Jornal Estado de Minas

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Estado de Minas tem acesso às cartas recebidas por Itamar Franco no Planalto

Correspondências foram enviadas ao político ao longo de sua história política e que agora vão integrar o acervo do memorial que levará seu nome

Daniel Camargos

Neusa Mitherroff mostra as pastas com as 350 mil cartas recebidas por Itamar - Foto: Fotos: Jackson Romanelli/Em/D.A press 

Juiz de Fora – Ana, de Goiânia (GO), quer notícias do concurso realizado para o Banco do Brasil. Ela foi classificada, mas ainda não foi chamada. Iara, de Porto Alegre, quer mais segurança, pois foi assaltada e precisa andar acompanhada de dois seguranças armados. Élcio, do Rio de Janeiro (RJ), está preso e quer o perdão da pena. Elenilda, de Maceió (AL), é mãe de nove filhos, não tem marido e quer uma aposentadoria aos 45 anos. Outra Elenilda, de Conceição do Caté (BA), precisa de um emprego público. Edvando, de Belo Horizonte, confia na estabilidade do recém-lançado Plano Real, mas deseja que o reajuste das parcelas de sua casa seja revisto, pois não suporta mais os aumentos. Todos são personagens do Brasil de 1993 e 1994 – os dois anos em que Itamar Franco foi presidente – e são os remetentes de um arquivo rico e diverso, que, somado às outras cartas recebidas pelo ex-presidente, morto no início deste mês, chega a 350 mil correspondências.

O Estado de Minas teve acesso exclusivo às cartas, no instituto que leva o nome de Itamar, em dois andares de um prédio histórico na Avenida Getúlio Vargas, no Centro de Juiz de Fora. Organizadas em centenas de pastas amarelas, separadas por ano de recebimento e por ordem alfabética dos remetentes, elas fazem parte do acervo pessoal do ex-presidente, ao lado de medalhas, fotografias, livros, objetos e recortes de jornais que compreendem toda a carreira política, desde quando foi vereador na principal cidade da Zona da Mata até os seis meses deste ano em que atuou como senador.

O material, principalmente as cartas enviadas para Itamar enquanto ele estava na Presidência, possibilita o entendimento de um período fundamental na história do Brasil.  Expõe os anseios de brasileiros, após o conturbado governo de Fernando Collor, com um plano econômico que fracassou depois de confiscar o dinheiro da população, deixando apenas uma pequena reserva de 50 mil cruzados novos (equivalente hoje a cerca de R$ 6 mil) até o nascimento do Plano Real, que sepultou a inflação de vários dígitos, possibilitou a estabilidade econômica e é a base para o crescimento do país nos últimos 17 anos.


Confira imagens das cartas enviadas a Itamar ao longo da vida


O plano econômico foi lançado no fim de fevereiro de 1994 e passou a valer na segunda metade do ano, mas a expectativa era grande antes da mudança. Tanto que em 10 de fevereiro o engenheiro Egídio Furtado Campos enviou carta ao presidente fazendo sugestões.  A primeira era que o símbolo do real (R$) fosse BR$. A segunda era que a  expressão  “Deus seja louvado” nas notas fosse trocada para “Nós louvamos a Deus”. Egídio aproveitou para compartilhar ideias com Itamar: “O padrão arquetípico brasileiro, em termos de consciente coletivo, tem estado seriamente adoecido, deprimido. Gerou-se um estado de coisas em que ninguém, ou quase ninguém, acredita, de fato, numa recuperação econômica do Brasil”.

Resposta para todas as cartas
 
Todas as cartas do período em que Itamar foi presidente foram respondidas pelo setor de memória da Presidência. A resposta era padrão, acusando o recebimento. Os pedidos eram repassados aos ministérios. No caso de Egídio, a missiva foi para o da Fazenda, ocupado à época por Fernando Henrique Cardoso, com quem Itamar travaria embates a respeito da paternidade do Plano Real. Uma disputa  justificada na reação da população, que agradecia pela melhora da situação econômica. De Riachuelo (SE), Edula do Lyra Cajueiro enviou carta em 13 de maio de 1994: “Estou preocupada com as notícias de que o nosso dinheiro vai mudar. Tenho dinheiro na poupança, no Banco do Brasil, faço economia e até cheguei a vender um terreno para ver se consigo uma casinha na capital, pois tenho uma mãe que está sofrendo com câncer e precisa de tratamento”.

Ajudinha

Pedidos de ordem pessoal eram as principais motivações das correspondências. Ana, de Goiânia, pediu notícias sobre o concurso do Banco do Brasil. “Passei oito meses estudando a fio, 14 horas por dia, varando madrugada”, escreveu ela, com 29 anos à época. E completou: “Estou perdendo a esperança no país”.

Um preso condenado queria o perdão da pena. Anexou à carta certificados de boa conduta e um que afirmava que ele costurou bolas de futebol na cadeia durante anos. Já o xará do presidente Itamar José Coelho pediu a presença dele na posse da diretoria da Associação dos Juízes Classistas da Justiça do Trabalho da Terceira Região. E contou que um deputado também foi convidado: “Para emprestar à solenidade a importância dos grandes homens públicos mineiros”.

Questões urgentes, como a de Elenilda Pascoal da Paz, também chegavam via correios. Mãe de nove filhos, sem marido e sem pai nem mãe para auxiliá-la, ela queria se aposentar. Listou que tinha “bico de papagaio, gastrite reversiva” e  que fez operação de hérnia. Desejava o benefício, apesar de ter apenas 45 anos e de não contribuir com o INSS. A carta foi recebida e encaminhada para o Ministério da Previdência Social.

No acervo não estão apenas cartas manuscritas. Todo tipo de correspondência, como cartões e convites, faz parte. Estão lá, por exemplo, um cartão da Associação dos Fumicultores do Brasil e um telegrama da Escola Moderna de Educação Arco-Íris, de Aracaju (SE). A diretoria da escola lamentava a conversão em URVs da média dos últimos quatro meses para definir o reajuste. O argumento era de que o cálculo provocou uma defasagem de 30%.

A relação de Itamar com as cartas era de imenso respeito, de acordo com Neusa Mitherroff, que trabalhou com ele por mais de 40 anos e hoje é a principal organizadora do acervo. Ela mostra com carinho um porta-retrato com a foto de Larissa,  garota de Curitiba (PR) que conheceu Itamar em uma visita de sua escola a Brasília. A criança puxou conversa com o presidente e esticou o assunto a ponto de se tornarem correspondentes de 1993 até os últimos dias de vida de Itamar. No verso do porta-retrato fica um convite da formatura de Larissa. “Quando ele (Itamar) foi hospitalizado, ela me ligou e batemos um longo papo”, lembra Neusa.

Preservação garantida

Todos os arquivos do ex-presidente Itamar Franco serão transferidos para o Memorial da República – Presidente Itamar Franco, que será construído em Juiz de Fora. O termo de criação do memorial será assinado hoje pelo reitor da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), Henrique Duque de Miranda Chaves Filho, e pelas filhas de Itamar, Georgiana e Fabiana Franco. De acordo com o reitor, a obra está orçada em R$ 3,5 milhões e deve ser concluída até o fim de 2012. O Instituto Itamar Franco, criado em 2005, será incorporado pela universidade. O prédio do memorial terá 815 metros quadrados e tem o estilo arquitetônico dos anos 1960. No projeto estão previstos espaços para exposições, bibliotecas, hemeroteca e salas de pesquisa. O pró-reitor de cultura da UFJF, José Alberto Pinho Neves, destaca que a criação do memorial não acontece em função da morte de Itamar. “Já era negociado desde 2008.”