Jornal Estado de Minas

Crianças participam de ensaio para a cidadania

Estudantes de escolas municipais que participam do projeto Câmara Mirim em Belo Horizonte exercitam a representação popular e formam uma visão crítica sobre a prática política

 

- Foto: Marcos Michelin/EM/D.A Press

 

Em cada escola, uma piscina; em vez de água, bebedouros que jorram refri; e, nas salas de aula, cestas de basquete para arremessos de bolinhas de papel. Se o voto fosse obrigatório antes, e não depois dos 18, esta aí uma listinha básica de promessas eleitorais. Elas vêm dos 41 vereadores mirins de Belo Horizonte – sim, eles existem! – e de seus concorrentes derrotados. Mas se por um lado as ideias curiosas são proporcionais aos desejos da idade, por outro eles já mostram uma visão crítica sobre os políticos. "Teve um que prometeu notebook para todos os alunos de escolas públicas. Até parece que ia cumprir", alfineta Brenda de Castro, de 14 anos. Em bate-papo com o Estado de Minas, ela e colegas da Câmara Mirim, programa da Escola do Legislativo de BH, revelam como veem a política.

Empossados em março deste ano – depois de disputa com colegas em 10 escolas municipais –, os vereadores mirins recebem na Câmara lições sobre cidadania. Chegaram ao Legislativo sem entender muito sobre política ou até mesmo com antipatia do assunto. "Minha mãe disse que sou muito corajosa de mexer com política. Também não gostava", comenta Isabelle de Oliveira, de 13. Mas meses depois, a opinião se transformou. Por que Maria Eduarda Lellis, de 12, também deixou de achar que a política se resume à corrupção? "Porque agora sou uma política, né? Preciso ter esperança sobre o meu papel", resume, sem nem parar para pensar. E o que os políticos mirins fazem?

"Nossos colegas nos cobram: 'E aquilo que vocês nos prometeram?'", diz Rayane Balduíno, de 14, acrescentando que fez campanha apenas dizendo estar "capacitada" para representar a escola. Na Câmara, eles começam o programa com lições sobre vida em sociedade, chegando às audiências públicas. Na fase final, pela qual passam, elaboram indicações ao prefeito e projetos de lei. Rayane e a "bancada" de sua escola se esforçam para cumprir a tarefa, pensando nos colegas e vizinhos de bairro: "Fizemos indicação para canalizar um córrego, em frente ao colégio, no Jatobá 4, no Barreiro. Tem rato, barata e um mau cheiro danado".

As propostas são levadas a plenário, em uma simulação que tem até Mesa Diretora eleita. As aprovadas pelos mirins são entregues à Comissão de Participação Popular da Câmara, que pode transformá-las em projetos de lei "de verdade". Tayline Campos, de 13, e seus colegas de colégio pensaram em espaços de convivência. "A nossa sugestão é que a prefeitura seja obrigada a implantar pelo menos um parque em cada bairro, até pela importância da área verde. No Providência, na Região Norte da capital, nosso bairro, não há nenhum", explica. Há também propostas para direito à meia-entrada para professores e de segurança pública.

João Gabriel Mendes, de 14, eleito presidente da Câmara mirim, coordenará a reunião plenária. "Quando venci a votação para a Mesa Diretora, saí correndo para fora da Câmara e gritei um palavrão, de tanta felicidade", relata. Ele e outros nove vereadores mirins têm pela frente outra grande expectativa. Vão a Brasília, em 18 de outubro, encontrar com crianças de outros estados numa grande simulação de atividades parlamentares na Câmara dos Deputados.

Profissional Matheus Santos, de 14, já passou pela experiência. Foi presidente da Mesa Diretora mirim no ano passado. Em Brasília, foi responsável por fazer parecer contrário a projeto de lei de uma colega de outro estado. "Era uma proposta sobre estrutura para bicicletas numa cidade. Argumentei ser inconstitucional por ter de ser elaborado pelo Legislativo municipal, e não na Câmara dos Deputados", lembra. Foi derrotado, e o projeto, aprovado. Para ele, os outros colegas estavam "despreparados". "Pensaram na bandeira do meio ambiente e se esqueceram da Constituição. O político deve ter noção de sua área de atuação", dá a bronca. Depois de participar do programa na Câmara, quer ser político.

