Ela se disse enternecida com uma cena “maravilhosa”, vivida com duas garotinhas portadoras de síndrome de Down. Foi durante o lançamento do Plano Nacional dos Direitos das Pessoas com Deficiência, tido como um xodó da petista, na semana passada. Voz embargada e toda a pinta de choro, soltou, sem fazer comparações com as circunstâncias políticas: “É um momento em que vale a pena ser presidente”.
Em março, Dilma estava preparada para discursar sobre a formalização de 1 milhão de empreendedores individuais, marca recém-conquistada pelo país. Mas o que os espectadores do Planalto viram foi o choro da presidente, chocada, como o restante da nação, com o massacre de 12 crianças, baleadas por um atirador em Realengo, no Rio. Ela pediu um minuto de silêncio aos “brasileirinhos”. “Considero que todos aqui, homens e mulheres, estamos unidos no repúdio àquele ato de violência, no repúdio a esse tipo de violência, sobretudo a crianças indefesas”, comentou.
Em seu discurso depois de receber a faixa presidencial, Dilma se emocionou em dois momentos. Primeiro, ao dizer que havia se tornado “a presidenta de todos os brasileiros”; e, depois, ao recordar os companheiros de sua geração, muitos perseguidos políticos como ela, que “tombaram pelo caminho”.
Tortura
Antes mesmo de ser conduzida ao Planalto, alavancada pelo prestígio do ex-presidente Lula, esse viés de Dilma já havia se apresentado ao público. Convocada pelo Senado em 2008, a então ministra da Casa Civil prestava depoimento sobre o vazamento de informações sigilosas sobre gastos do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. Ao ser indagada sobre os tempos de ditadura, chorou.
O senador Agripino Maia (DEM-RN) ressuscitou uma declaração de Dilma – de que teria mentido muito nos tempos de perseguição da ditadura militar – para insinuar que ela também mentiria ali. “Fui barbaramente torturada, senador. Qualquer pessoa que ousar falar a verdade para os torturadores entrega os seus iguais. Eu me orgulho muito de ter mentido na tortura, senador”, rebateu Dilma, comovida.
Homens meigos
Ministra, Dilma já era conhecida pelo semblante “amarrado”. Em 2009, o então secretário-executivo do Ministério da Integração Nacional, Luiz Antonio Eira, pediu demissão depois de episódio em que teria levado uma bronca, aos berros, em público da então chefe da Casa Civil. O burburinho dos corredores era de que a petista só não havia passado pitos no próprio Lula e no vice José Alencar.
Confrontada com sua fama de casca grossa, Dilma evoca o preconceito contra as mulheres que ascendem a postos de comando. “Em condições de poder, a mulher deixa de ser vista como objeto frágil e isso é imperdoável (ao público)”, afirmou, quando já era pré-candidata ao Planalto, em 2009. “Aí começa a história da mulher dura. É verdade: sou uma mulher dura cercada de homens meigos”, completou.
Oito anos de lágrimas
Se os momentos de choro de Dilma Rousseff (PT) são pontuais, “nunca antes na história deste país” houve tanto choro e ranger de dentes quanto na era Lula. Ao fim do governo, o ex-presidente já não surpreendia ninguém quando se comovia. Empossado pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE), em dezembro de 2002 (foto), ele começou a derramar as incontáveis lágrimas de sua gestão. “E eu, que durante tantas vezes fui acusado de não ter um diploma superior, ganho o meu primeiro diploma, o diploma de presidente da República do meu país”, justificou. E chorou, chorou, chorou... Por oito anos. Em entrevista coletiva depois da escolha do Rio de Janeiro como sede das Olimpíadas de 2016, Lula disse algo de que só ele parecia duvidar: “Pensava que não tinha mais motivos para emoção...”.