Jornal Estado de Minas

Em carta, Itamar recebeu apelo contra a inflação

Os juros altos da prestação da casa própria levaram Edvando José Baêta a escrever ao Pai do Plano Real elogiando o programa, mas exigindo redução. Virou admirador de Itamar Franco

Alessandra Mello
Edvando diz que a confiança manifestada na correspondência de 1994 acabou se confirmando com a manutenção de uma moeda forte no Brasil - Foto: alexandre guzanshe/d.a press
Edvando José Baêta, 60 anos, conseguiu quitar as prestações de seu apartamento , na Região Noroeste de Belo Horizonte, aonde mora até hoje. Recentemente fez com a família uma viagem para a Argentina e voltou orgulhoso do valor dado pelos “hermanos” à moeda brasileira. “Eles fazem questão de receber em real”, destaca o assessor do Conselho Regional de Contabilidade, que nos idos de 1994 enviou ao então presidente Itamar Franco uma carta manifestando sua confiança no recém -lançado Plano Real e também sua insatisfação com os juros exorbitantes das prestações do financiamento da casa própria. Com inflação galopante, segundo ele, a cada mês a prestação aumentava um pouco, elevando os valores da mensalidade para cifras impagáveis.


- Foto: CLIQUE PARA AMPLIARA carta de Edvando faz parte de um acervo de cerca de 350 mil correspondências recebidas por Itamar, morto no início de julho, durante sua passagem pelo Palácio do Planalto. “Tenho muita admiração pelo Itamar. Apesar das polêmicas em que se envolvia, sempre achei o presidente um homem íntegro. Na época de seu governo fiquei bastante entusiasmado com o Plano Real e com a possibilidade de termos no Brasil, enfim, uma moeda forte. Meu entusiasmo não foi mesmo à toa. Nossa moeda hoje é forte em todo o mundo e a inflação daquela época não existe mais”, relata Edvando , também orgulhoso de ter quitado todas as parcelas de seu financiamento habitacional.

Palpites na seleção Missivista contumaz, ele conta que enviou correspondências com críticas, mas que, na maioria das vezes, prefere mandar cartas com elogios. “Sempre que algo me incomoda escrevo uma carta. Mas não escrevo só para reclamar, escrevo para chamar a atenção sobre alguma coisa. Mas quando vejo algo bom, também escrevo para elogiar. Faço isso há muitos anos”, comenta. Uma das primeiras, conta Edvando, foi para o então técnico da Seleção Brasileira, João Saldanha, em 1969. Com 18 anos na época, lembra de ter enviado diversas correspondências para o técnico e também endereçadas à Confederação Brasileira de Futebol (CBF) com críticas à escalação da seleção que, no ano seguinte, ganharia a Copa do Mundo. Ele conta que mandou a carta porque ficou chateado com o fato de a seleção ser formada basicamente por jogadores do Rio de Janeiro e São Paulo.

A última enviada foi para a seção de cartas do Estado de Minas. Edvando conta que achou um abuso a pichação feita em muro próximo a uma das câmeras de vigilância da Polícia Militar instaladas perto de sua casa. “A pichação foi feita no bigode da PM. Fiquei incomodado e mandei uma carta para o jornal”, relata. A fixação de Edvando pelas cartas continua, mas uma coisa mudou desde a correspondência enviada por ele a João Saldanha: hoje não são mais de papel, não têm selo, muito menos envelope. O correio hoje é eletrônico. Vão todas por e-mail .