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Estado de Minas PENSAR

Os artifícios de Igor Reyner para driblar a morte

Uma análise de ensaio, publicado na revista Serrote, no qual o pianista e professor relê o clássico "Em busca do tempo perdido", de Marcel Proust


03/06/2022 04:00 - atualizado 03/06/2022 03:20


Marcel Proust
(foto: Quinho)

Existem textos ruins, e sobre eles não é preciso escrever. (Aliás, não deveríamos ler mais do que um ou dois parágrafos de um texto ruim se não contamos com os préstimos de um Lucio, leitor voraz e personagem de “O último leitor”, de David Toscana, que, para poupar os leitores distraídos, jogava num poço os livros da biblioteca de Icamole – um povoado no deserto mexicano – que considerava ruins.)

Entre os textos que merecem ser lidos, há aqueles que despertam nossa simpatia; os que são bons; e os que são realmente bons. Nesse último grupo existe ainda uma rara categoria: a dos textos que nos golpeiam. Nela, se encontra o ensaio “O mal que tenho: sobre Proust, câncer e morte”, do escritor e pianista Igor R. Reyner, publicado no número 40 da revista Serrote, acompanhado de autorretratos do pintor norte-americano George Condo.
A palavra câncer no subtítulo do ensaio pode causar surpresa. Ela está lá para enfrentar “os hábitos sociais [que] pressupõem que uma doença grave não deve ser encarada frontalmente e à plena vista”, como o autor escreve num dos 58 fragmentos que compõem o texto. (Numa crônica onde relembra a época em que trabalhava na redação de O Jornal, Nelson Rodrigues diz que a palavra câncer, então de uso vetado na imprensa carioca, tinha que ser substituída por insidiosa moléstia.)

Ao tratar de um tema tabu, em primeira pessoa, argumentando que “recuperar nossa capacidade de sofrer publicamente pode ser uma forma de afirmar o lado positivo dessa dimensão inevitável da experiência humana”, Igor, evidentemente, não quer dar um depoimento de superação pessoal – isso é matéria para livros de autoajuda –, muito menos se imolar em praça pública – coisa para o ambiente das redes sociais. O que ele quer é fazer boa literatura.

E faz isso com admirável destreza: ao se valer da experiência de adoecer gravemente e do poder da imaginação, lendo de maneira correlata, enquanto convalesce, a monumental obra de Marcel Proust “Em busca do tempo perdido”, o autor atravessa com segurança um terreno minado, em que um passo vacilante pode significar a morte literária do eu que narra. Digo isso porque a morte, assim como o amor (esse casal inseparável, tornado célebre por Freud) – em função da alta voltagem emotiva dos dois temas –, quando tocados por mãos inábeis são fontes inesgotáveis de clichês literários: o primeiro, na poesia melosa e apaixonada; o segundo, na prosa das novelas policiais baratas e nos dramas novelescos.

Converter a própria vivência em matéria literária – “não quero trabalhar para reconstruir um país velho e devastado. Prefiro ser um outro país”, diz o autor, implodindo a metáfora da guerra, usualmente empregada em expressões como batalha ou luta contra o câncer – não impede que ele reflita com profundidade e sinceridade sobre seu tratamento, tornando universal a experiência pessoal mediada pela palavra: “Falhamos em compreender que o sofrimento não é um defeito nem uma virtude, e tampouco uma circunstância ou um valor, mas uma das substâncias de que a vida é feita”.

Esse olhar sereno que observa as adversidades humanas se estende de maneira empática à própria Morte (assim, com M maiúsculo), que o autor presenteia “com um nome e um gênero [...] uma forma eficiente de fazer com que ela pareça mais humana. Estranhamente semelhante a nós [...]”, essa personagem, “uma presença cuidadosa continuamente zelando por nós, pois somos sua responsabilidade”, é, por essa razão, investida de um grave desígnio: o de ser a resignada e definitiva algoz de nossa existência.

No estratagema ensaístico de Igor, termos tão alheios ao campo literário, tais como linfoma, linfonodos, transplante autólogo, protocolo oncológico, ganham inusitada força poética. Como o personagem de “O sétimo selo”, de Ingmar Bergman, que, enquanto vence a Morte no jogo de xadrez, posterga seu próprio fim, ou Sherazade, que por meio do moto-perpétuo narrativo das “Mil e uma noites” adia sua decapitação, Igor Reyner é um mestre na arte de driblar a Morte. Não é para isso que escrevemos?


* Maurício Meirelles é arquiteto, escritor e editor da Olympio, revista de literatura e arte. Publicou os livros “A cidadela” (Miguilim, 2019) e “Birigui” (Miguilim, 2016), finalista do 59º Prêmio Jabuti

Serrote
Revista de ensaios, artes visuais, ideias e literatura
224 páginas
Instituto Moreira Salles


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