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Estado de Minas

Primeira leitura 'por olhar tudo, nada via'


07/05/2021 04:00 - atualizado 06/05/2021 20:42

Margo Glantz *

especial para o em

 

O que posso dizer ou fazer no confinamento que não se repita todos os dias nas redes sociais e nas conversas diárias?: dizer que me debrucei na janela e vi dois passarinhos e um carro? que escovei os dentes três vezes de manhã e uma de noite; que subo e desço de maneira incessante as escadas ou ando pelo menos meia hora diariamente ao redor da minha mesa para me manter em forma e regular meus movimentos intestinais, que me visto como se fosse a uma festa e coloco brincos e refaço o rosto, principalmente as sobrancelhas grisalhas; que estou lendo muita literatura de contágio ou de confinamento ou de destruição (Casanova, Defoe, Bellatin, Sebald, Poe, Perec, Camus, Justo Sierra, Gamboa, Calderón, Henry Dana, Melville, Sor Juana e a freira de Ágreda, Emily Dickinson…)?, ou dizer que o confinamento permite se reencontrar com você mesmo; que não releio O amor nos tempos do cólera, mas me lembro que meu pai quando queria dizer algo forte, como uma maldição, gritava jolera, que em russo significa cólera; que quando estudava na escola preparatória número 1 (a única que havia então na Cidade do México), meu professor de Literatura Universal, dom Erasmo Castellanos Quinto - homem de estatura mediana e barba branca longuíssima, ombros alargados pelas ombreiras que ele usava para se parecer a Ajax, o herói grego da Ilíada que ele mais admirava - explicava a epopeia e me chamava de Ifigênia, a jovenzinha sacrificada no altar dos deuses para que a Guerra de Troia pudesse continuar, e que agora revivo ao reler “Agamenon”, a tragédia de Ésquilo, enquanto faço parte de um coletivo sobre tragédia grega, organizado pelo escritor argentino Pablo Maurette; que não se sabe ainda quais efeitos definitivos terá a COVID-19; dizer que se a imunidade de rebanho, que se perder a humanidade, para conseguir a imunidade coletiva, produziria igualmente outra realidade, a de uma ambígua salvação, carecer de arbítrio e de consciência?; que se as vacinas estão a ponto de ser encontradas, que não, que na realidade tenham sido descobertos anticorpos e que as vacinas se chamem assim porque seu nome provém da palavra vaca; que os matadouros hoje em Chicago e no México e em muitas outras cidades se parecem aos descritos por Justo Sierra no início do século 20, na sua viagem pelos Estados Unidos; que em um motim na prisão de El Salvador houve uma chacina e um membro de um dos bandos inimigos abriu a cabeça de outros presos com uma pedra e começou a comer os miolos no meio do corredor, que as prisões são lugares de confinamento e de contágio; que o presidente Bukele trata os maras como se fossem gado; que na Turquia as autoridades encontraram em um aeroporto um carregamento ilegal de 79.000 máscaras cirúrgicas dentro de capas de almofadas; que o insólito buraco da camada de ozônio no Ártico começa a se fechar devido às condições meteorológicas; que todos e todas somos gênios falhos; que o debate nacional é um jogo de pingue-pongue; que por mais água que coloque no meu narciso, seu fogo não se apaga, que o superlativo e o maniqueísmo são as únicas formas (fúrias: corrige o corretor) para debater a situação atual do país e do mundo; que tenha surgido outra pandemia com consequências nefastas: o zoomismo, além da pandemia dos desaparecimentos de meninos, meninas e jovens; que a violência intrafamiliar cresceu exponencialmente durante o confinamento; que o corpo se torna holograma; que me debruço e repito: espelho, espelho meu, para ver se a cara de madrasta não aparece mais; que uma família de impressores no Sri Lanka teve uma ideia conciliadora, revolucionária, inédita e ecológica: elaborar papel com os excrementos de elefante e de quebra construir uma ponte no eterno conflito pela terra entre agricultores e paquidermes; que abundam os casais fratricidas nos mitos e na tragédia grega, e que tudo fica em família; que graças a um estrito e precoce confinamento, a Grécia conseguiu que o número de mortos seja incrivelmente baixo, coisa que também aconteceu na Islândia, na Finlândia e na Nova Zelândia, onde quem governa são mulheres; que o Brasil se perfila como o próximo epicentro mundial da pandemia, que agora está nos Estados Unidos; que neste texto reiterei a estratégia narrativa que me serviu para escrever meu livro ‘E por olhar tudo, nada via’, e que, finalmente, por enquanto, em Wuhan, na Coreia do Sul e na Espanha, houve novos surtos de COVID-19 desde que se tentou voltar à “normalidade”?

 

(foto: Reprodução da capa do livro: Paula Albuquerque)
(foto: Reprodução da capa do livro: Paula Albuquerque)
 

 

Posfácio da edição brasileira do livro “E por olhar tudo, nada via” (Relicário Edições, 240 páginas, R$ 45,90), da escritora chilena Margo Glantz. Lançamento nesta sexta-feira, às 19h, em conversa da autora com a tradutora Paloma Vidal e da autora do prefácio, Adriana Kanzepolsky, no canal do YouTube da editora Relicário.  


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