Jornal Estado de Minas

O mundo perdido de J. P. Cuenca


“Os acontecimentos são justamente o que fazemos deles”, especula J. P. Cuenca em “Vamos supor, apenas supor, que eu tenha sido preso”, uma das crônicas mais intrigantes de “Qualquer lugar menos agora”. A capacidade de transformar relatos de viagem em experiências desconcertantes é um dos pontos altos do novo livro do escritor, incluído em 2012 pela revista Granta na relação dos melhores romancistas brasileiros com menos de 40 anos. Impressionam também os encontros de Cuenca com a vida que pulsa em diversos lugares do planeta: Berlim, Macau, Jerusalém, Gaza, Lima, Óbidos, Hanói. Descobertas, mistérios, sustos, o corpo e a mente abertos para o desconhecido. “Acredito que essa caça por epifanias e por tudo o que esteja além dos cartões-postais são meus principais motores numa viagem”, afirma o escritor a respeito das vivências de tempos com euforia e sem pandemia; de um mundo, talvez, irremediavelmente perdido. “Minha última viagem foi para Berlim, de onde voltei em dezembro de 2019. Eu iria novamente para a Alemanha, em março de 2020, dar um curso na Universidade de Colônia, e muito possivelmente passar uma outra temporada por lá, mas veio a pandemia e os planos todos mudaram”, conta. Na entrevista a seguir, Cuenca revela ao Estado de Minas sobre o ponto de partida de suas viagens, antecipa o próximo romance (o mais recente, “Descobri que estava morto”, de 2015, venceu o Prêmio Machado de Assis, da Fundação Biblioteca Nacional) e conta o que tenta repassar aos participantes da “oficina experimental de criação” que oferece anualmente.





Israel (2014) (foto: Arquivo pessoal)

“Viagens são como contos”, você escreve no início das “Notas de Zagreb”. Por que contar as suas viagens em crônicas?
Tenho a impressão de que só conheço realmente algum lugar se escrevi sobre ele. Se não transformo aquela experiência num texto, vejo as fotografias que tirei e não me reconheço: é como se fosse outra pessoa viajando. Nesse sentido, a experiência é sempre dupla. Assim como a viagem: para fora, ao redor do mundo, e para dentro de si mesmo. 

O que os tempos de quarentena o fizeram refletir sobre a importância de sair de casa?
A experiência de revisitar e editar esses textos durante a pandemia, sem saber quando (ou se) poderíamos voltar a viajar, foi intensa. O livro é fruto de 15 anos de viagens, um período em que o mundo parecia muito menor por uma série de fatores — tanto concretos (como o câmbio favorável e o interesse do mundo por escritores brasileiros) como também pessoais (desejo de fuga, apetite pelo desconhecido). Hoje em dia, quero continuar saindo de casa, mas, ao contrário de antes, sabendo muito bem para onde voltarei no fim da viagem. De qualquer forma, viajar sempre será algo fundamental para mim: acho que só consegui começar a entender direito quem sou e de onde vim me perdendo pelo mundo. 

O que você mais busca em uma viagem? Uma “experiência desconcertante”, como a caminhada em Macau, descrita em uma das crônicas? Houve alguma experiência que você não conseguiu traduzir em palavras?
Há no livro uma passagem em que comparo viagens a contos, pois em ambos sempre há a expectativa de uma revelação. Acredito que essa caça por epifanias e por tudo o que esteja além dos cartões-postais são meus principais motores numa viagem. E, sim, há sempre algo que as palavras não alcançam — no caso desse livro, tentei montar uma série de booktrailers com imagens de algumas dessas viagens para ilustrar. Considero esses nove vídeos uma experiência complementar à leitura do livro e eles podem ser encontrados aqui: https://vimeo.com/showcase/8599598.





