Jornal Estado de Minas

Da clausura à liberdade





O poeta mineiro Mário Alex Rosa acaba de lançar Casa (Impressões de Minas Editora/Selo Leme), depois de um intervalo de sete anos. São dele também os livros Via férrea (Cosac Naify), Ouro Preto (Scriptum), Formigas (Cosac Naify) e ABC futebol clube (Aletria), estes dois últimos infantojuvenis. Nessa nova empreitada, o crítico literário e professor de literatura brasileira concebeu um livro singular, delicado, diferente da forma habitual de seus poemas. Casa traz textos curtos, de apenas três versos, que flertam de perto com a tradição dos haikais. Os poemas ganharam, também, belas ilustrações e traços de nanquim de Wallison Gontijo.




 
Escrito durante o período mais rigoroso de quarentena na pandemia, o livro traz as reflexões, o humor, as tristezas, as dúvidas que foram surgindo nesse périplo de incertezas, tudo destilado numa poesia, sobretudo, leve,  apesar das incertezas e das bizarrices e sandices de um momento político único e temeroso, principalmente na área da cultura.
 
 
 
Como diz Ronald Polito na apresentação, “este pequeno livro tão especial é um projeto de sobrevivência, é uma política de sobreaviso, um diagnóstico de alternativas. Mas em pianíssimo, como convém à nova temporada de caça às bruxas, ao rebote do medievo. Daí o silêncio imperativo entre os enunciados, poemas-concha, a necessária brevidade deles, sua natureza de senha, código, cifra”.
 
 
Se o poeta japonês Matsuo Basho (1644-1694), amplamente reconhecido como um dos maiores, ou o maior mestre do haikai, que busca chegar, ou atingir o satori, o despertar zen que repentinamente surge no caminho, se Basho, que foi, acima de tudo, um poeta errante, que encontrou na natureza e na estrada meios para  atingir a sabedoria, Mário Alex fez, de certa forma, o caminho inverso. Ele fez da clausura sua matéria-prima para, se não chegar ao satori, lidar com situações limite.




 
O estilo de Mário Alex, nascido em São João del-Rei, em 1966, chama a atenção pela correção e contrição. A correção de um escritor maduro, que utiliza os recursos disponíveis a favor de um bom andamento do ato de escrever. E a contrição, que deixa os poemas respirarem, livres, que revestem os poemas de brandura, sem prejuízo da forma e do conteúdo.
 
 
 
Bons poemas são feitos de partes, de cacos, de fragmentos de tudo que a vida sugere ao poeta. Os poemas de Mário Alex refletem bem essa condição, dispostos no livro num quebra-cabeça coerente. O autor exerce, vale-se do benefício da dúvida e de um olhar mais que apurado, que inventa tramas entre coisas supostamente díspares ou contraditórias. Trata-se de uma poética feita de sins e nãos conjugados. Apesar do confinamento, passa longe dos poemas a sensação claustrofóbica. Saber olhar é um privilégio. Saber estar, num processo de aceitação. Mário Alex enxerga, arquiteta e transforma o caos em arte.
 
O poeta, dessa forma, faz, como ele mesmo diz, “uma reflexão sobre o espaço” e percebe a importância e a delícia do sol que não podemos usufruir, mas que nos faz companhia nesse nosso verdadeiro momento de claustros. O inusitado torna-se matéria de poesia, um ovo, um banheiro, o mistério dos espelhos.




 
O detalhe, assim como nos melhores haikais, ganha dimensões insuspeitas. Diga-se, os poemas de Casa não são haikais, que obedecem a estruturas específicas inexistentes nos versos de Mário Alex. Mas seus poemas trazem muito do espírito desse fazer poético, dessa postura do poeta frente à realidade. O autor se dá ao trabalho de, apenas, observar. Através de epigramas, ou simplesmente tercetos, ele se deixa deslumbrar com o andamento dos fatos, à medida que os dias iam passando, às vezes lerdos, outras tantas vezes cruéis. “no espelho/a solidão/é de dois”.
 
 
Mário Alex Rosa revela a origem da motivação para os versos reunidos em Casa: %u201CFoi uma urgência, precisava tentar dizer muito com poucas palavras%u201D
 
Revisitando amores e desamores, encontros e desencontros, encantos e desencantos, Mário Alex busca olhar para dentro de si. Sem, contudo, não desprezar o outro. A sala, a cozinha, a área de serviço, os quartos, o sombrio corredor, nesse contexto, ganham novas importâncias e novas funções antes relegadas a um segundo plano. “no privado/se preza a liberdade/do sujo sair limpo”. A aparente singeleza dos pequenos versos guardam curvas e mistérios, profundidades que pairam na leveza, para além da suposta superfície: “na sombra da noite/uma luz no fim/infinita vive”.
 
