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Estado de Minas

Jovens ocupam praça da Assembleia para protestar

Jovens universitários de classe média ignoram o simbolismo das estátuas de Ulysses, Tancredo e Teotônio Vilela e acampam em frente à Assembleia para contestar a democracia representativa


postado em 29/10/2011 06:00 / atualizado em 29/10/2011 07:00

Se as estátuas de Ulysses Guimarães, Teotônio Vilela e Tancredo Neves na Praça da Assembleia, Zona Sul de Belo Horizonte, ouvissem, enxergassem e falassem, pediriam hoje para serem levadas de lá. Há duas semanas “convivem” com cerca de 20 jovens que, inspirados em movimentos populares do Norte da África e Europa, montaram um acampamento na praça que funciona como uma espécie de central para debate e contestação da democracia representativa, sistema que os três políticos ajudaram a reimplantar e a consolidar no país depois de 21 anos de ditadura militar.

A maioria universitários de classe média, os acampados da Praça da Assembleia integram movimentos como o Anonymous e o Take the Square (tome a praça), que surgiram na internet. O Anonymous começou como um grupo de hackers que ficaram famosos por usar máscaras que imitam o rosto do soldado inglês católico Guy Fawkes, que teve participação na tentativa fracassada de assassinar o rei protestante Jaime I em 1605. Fora qualquer conotação histórica, o mote de esconder faces e nomes serve para tentar enfatizar exclusivamente as causas que defendem.


O Take a Square mantém até site  com orientações sobre como ocupar praças. O movimento começou em Madri em 15 de maio e se expandiu para outras capitais europeias e para a América do Norte. Em Nova York, tomou parte do centro financeiro do país, no que ficou conhecido como Occupy Wall Street.


Os acampados da Praça da Assembleia se declaram sem qualquer ligação partidária e “apolíticos”. “Acreditamos que pertencer a uma legenda não seja o caminho. Queremos que a sociedade tenha poderes para definir seu próprio rumo”, afirma Max Viana, 23 anos, estudante de engenharia civil com bolsa paga pelo governo federal. “Não tenho problema nenhum com isso. A União é obrigada a dar educação para o povo”, argumenta.


A escolha da Praça da Assembleia não foi à toa. Além de estar próxima à sede do Poder Legislativo, fica a poucos metros do edifício do Banco Central na capital mineira. Além de defender a democracia direta, os acampados protestam contra o capitalismo. Em uma árvore ao lado das oito barracas que armaram na praça penduraram cartazes com reclamações sobre o sistema. “A vontade e o propósito do nosso sistema atual são a acumulação de dinheiro e o crescimento econômico como fins em si mesmos. A enganação de que nosso bem-estar estaria indiretamente garantido à medida que grandes corporações atingissem esses objetivos não nos convence mais”, diz um dos textos pendurados ao que chamaram de “árvore do conhecimento”.


Regras claras

Para os que já começaram a imaginar que os acampados querem mesmo é bagunça, como às vezes ocorre em um ajuntamento de jovens fora de casa, a história é outra. Uma série de regras precisam ser seguidas por quem pretende participar do movimento. É proibido bebida alcoólica ou qualquer outro tipo de drogas, além de cigarro dentro das barracas e sexo.


Com estrutura precária, apesar das boas condições financeiras, os acampados mantêm na praça, além das barracas e colchões, apenas um galão de água. A comida ou é comprada em restaurantes próximos, que cobram preços mais baixos, ou vem da casa de simpatizantes. “Outro dia um senhor nos trouxe chocolate quente”, conta Max. Copos e pratos são lavados nas casas de amigos que moram próximo.


Há um revezamento no acampamento. Nem todos os manifestantes dormem na praça todos os dias. O advogado que se identifica pelo nome de Legião – por ser do movimento Anonymous o rapaz, de 29 anos, se recusa a dizer o nome verdadeiro – alterna noites na barraca com outras na casa dos pais, a poucos metros da praça, no Bairro Santo Agostinho. “Ainda não sei como vamos fazer para mudar tudo. O importante no momento é organizar a sociedade. Nosso lema no mundo é ‘não nos representem’. Em outros países o movimento está mais organizado. Em novembro, por exemplo, o povo vai discutir nas praças da Europa a taxação de 1% aos bancos para combate à pobreza”, informa Legião.

 

Saiba mais

Primavera Árabe

O modelo para a mobilização que domina hoje as praças da Europa e Estados Unidos e que tenta crescer no Brasil teve origem na chamada Primavera Árabe, uma onda de manifestações em países do Oriente Médio e do Norte da África pela derrubada de ditadores. Na mais expressiva, os egípcios, aglomerados na Praça Tahrir, na capital Cairo, conseguiram pôr abaixo o governo de Hosni Mubarak, em fevereiro.


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