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Estado de Minas CLARICE LISPECTOR

Dois corações selvagens: escritoras revisitam intimidade de Clarice Lispector

Adriana Lisboa e Paloma Vidal rompem os laços poderosos, mas sufocantes, da escritora em romances que aliam amor, ética, política e lembranças


02/10/2020 04:00 - atualizado 02/10/2020 08:38

(foto: Ronaldo de Oliveira/CB)
(foto: Ronaldo de Oliveira/CB)
Paloma Vidal (acima) e Adriana Lisboa: cuidadoso trabalho de linguagem nos livros Pré-história e Todos os santos(foto: Julie Harris/Divulgação)
Paloma Vidal (acima) e Adriana Lisboa: cuidadoso trabalho de linguagem nos livros Pré-história e Todos os santos (foto: Julie Harris/Divulgação)


Vilma Arêas, escritora e crítica literária, certa vez sugeriu jocosamente proibir por 10 anos a produção de teses sobre Clarice Lispector. Longe de descaso, trata-se de um gesto de irreverência diante dessa escrita: “É preciso abandonar o mito”, sustenta. Grande intérprete dos textos clariceanos, Arêas defende com unhas e dentes que não se deve santificar Clarice, já que sua imensa obra acabaria inibindo novas perspectivas e gerando por vezes leituras muitos semelhantes.

Vem da própria Clarice Lispector o gesto de dar as costas a uma certa linhagem literária, como assinalou o crítico Silviano Santiago, ao afirmar que sua prosa inaugural exigia naquele momento um novo leitor. Passado o tempo dos ferozes embates modernistas com o passado, a ficção contemporânea se equilibra entre o dar as costas a um legado e a reelaboração dessas matrizes em novas contingências.

Penso nisso ao reencontrar duas vozes da literatura brasileira atual: Adriana Lisboa e Paloma Vidal, cujas narrativas marcadas pela escrita da intimidade e a sondagem da subjetividade foram inúmeras vezes aproximadas daquelas da autora de A paixão segundo GH.

A carioca Adriana Lisboa vem se dedicando a distintos gêneros, entre eles romances, contos e poesia, e já refletiu criticamente sobre a presença de Lispector na tradição literária brasileira: “Quando falo da escrita de autoria feminina no Brasil após Clarice e após a revolução feminista, experimento a dupla liberdade e o duplo peso dessa condição”, afirmou em texto teórico em que pensava essas armadilhas ficcionais.

Todos os santos, seu mais recente romance, confirma a capacidade de aliar tramas envolventes a uma dicção muito particular, um andamento da linguagem que talvez ecoe sua formação musical. Nesse romance, seu sétimo, é inegável o domínio do ritmo narrativo, em narrativa que aborda a história de duas famílias reconfiguradas a partir de um incidente dramático na infância dos protagonistas.

Paloma Vidal tem igualmente conexões com a escrita clariceana: nascida na Argentina e vinda ainda criança para o Brasil, a escritora traduziu Clarice para o espanhol e escreveu um prefácio para a reedição comemorativa dos 40 anos de A hora da estrela. Ambas carregam na biografia a condição do deslocamento entre línguas e culturas, experiência não nomeada diretamente na obra de Lispector, mas questão central na de Vidal.

Seu terceiro romance, Pré-história, demonstra que a também professora e crítica literária encontrou tom próprio dentro de um projeto literário que vem cuidadosamente construindo.

Escolhas políticas

Pré-história traz uma narradora em primeira pessoa, em espécie de longa carta a recompor a vida pregressa de um casal, iniciada no fim dos anos 1980, tempo das primeiras eleições diretas depois da ditadura. Um adolescente de 13 anos com um broche do PT em uma festinha de aniversário é a senha para o interesse, início de uma relação que perdurará por décadas.

E esse discurso surge carregado de tensão. Ela avança, retrocede, sonda, lança dúvidas e busca a interlocução ao compor uma narrativa endereçada: “Quero muito a primeira pessoa do plural”. Na leitura, acompanhamos aspectos dessa relação ao longo de 30 anos, e de como esse afeto passa lentamente a se modificar em função de escolhas, sobretudo as políticas. “Ser seu ponto cego é ser aquilo que você não consegue ver ou aquilo que não lhe permite ver? Acho que essa pergunta deixará você irritado, porque estou me perdendo”, provoca.

Em Todos os santos, igualmente se faz presente um pronome que recupera no plural o passado de um casal. Vanessa é bióloga e relembra uma infância de classe média no Rio de Janeiro dos anos 1980, tempo em que os irmãos André e Isabel figuram pares intercambiáveis – ao longo da vida, o amor e a amizade entre os três dará corpo a um relato de arrependimentos e dores.

Décadas depois, a personagem dedica-se na Nova Zelândia à pesquisa dos fuselos, aves capazes de percorrer enorme distância ininterrupta ao migrar. As andorinhas do tempo de criança e os pássaros migratórios na idade adulta ecoam os deslocamentos dos protagonistas, também eles em busca de uma vida reinventada em novo lugar.

