Paulo Mendes Campos
“Retorno a Belo Horizonte”
I
Sinto que posso viver em qualquer parte.
É sempre uma história.
O tempo impregna os telhados como a própria noite.
Ou a morte dentro dos ossos nostálgicos.
O vento esflora os lirismos parados.
Vem dos lagos ingênuos
Uma razão de plantas maceradas.
Às vezes não se pode nem tocar na alma.
Ignoro a minha dor.
Está morta.
Sozinho na praça,
perturbo o trânsito dos ventos.
As palmeiras me enlaçam.
Eu te compreendo,
Mas volto intacto,
Quase indiferente.
Quase indiferente…
Tuas serranias tão tristes.
Ao teu amavio, meu corpo se fecha
Como um teatro infinito.
Quando já é de madrugada,
eu digo ao meu amigo: “Já é de madrugada…”.
Vamos beber ternura de fonte fresca.
Me compreendes, cidade,
transfiguras minha poesia,
meu jeito de aceitar as coisas da morte,
A morte das coisas.
Talvez nem estejas dormindo
Me espiando na brancura do casario,
Talvez nem seja a madrugada,
Apenas minha alma que profetiza.
Dorme. És minha,
Quase uma praia.
II
Exala-se dos lajedos um bando de insetos,
Confidências pululantes.
Há um tropel de morte nas pedras,
O eco multiplicado cem vezes de meus passos.
São sempre as mesmas pedras, duras e inexplicáveis.
Debruço-me sobre algumas ruas
E é como se meus lábios tocassem um muro que separa,
As horas mortas rolam nas calçadas,
do bojo das árvores.
Desfolham-se gritos maduros,
Meus ossos cresceram, ficaram mais tristes
Empapados de morte.
Vou andando.
Não denuncio nada: vou andando.
Ninguém descobre nada: vou andando.
Bastam-me os pés para timbrar um destino: vou andando.
Impávidas pedras, hei de pisar-vos impávido,
firme e raivoso como se andasse para a morte.
III
A praça da Liberdade tem palmeiras incorruptíveis
Mas debaixo rasteja um tento da terra. O vento é meu.
Ele vem do alto do Cruzeiro, onde minha infância respirou o cheiro