Poderia explicar o porquê de classificar algumas metrópoles como Buenos Aires, Paris e Nova York de “cidades neuróticas”? Existem países neuróticos?
Acho que as chamo de neuróticas porque são cidades excessivamente psicanalisadas e auto-conscientes, onde também há uma ilusão de protagonismo ou centralidade. Claro que são generalizações, mas às vezes elas nos ajudam a pensar os lugares e nossas relações com eles. Sobre países, talvez agora o mundo inteiro esteja vivendo um momento profundamente patológico. Torço para que seja breve, mas não tenho muitas esperanças. 

Por que a pausa na ficção para um livro de crônicas? Está mais difícil fazer ficção no Brasil?
Nunca foi fácil! No meu caso, depois do “Descobri que estava morto”, passei cerca de três anos sem escrever uma linha de ficção. Fui voltando aos poucos e estou hoje montando um romance sobre diários que alimento desde esse meu retorno à vida (ou a minha própria ideia de literatura) em 2019, em Berlim. A ideia de publicar essa antologia de crônicas surgiu pela saudade de viajar durante a quarentena e para celebrar a ida desse meu romance inédito para a Editora Record, inaugurando nova fase sob os auspícios do grande escritor, editor e amigo Rodrigo Lacerda. 

Quais serão as suas próximas viagens quando terminarem as restrições impostas pela pandemia?
Estou com muitas saudades de Buenos Aires. Que, por motivos familiares, é dos lugares para onde mais fui. E também o primeiro fora do Brasil. Um bom lugar para voltar a viajar: pelo meu particular começo. 





Viajar é, também, descobrir que você está vivo?
Sem dúvida. Editar esse livro me fez entender mais uma vez que a viagem é para mim tão importante quanto o cinema, a literatura, a música, a arte, a comida, o vinho, o amor. Estamos menos vivos sem qualquer uma dessas coisas. 
Viena (2016) (foto: Arquivo pessoal)

“Decidi sistematizar o que aprendi na prática sobre processo criativo”, você explicou ao anunciar que ministraria uma oficina experimental de criação.  O que aprendeu, na prática, e é possível compartilhar, e o que é impossível de ensinar?
Acho que é muito possível compartilhar métodos, práticas e caminhos. De forma extensiva e com muitas referências. O que me parece impossível de ensinar é o objeto de criação em si. Porque cada aluno tem o potencial para ser o melhor de si mesmo — e, ao mesmo tempo, esse “melhor” pode não ter nada a ver com as afinidades estéticas do seu professor. Na minha opinião, as boas oficinas são as que ajudam os alunos a abrirem trilhas em mato fechado, e não as que indicam caminhos existentes e já cimentados. 

Por que a sua oficina de literatura é “ao redor da escrita” e não uma “oficina de escrita literária”?
Depois de mais de 10 anos dando oficinas focadas em produção textual, decidi explorar mais diretamente o outro lado da moeda: os procedimentos, gestos, ações e hábitos que acompanham a escrita. Tentando entendê-la, acima de tudo, como uma prática artística. Que envolve, entre outras coisas, a atenção plena e o exercício da deriva. É uma oficina não só para escritores, mas para todo tipo de criador interessado em ampliar sua percepção e seu repertório de rituais e truques de mágica.




 
O único final para a história do Brasil é um acidente?
Acho que não há final feliz para o Brasil enquanto não entendermos que nada aqui é por acidente. Parece contraintuitivo pensar que nossas piores mazelas são estruturais e fruto de planejamento onde o noticiário é tão caótico, mas para mim é exatamente o caso. Enquanto não transformarmos nosso passado escravocrata e etnocida definitivamente em história, estaremos condenados a esse presente infinito, sem consciência do passado e, acima de tudo, sem perspectivas para um futuro realmente novo.

“Qualquer lugar menos agora – crônicas de viagem para tempos de quarentena”
• J. P. Cuenca
• Editora Record
• 238 páginas
• R$ 44, 90



Cuenca na estante

Romances: 
• “Corpo presente” (2003) 
• “O dia Mastroianni” (2007) 
• ”Descobri que estava morto” (2017)”  
•  “O único final feliz para uma história de amor é um acidente” (2010)

Crônicas: 
• “A última madrugada” (2012)

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