminou com a indicação de Fernando Haddad à prefeitura da capital. Outros nomes que surgiram pós-mensalão são o prefeito de São Bernardo, Luiz Marinho, o atual prefeito de Osasco, Emídio de Souza e o ex-prefeito de São Carlos e deputado federal Newton Lima.

Embates e crise em 2006

O escândalo do mensalão abalou a reeleição do ex-presidente Lula em 2006. O momento mais agudo da crise foi quando o publicitário Duda Mendonça, que fizera a campanha vitoriosa do petista em 2002, foi à CPI dos Correios e admitiu ter recebido dinheiro de caixa 2. "Era assim ou não receber", disse ele. Vários petistas começaram a choramingar pelo Congresso e a oposição chegou a pensar em um processo de impeachment. Desistiu porque percebeu que não teria forças para promover manifestações de rua.

Lula pensou em desistir da reeleição. Disse isso a pessoas mais próximas. Pensou em indicar Antonio Palocci, então ministro da Fazenda e em um momento pré-caseiro Francenildo, como o candidato do PT. Palocci não quis, ganhou pontos com o chefe. Lula então montou a estratégia que se mostraria vitoriosa. Foi às ruas, viajou pelo Brasil, para mostrar a força do PT.

Foi nesse momento que se exacerbou a raiva que ele tinha do PFL, posterior DEM. O então presidente da legenda, Jorge Bornhausen, disse que era o momento de "exterminar essa raça", numa referência ao PT. Em 2010, Lula viajou para Santa Catarina durante as eleições para governador e devolveu a frase. Raimundo Colombo acabou sendo eleito, mas abandonou o DEM e virou PSD, legenda governista presidida pelo prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab.

Lula recuperou o prestígio eleitoral e foi para as eleições de 2006 como favorito na disputa com o ex-governador de São Paulo, Geraldo Alckmin. O mensalão já não era o principal assunto da campanha, e sim, a privatização das empresas públicas. O PT carimbou no candidato tucano a pecha de privatista.

Aloprados


Tudo ia bem até que, em 15 de setembro de 2006, o empresário e tesoureiro de campanha do PT em Mato Grosso em 2004, filiado ao partido desde agosto de 2004, Valdebran Padilha da Silva, e o ex-agente da Polícia Federal e advogado do PT Gedimar Pereira Passos foram presos no Hotel Ibis, em São Paulo, com R$ 1,7 milhão em dinheiro vivo, acusados de tentar comprar um dossiê contra o candidato do PSDB ao governo de São Paulo, José Serra. Lula, que classificou os autores do dossiê como aloprados, teve que disputar o segundo turno, mas acabou reeleito.