Pergunte a qualquer juiz-forano onde nasceu Itamar Franco. Dez em cada 10 nem querem saber se ele nasceu no mar e foi registrado em Salvador. Para eles, o ex-presidente é da terra. Foi lá que chegou, ainda pequeno, para, muitos anos depois, se tornar um dos filhos mais ilustres da cidade da Zona da Mata. Órfão de pai, que morreu antes do seu nascimento, Itamar foi criado pela mãe, dona Itália, a quem ajudava a entregar marmitas, que garantiam o sustento da família. Em dias de chuva, dona Itália sempre abrigava na varanda da casa dezenas de crianças que iam ou saíam das escolas por perto, especialmente as do Instituto Granbery, tradicional instituição de ensino da cidade, em que o ex-senador passou boa parte de sua vida escolar.
Foi em Juiz de Fora que, depois de se formar na Escola de Engenharia da Universidade Federal, ele começou a carreira política, aos 28 anos, quando se candidatou a vereador. Não se elegeu, mas quatro anos depois assumiu o comando da prefeitura, saindo para disputar com sucesso uma vaga no Senado, em 1973. De lá para cá, foi governador de Minas e presidente da República, mas sempre fez questão de, a cada 15 dias, passar o fim de semana no seu reduto eleitoral. De hábitos simples, seus ternos eram comprados em tradicionais lojas da cidade, seja no Calçadão da Rua Halfeld, seja , nos últimos tempos, no shopping.
Dizem que próximo à saída do então presidente Fernando Collor, do qual era vice, suspendeu suas frequentes idas a Juiz de Fora para, segundo ele, não parecer um político provinciano. Sempre preocupado com o que as pessoas poderiam dizer, no auge da crise voltou a viajar de novo para a cidade, para, dessa vez, não parecer que estava ansioso para assumir o comando do país.
Itamar viu a saúde da mãe se deteriorar depois de um derrame. Dona Itália, a quem ele costumava consultar antes de tomar as decisões mais importantes de sua carreira, não reconhecia mais os amigos e nunca soube que o filho assumiu a Presidência. Ela morreu em dezembro de 1992, aos 91 anos, de falência múltipla dos órgãos, em Juiz de Fora. Divorciado, Itamar sempre zelou pela sua privacidade. Foram raros os momentos em que se viu envolvido em notícias escandalosas.
Fez grandes amigos na cidade, entre eles, talvez o mais próximo, Henrique Hargreaves, seu secretário de Governo e seu ministro-chefe da Casa Civil. Eram tão amigos que suas relações não se abalaram nem mesmo quando o então presidente afastou Hargreaves do cargo para apurar seu envolvimento em denúncias de corrupção. Comprovada a inocência do amigo, Itamar, da mesma forma, não pestanejou para reconduzi-lo ao ministério.
O deputado estadual Bruno Siqueira (PMDB), filho do ex-deputado federal Marcello Siqueira – este figura também entre os amigos mais íntimos de Itamar –, recorda dos tempos em que começou a conviver com o senador, aos 7 anos. “Sempre foi uma relação muito caseira, especialmente nos últimos tempos. Nos jantares, invariavelmente na casa dele, o menu era saudável, à base de salada e frango grelhado”, relata o deputado, que se identificava com Itamar por ambos, cada qual na sua época, terem sido presidentes do Diretório Acadêmico da Faculdade de Engenharia. É na cidade também que mora dona Neusa, secretária de Itamar por 40 anos. Sempre fiel, acompanhou toda a trajetória do político e esteve ao lado dele durante a fase crítica da doença.
O apartamento do senador, em área nobre da cidade, é quase uma referência turística. Vira e mexe ouve-se alguém passar na porta e dizer para a pessoa do lado: “É aqui que mora o Itamar”. Mas a maior satisfação do juiz-forano sempre foi poder afirmar que o homem público Itamar Franco nunca teve nada que pudesse arranhar sua reputação de político honesto. De fato, seu nome nunca esteve ligado a denúncias de corrupção ou desvio de recursos do contribuinte. Por isso, hoje, assim como em todo o país, Juiz de Fora está de luto, mas fica o orgulho de ter sido a terra de um homem de bem.