Jornal Estado de Minas

Monarquistas se reúnem em BH para "tramar" a implantação do regime no Brasil

Alessandra Mello
Eles querem mudar a forma e o sistema de governo brasileiro. A proposta é restabelecer o poder do rei, que teria o direito de indicar o primeiro-ministro e dissolver, a qualquer tempo e hora, o Congresso Nacional e convocar novas eleições ao menor sinal de desvio de conduta dos parlamentares. É o que defende o Círculo Monárquico de Belo Horizonte, que reúne na capital mineira pessoas de idades e profissões diversas defensoras do que elas chamam de Quarto Poder – a monarquia parlamentarista – e da eliminação da figura do presidente da República.
O grupo é ainda pequeno, em torno de 100 pessoas, mas todos têm a esperança de que um dia tudo isso pode mudar. “Falta apenas informação para que mais pessoas se tornem adeptas da nossa causa”, garante o presidente do círculo, professor Mário Lima Guerra, 70 anos, reitor da Faculdade de Sabará. Ele lembra que no plebiscito de 1993 a monarquia teve cerca de 7 milhões de adeptos. Em Minas Gerais foram exatos 731.714. Para o professor, se as discussões que antecederam o plebiscito tivessem sido mais longas, o número de simpatizantes da monarquia, assunto proibido, segundo ele, durante 104 anos, seria bem maior. “Queremos reunir em torno dos nossos ideais todas essas pessoas que votaram a favor da monarquia no plebiscito e também outros monarquistas não assumidos que a gente sabe que existem, mas que não têm coragem de se declarar.” Mário Lima admite que muitas vezes os monarquistas chegam a ser alvo de chacota e tachados de conservadores, mas para ele esse comportamento revela desconhecimento do que significa de fato o regime monarquista.

Salário

Os argumentos para a volta do regime, extinto no Brasil em 1889, são primeiramente econômicos, mas também não faltam justificativas culturais, morais e até mesmo sentimentais. Uma delas é que, das 12 economias mais fortes do mundo, oito são monarquias e o menor salário nos tempos do império seria hoje algo em torno de US$ 275, sendo que a diferença entre o menor e o maior valor pago não passava de 12 vezes.

Quem desfia esses números é o diretor do grupo de jovens monarquistas, o economista Sérgio Orlando Peres de Carvalho Júnior, de 28 anos. “Todo monarquista já nasce monarquista”, respondeu Sérgio, ao ser questionado sobre como e quando nasceu seu interesse pelo regime de reis, rainhas e ministros. “Mas foram por razões lógicas. É só comparar o império com o Brasil republicano que a gente percebe a deterioração não só em termos econômicos, mas também morais. A República trouxe a corrupção”, defende o economista.

Além disso, os monarquistas afirmam que durante o comando da família real o salário do professor era alto, a inflação era baixa e sob controle. Também argumentam que a vitaliciedade do cargo ajuda a inspirar e conduzir um projeto nacional, sem interferência de interesses partidários e com projetos e propostas de longo prazo. “Se tivéssemos mantido a monarquia, os sucessores de dom Pedro II, último monarca brasileiro, teriam sido apenas três até hoje”, lembra o filósofo Raimundo Nonato Fernandes, 82 anos, um dos fundadores da Escola de Educação da Universidade Federal de Minas Gerais.

Bisneto do visconde de Uberaba, Raimundo Fernandes é capaz de discorrer horas sobre história geral, com detalhes a respeito de datas e nomes, principalmente quando o assunto é o império brasileiro e a atenção que a família real sempre teve com o desenvolvimento da educação no Brasil. Ele foi um dos cabos eleitorais da proposta monarquista no plebiscito de 1993 e percorreu algumas cidades do interior de Minas ao lado do segundo na linha de sucessão imperial, príncipe dom Bertrand de Orleans e Bragança, que em 19 de agosto será homenageado durante o IV Encontro Monárquico de Minas Gerais, que será realizado em Belo Horizonte e Sabará. Dom Bertrand é irmão do príncipe dom Luiz de Orleans e Bragança, que seria o rei do Brasil caso a monarquia fosse restabelecida. “Onde se fez a fala monárquica a população se tornou monarquista”, assegura Raimundo se referindo às palestras que fez ao lado de dom Bertrand durante a campanha que antecedeu o plebiscito.

Capela

Os monarquistas se reúnem toda sexta feira de manhã no Café Polastri, em frente à Feira de Flores, na Avenida Bernardo Monteiro. Anualmente eles também realizam encontros, alguns deles na Capela Imperial que o artista Raymundo Lopes, 70 anos, construiu em sua casa, em um condomínio de Nova Lima, e que tem um memorial da princesa Isabel. Ele foi inaugurado em 2010 por bisnetas da princesa Isabel, as também princesas dona Amélia de Fátima e dona Marília Gabriela. Bisneto da baronesa de Queiroz, que era amiga da princesa Isabel, Raymundo é o menos sonhador dos monarquistas mineiros. “Não creio que o Brasil se transforme em um país monárquico, mas quem sabe um pais com a moral monárquica.” “Somos a favor da religião, da defesa da família, da ética no trato da coisa pública, valores que fazem falta nos dias de hoje.”

Saiba mais

O fim do regime


A monarquia, regime que durou 67 anos no Brasil, acabou oficialmente em 15 de novembro de 1889, com a proclamação da República pelo marechal Deodoro da Fonseca. Por meio de um decreto assinado pelo próprio Deodoro, então chefe do governo provisório, toda a família real foi banida do Brasil. O documento dava um prazo de 24 horas para que todos deixassem o país. “E – acrescente-se – para sempre”, diz o trecho do documento. Cento e quatro anos depois, o regime monarquista voltou a ser discutido no Brasil. Em 21 de abril de 1993 foi realizado um plebiscito para a escolha do sistema de governo brasileiro: monarquia ou república. O regime dos reis e rainhas teve o apoio de 13,32% do eleitorado e foi derrotado com folga pelo regime republicano.