Jornal Estado de Minas

LITERATURA

O mapa afetivo-literário de Alejandro Zambra

João Moraleida
Especial para o EM 
 
 
 
Em “Poesia sem fim”, último filme do chileno Alejandro Jodorowsky, o poeta Nicanor Parra e o cineasta deambulam pela Santiago da década de 60. São jovens e conversam sobre literatura e novas formas de vida, na esteira das experimentações undergrounds da década. Decidem, junto a um grupo de anarquistas, amarrar a estátua do Nobel Pablo Neruda num ritual para pôr fim a influência do poeta sobre sua geração. Uma espécie de morte ao pai, contra o lirismo masculino nerudiano, celebram o surrealismo, o esoterismo e a comicidade na arte. A revolta é contra o cânone e seus valores comportamentais, contra o Neruda que é lembrado por Hans Magnus Enzensberger em “Tumulto” por seu desmaio ao descobrir que não havia sido escolhido Nobel um ano antes de sua nomeação. 




 
“Somos bicampeões na copa do mundo de poesia”, é o que diz Pato, personagem de “Poeta Chileno”, novo romance de Alejandro Zambra. Mas ao contrário de artistas consolidados e histórias como a de Jodorowsky e Nicanor Parra, ou das referências a Pablo Neruda, trata-se de um livro sobre a descoberta do mundo da poesia. Nele nada está pronto, mas numa obsessiva e estimulante atividade os personagens perseguem os poetas como a deuses escondidos. São como detetives selvagens, para citar o título e a expressão de Roberto Bolaño.
 
Alejandro Zambra: escrita prazerosa e estimulante, conduzida por um narrador irônico e opinativo (foto: Mabel Maldonado/divulgação)
 

PERCURSOS E DESCOBERTAS


Aproximando-se do romance de formação, é Vicente, personagem-poeta quem nos guiará por suas descobertas. Acompanhamos o seu choque ao ler pela primeira vez Emily Dickinson e não a compreender, seus primeiros amores e as longas conversas sobre literatura entre Vicente e Gonzalo, seu amigo e ex-padrasto. Ao contrário de “Poesia sem fim”, Vicente não precisa de um esforço árduo para romper com seu pai e se afirmar como poeta, porque Zambra examina em seu romance o percurso na vida de um jovem, cujo pai é suficientemente cômico e enganador.  Nele são as experiências de vida e histórias de amores que conduzem, de maneira incerta, os personagens a descobrirem a si próprios através da literatura. Sem sentimentalismo, Zambra fornece um panorama que percorre duas gerações e suas relações com a literatura, o sexo e o amor. Numa escrita prazerosa e estimulante, recupera, com o auxílio de um narrador irônico e opinativo, a relação que muitas vezes os modernistas insistiram: a proximidade entre vida e obra, porque em “Poeta chileno”, são as contingências e decisões equivocadas de seus personagens o material para as suas criações.
 
Diferentemente de contemporâneos como o norueguês Karl Ove Knausgard, cuja série autobiográfica esgota até mesmo as ações mais banais e cotidianas como material para sua ficção, Alejandro Zambra brinca com a ideia de contar uma história, ao criar, até mesmo, uma lista de supostos poetas chilenos imprescindíveis para que a personagem Pru os entreviste. É que força de uma boa ficção reside, talvez, naquilo que o crítico literário James Wood aponta para a presença dos detalhes. 




Como um demiurgo de sua criação, o escritor dá vida a ações que no mundo comum nos esquecemos e que só poderão ser transmitidas por um bom narrador, capaz de dar e retirar vida de objetos, ações, diálogos e sensações. Essa é a capacidade meditativa da literatura, ao enquadrar uma vida de experiências em tantas páginas, e é o que pensa o personagem Gonzalo sobre um conto de Raymond Carver. Ao se recordar com perfeição por ter lido diversas vezes, deixou que o texto fizesse parte de sua vida intimamente: “Havia uma janela iluminada, alta demais para que se pudesse olhar lá dentro. Gonzalo se concentra nessa frase de Carver, ou melhor, refugia-se, esconde-se nela: o livro é uma máscara, e essa frase qualquer, escolhida ao acaso, é o elástico a prendê-la.”
 
Retrato das gerações e seus valores, Zambra nos conduz ao seu mapa afetivo da literatura e sugere que a poesia chilena não se faz somente com os cânones, como Neruda, Gabriela Mistral ou mesmo Nicanor Parra, e sim das efervescências constantes nas ruas e nos encontros entre pessoas. Efervescências essas que se dão não somente ao se entregar às experiências de vida com paixão e ânimo, mas por conseguir extrair disso uma forma de vida única, capaz de distanciar da vida alienante e burocrática. Não é à toa que escolheu bem para uma de suas epígrafes a frase do poeta e ensaísta Fabían Casas: “Uma técnica que serve para escrever deve servir também para viver.” 
 
(foto: Companhia das Letras/reprodução)
 
 

"POETA CHILENO''

Alejandro Zambra
Tradução de Miguel del Castillo
Companhia das Letras
432 páginas
R$ 59,90 

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