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Embaixada de Minas na Corte

Deputado em segundo mandato, Fabinho Liderança virou um fenômeno em Brasília, reunindo políticos poderosos em volta da sua mesa, conciliando interesses e desatando nós no Congresso

Leonardo Augusto
Nenhum restaurante em Brasília consegue atrair para a mesma mesa o vice-presidente da República, ministros e parlamentares – do alto e baixo clero, da oposição e da base do governo – como um apartamento funcional do Bloco G da Super Quadra Sul na capital federal. É verdade que a comida servida por lá é sem reparos. Mas há outro motivo: o morador. O imóvel é usado pelo deputado federal Fábio Ramalho (PV-MG), lavador de carros e vendedor de picolés na infância em Malacacheta, no Vale do Mucuri, que, aos 49 anos, depois de chegar a prefeito da cidade por duas vezes, se transformou, no segundo mandato na Câmara, sem nunca ter sido líder de partido, bloco, ou ter ocupado cargos na Mesa Diretora, em um desatador de nós, arranjador de votos e exterminador de antipatias, com influência não só na Câmara, mas também no Senado da República.
Um dos “clientes” de Fábio Ramalho – que ainda no início da carreira política, na década de 1990, ganhou o apelido de Fabinho Liderança – é o vice-presidente Michel Temer (PMDB). Depois de ser presidente da Câmara dos Deputados por dois mandatos, de 1997 a 2001, o peemedebista articulava o retorno ao cargo em 2009. “Michel era antipático, na visão dos parlamentares da época. Em uma viagem que fizemos juntos para os Estados Unidos, vi que não tinha nada disso”, conta Fabinho Liderança. O parlamentar, então, perguntou se Temer queria a sua ajuda. “Ele topou e eu disse: ‘vá a todos os meus jantares e ande comigo pelo plenário’”.

A estratégia foi seguida e parece ter sido importante na vitória de Temer para o comando da Casa. Não fosse assim, o político, já como vice-presidente da República, não teria mantido a frequência nos jantares organizados pelo parlamentar. “O deputado Fabinho é um agregador. Reúne as pessoas, une, facilita o diálogo na Câmara. Sempre promove, em sua casa, em seu gabinete ou onde quer que esteja, a aproximação de pessoas. Tem essa facilidade de comunicação e convívio, que impressiona a todos”, afirmou o vice-presidente ao Estado de Minas.

O último jantar com a presença do peemedebista aconteceu na terça-feira. Na véspera, Fabinho Liderança recebeu um telefonema da ministra de Relações Institucionais, Ideli Salvatti, responsável pela ponte entre o Congresso Nacional e o Palácio do Planalto. “Fiquei sabendo que preciso ser sua amiga e quero ir ao jantar”, disse a ministra. “A senhora está convidada não só para esse, mas para todos os outros”, emendou o deputado. Ideli não só esteve no jantar como fez fotos ao lado do deputado.

A eleição do atual presidente da Câmara, Marco Maia (PT-RS), também teve como um dos articuladores o parlamentar do PV. O baixo clero da Casa, como são chamados os deputados com pouca visibilidade, tendia para a escolha de outro petista, Cândido Vaccarezza (SP). Ao final, Maia venceu e se transformou em mais um dos frequentadores dos jantares de Fabinho Liderança.

Há poucos dias, o deputado do PV foi procurado pela cúpula do PSB para que trabalhasse pela indicação da deputada federal Ana Arraes (PSB-PE) para ministra do Tribunal de Contas da União (TCU).

Cardápio O deputado do PV diz que o fato de querer ajudar todo mundo o aproxima das pessoas. “O pessoal fala que eu conseguiria qualquer cargo na Mesa Diretora. Não sei, porque nunca tentei. Prefiro continuar como estou”, diz o parlamentar. Mas a comida, velha aliada dos políticos desde o Império Romano, dá lá a sua contribuição para tanta articulação. Na casa de Fabinho, a cozinha é responsabilidade da equipe de dona Catu. O cardápio é um só, mas extenso: arroz, feijão tropeiro, costela de porco, almôndega, leitoa, carne de sol com mandioca, linguiça e caldo de galinha. Como sobremesa, doce de leite, goiabada, pé de moleque e marmelada. Quase tudo chega de Malacacheta. Fabinho Liderança diz que o consumo de álcool nos jantares é baixo. “São cerca de 150 pessoas em cada jantar e não tomam nem cinco garrafas de whisky”.

O ministro da Educação, Fernando Haddad, nunca foi aos encontros organizados no apartamento do deputado, mas já requisitou a ajuda do parlamentar na Câmara. Em 2009, o governo precisava votar a Desvinculação das Receitas da União (DRU), o que significaria R$ 3 bilhões a mais para a área da educação no país. Haddad disse a Fabinho que precisava de 20 votos da oposição. “Eu disse que lhe daria 22, mas que, em troca, queria uma faculdade de medicina em Teófilo Otoni” – a principal cidade do Vale do Mucuri. “Consegui os votos, mas a faculdade ainda não chegou”, reclama o deputado.

Haddad pediu a ajuda de Fabinho Liderança também no Senado. O senador Flexa Ribeiro (PSDB-PA) pôs emenda em um projeto de lei que já havia sido votado na Câmara, sobre contratação de professores para escolas técnicas. A emenda atrasaria a entrada da proposição em vigor, prejudicando os alunos. “O senador me disse que não a retiraria por Haddad. Mas eu disse que por mim ele retiraria, e foi o que ocorreu”.

Apesar de tão influente no Congresso, Fabinho Liderança não teve força suficiente para eleger a irmã, Maria Ivone (PV), candidata a prefeita de Malacacheta nas eleições de 2008. O vencedor foi padre Aureliano (PTC), que reclama do tratamento dado pelo parlamentar à cidade. “Até hoje o deputado enviou apenas R$ 250 mil em emendas parlamentares para a cidade. É muito pouco para um município que precisa de asfalto, poço artesiano, drenagem, calçamento de bloquete e ambulância”, diz o prefeito. Segundo o deputado, as emendas que apresentou foram para saúde e educação.

A desenvoltura de Fabinho Liderança foi usada até pela presidente Dilma Rousseff, mas por um motivo distante da política. Ela pediu ao deputado que lhe arranjasse um CD do cantor Waldick Soriano. A preocupação do deputado foi enviar o produto original. Com a fama de durona da presidente, sabe-se lá o que ocorreria se levasse um CD pirata.

Cachacinha O estilo de Fabinho Liderança conquistou ainda o ex-vice-presidente da República José Alencar, que faleceu em março. O parlamentar recebeu telefonema de Alencar, que fez uma série de perguntas: “Na sua casa tem linguiça? Tem costelinha de porco? Tem torresmo?”. Depois de ouvir respostas afirmativas para todas as perguntas, o vice-presidente arrematou: “E tem Maria da Cruz”? – a cachaça produzida em uma das fazendas da família de Alencar. Ouviu novo sim. “Então é o seguinte: estou indo almoçar na sua casa”. O vice-presidente não só comeu como desfiou conversa pela tarde inteira no apartamento do deputado.

Fabinho Liderança recebeu ainda em sua casa o governador Antonio Augusto Anastasia (PSDB), à época em que era vice de Aécio Neves (PSDB). “É deputado muito atuante. Batalha muito por sua região. É muito bem relacionado em Brasília e realiza um trabalho muito bom como membro de nossa bancada na capital federal”, diz o governador.
Com tanta fama e bom relacionamento, resta aos admiradores de Fabinho Liderança arriscar uma promoção para o parlamentar, quem sabe, para Fabinho Chanceler.