A Câmara mirim não tem como função principal ensinar às crianças como os vereadores trabalham. "O programa prevê a formação de cidadania. É aquilo que todo cidadão precisa entender: o povo tem de sintetizar seus anseios pelas normas, que devem ser construídas de forma coletiva. Para isso, temos de escolher representantes e acompanhar o trabalho deles. E eles devem exercer a atividade de acordo com as nossas vontades", explica o coordenador dos projetos da Escola do Legislativo, Sulavan Fornazier. A renovação da Câmara mirim é anual e participam jovens de 12 a 14 anos, de escolas municipais.

 
- Foto: Marcos Michelin/EM/D.A Press

Personagem da notícia

Mateus Patrick Ribeiro Santos
14 anos

 

Este leva jeito

 

Com camisa social, ele chega cumprimentando quem encontra pela frente. Matheus Patrick Ribeiro Santos. Guarde este nome: Quem sabe o garoto de 14 anos não se torna presidente da República daqui a uns anos? A oratória já está sendo treinada. "Quero ser político. Ainda não escolhi o partido. Estou estudando as ideologias de cada um. Por ora, nenhum me agradou. Gostei mais do PV", diz Matheus. Ex-presidente da Câmara mirim de 2010, ele se empolgou tanto com a experiência que já convenceu o pai, morador de Sabará, a se candidatar a vereador da cidade da Grande BH.. No futuro, espera que seja a vez dele. A segunda opção é seguir carreira jurídica, preferência do pai. "Política, para mim, era roubalheira. Mudei a minha visão. Hoje, acredito no poder da política de mudar a vida da sociedade."

Mulheres são maioria

Elas dominam e eles acreditam na boa gestão da mulher no poder. Diferentemente da formação da Câmara Municipal de Belo Horizonte, que tem apenas cinco vereadoras, para a Câmara mirim foram eleitas 28 "parlamentares" mulheres. "Depois que a Dilma Rousseff (PT) chegou à Presidência, elas estão ganhando tudo", comenta Eduardo Teixeira, de 13 anos. Ele e os 12 colegas homens veem com bons olhos a abertura dos Legislativos e Executivos a elas, mas não deixam de alfinetar a primeira presidente do Brasil.

"Temos de esperar mais um tempo para ver o que ela vai fazer. Por enquanto, estamos apenas na expectativa pelas mudanças da sensibilidade feminina no poder", diz Eduardo. As meninas concordam e pedem seriedade na gestão pública. Sobre os ex-presidentes, as críticas são muitas. "Não gostei da gestão de Fernando Henrique Cardoso (PSDB). As privatizações foram excessivas. Já o Lula (PT) foi muito populista", afirma Matheus Santos, de 14. PT ou PSDB? Nenhuma preferência.

Eles parecem ver a política como área de adultos, em que os grandões têm dificuldades de se adequar ao novo mundo. Ao receber o cartão de visita de uma vereadora, Eduardo e Rayane cochicham... "Ela tem até Twitter! Moderna essa vereadora, hein?", diz Eduardo, ignorando que os políticos já veem no microblog um grande propagador de suas ideias. Ele diz que foi convidado a integrar as bases do PCdoB. "Meu tio me convidou, mas ainda não tenho idade. Vou pensar nisso mais para frente", desconversa Eduardo, com seriedade.

A maioria diz que está na Câmara por "sorte" e, apesar de ter mudado a visão sobre a política, negam que querem seguir carreira. "Conversei com meu pai esses dias e ele me disse 'Ah, filha, vai para a política mesmo, porque estamos precisando de alguém que pare de roubar'. Mas, por enquanto, estou fora", bate o pé Isabelle de Oliveira, de 14. E tem algum político que serve como referência na carreira? "O Matheus", responde imediatamente João Gabriel Mendes, de 14, em referência ao ex-presidente da Câmara mirim de 2010.