Mário Alex, dessa forma, encontrou a síntese de um momento limite para tudo e para todos. “estendida no varal/a roupa espera/uma nova era”. A mensagem da poesia sempre foi simples, como sempre foram revestidas de simplicidade a tempestade, o relâmpago e as águas que tudo renovam e lavam





Dois poemas

ovo quebrado
na frigideira
um sol

*
quanto tempo
o tempo demora
na quarentena?



» Casa
» Mário Alex Rosa
»  Impressões de Minas Editora/Selo Leme
»  96 páginas
»  R$ 40



ENTREVISTA

Mário Alex Rosa
poeta

“Nunca pensei 
tanto na perda 
como atualmente”

Como a situação-limite da quarentena interferiu na criação dos versos?
Antes de entrar em quarentena, acompanhava os noticiários sobre a tragédia
em alguns países da Europa. Aquilo tudo me comovia e acho que muitos de nós sentimos como se estivesse tudo muito perto. Mas a pandemia logo chegou no Brasil. Assisti e continuo assistindo às milhares de perdas. Abalado com tanta tragédia, me perguntava quando tudo isso iria acabar. Com essas angústias diárias e totalmente em quarentena que me perguntei: O que fazer? Foi com essa pergunta sem resposta que o livro surgiu. Nunca pensei tanto na perda como atualmente. Diante de tudo isso foi que comecei a olhar não só para dentro de mim como um limite existencial, mas também para o espaço e o ambiente no qual habitamos e por motivos diversos nem sempre observamos. A casa/apartamento, esse lugar tão precioso e que às vezes parece mais dormitório passou a ser agora o nosso principal abrigo. Nosso bunker. Não pensei em livro como nos outros que publiquei. Não havia projeto. Havia sobrevivência.





E o seu processo de criação?
O que interferiu foi a urgência, uma urgência contra o medo. Talvez por isso os poemas surgiram tão curtinhos. O fôlego era outro. Muitos nasceram prontos. Não quis modificá-los. Quis correr o risco da rapidez e da ingenuidade.

Você optou pelo haikai, ou quase haikais, nessa sua nova publicação, uma experiência diferente da forma habitual com que exercita os seus poemas.  Qual a sua relação com esse gênero poético?
Normalmente meus poemas são um pouco maiores. Como disse acima foi uma urgência. Precisava tentar dizer muito com poucas palavras. Na verdade, não foi uma opção essencialmente pelo haikai, mesmo porque não sigo as regras das medidas e dos temas mais comuns nessa bela arte criada pelos japoneses. A minha relação é de leitor interessado não apenas no poder de síntese do haikai, mas sobretudo como eles conseguem em poucas linhas trazer profundas reflexões filosóficas, existenciais e tudo com belas imagens para se pensar e imaginar. É preciso muitas caminhadas para chegar a esse possível mundo absoluto da arte do haikai.

Existem pontos de convergência entre os livros anteriores e sua nova publicação?  Como você avaliaria sua trajetória poética?
Não pensava que iria escrever um livro em tão pouco tempo e ao mesmo tempo num tempo que parecia que era muito mais demorado que as 24 horas do dia. Muito menos pensava que iria publicá-lo tão logo. Mas acho que tudo tem a ver com a urgência que tive, do medo que ainda tenho. Meus outros livros demoraram anos e se não fosse por intervenção de alguns amigos talvez nem tivessem saído. Existem alguns pontos de convergência entre os meus pouquíssimos livros e este agora o tema do deslocamento de um eu/sujeito diante de um dos temas mais antigos da poesia: o tema amoroso.





Como você avalia o cenário literário e cultural diante de tantos desafios, diante de uma situação política que tem dificultado toda e qualquer produção intelectual e artística?
O cenário não poderia estar pior, infelizmente. Além da pandemia, que por si já é um tragédia, temos no Brasil atual um governo federal, e até mesmo em instâncias estaduais, completamente indiferentes a qualquer coisa que possa lembrar cultura e educação. O descaso é assombroso, covarde, autoritário e retrógado em muitos setores. Mas a arte de um modo geral já passou por momentos muito difíceis e sobreviveu e não vai ser agora que não sobreviverá. Vamos resistir.
 

audima