Todos os santos e Pré-história, por distintas razões, se voltam para um núcleo dramático central em torno do qual as narradoras orbitam no intuito de reviver a memória de uma cena, de repisar, ao longo do tempo, um momento fatídico capaz de definir destinos e alterar trajetórias. Um domingo de novembro – o Dia de Todos os Santos –, e um agosto de 1989, respectivamente, são o marco na vida desses sujeitos, que buscam enunciar no presente da narrativa as motivações de um tempo pretérito.

Diferentes delicadezas

Não raras vezes evocou-se o mote da delicadeza para caracterizar os escritos de Paloma Vidal e de Adriana Lisboa, como se esse atributo resolvesse de vez a questão da prosa de autoria feminina. A discussão é antiga, e a rubrica simplificadora dificilmente se aplica aqui. Temas como ditadura, violência sexual e autoritarismos se fazem presentes nas obras das autoras, que enfrentam tais assuntos a partir de uma linguagem cuja força em nada justifica o substantivo.

A narradora de Todos os santos dá uma pista: “Você sabe que sempre desconfiei da palavra delicadeza. Ela esconde coisas. Quando é que o delicado é brando, terno, sutil, suave? Quando é que é frágil, débil, suscetível, vulnerável?”

A ideia de pensar a prosa de Vidal e Lisboa no embate com a obra de Clarice Lispector não se justifica apenas pelo importante espaço dado à visitação da intimidade na obra de ambas, mas igualmente pelo cuidadoso trabalho com a linguagem. Elas trazem relatos de família, de utopias e perdas. Para além da importância temática, comparece sempre a indagação de como contar aquelas histórias. O empenho no gesto estético, a busca de palavras para relatar esses fragmentos de vida, não redunda, no entanto, na frieza de uma literatura que fala de literatura, um exercício que pode por vezes afastar o leitor.

Não é o que ocorre aqui: corre sangue nas veias desses corações selvagens, e isso é muito bom. Neste tempo de violenta crise de princípios, as duas narrativas indagam se os afetos resistem às diferenças, trazendo à tona uma discussão sobre a complexa teia que nos enreda em meio a esses valores: são histórias em que “a política e o amor andam juntos”, como afirma Vidal, e histórias em que amor e ética, se desvinculados, fazem desandar algo, como aponta Lisboa.

Trata-se de duas autoras que rompem, em um sentido simbólico, os laços de família clariceanos – esses elos poderosos que abrigam, mas também sufocam. A leitura de seus mais recentes romances evidencia que a prosa de ambas respira livremente.

* Stefania Chiarelli é professora e pesquisadora de literatura brasileira contemporânea na Universidade Federal Fluminense (UFF) 





. Pré-história
. Paloma Vidal
. Sete Letras
. 128 páginas
. R$ 44

trecho

Pré-história, Paloma Vidal

Não sei se escrevo com amor sobre o nosso ódio ou o contrário. Escrevo contra o silêncio. Escrevo contra o medo. O silêncio e o medo me protegem, dizendo que vai ficar tudo bem. Que eu vou terminar esta história e vai ficar tudo bem. Eles criam miragens. Eu resisto. Volto ao dia 17 de dezembro de 1989. A medida disto é quanto é capaz de me fazer chorar. Não sei se você chorou diante do resultado das urnas naquele dia. Não me lembro se chorei. Minha mãe e meu pai certamente não. Quase 30 anos depois, choramos juntos, eles e eu. Você, não.

O português é a língua dos sonhos. O espanhol a dos pesadelos. Por você eu fiquei sabendo, alguns anos depois desta pré-história, que ao acordar aterrorizada no meio da noite era nessa língua que eu dizia que eles tinham levado tudo. Tudo o quê? Eles quem? Você perguntava e eu gostaria de poder te contar. Não era simples. Talvez nesta pré-história você teria se interessado pela minha história com lacunas. Talvez, com sua curiosidade, você teria me ajudado a fazer algumas perguntas.



. Todos os santos
. Adriana Lisboa
. Alfaguara
. 152 páginas
. R$ 49,90


trecho

Todos os santos, Adriana Lisboa

Pois é, poderíamos estar contando outra história. Mas talvez, seguindo a mesma lógica, a nossa pequena trama familiar, as décadas à sombra daquele sol domingueiro, os caminhos de uns terem ido se cruzando aos caminhos de outros, talvez tudo isso seja só o que acontece também. Esta trama, entre outras, infinitas outras. E contamos o que deu para contar.

Queremos aterrar numa praia que nos acolha, após voos tão longos, após dias tão incertos, queremos não comer as entranhas dos nossos. Porque o gosto é ruim. Queremos uma existência comum. Um tempo comum. O anonimato, a modéstia. Não o grito de guerra, não o sorriso falso, não o êxodo virtual, queremos um braço, um abraço, a mão que se dá na travessia do rio. Queremos, sim, o pote de cerâmica consertado com laca e pó de ouro. Essas lindas cicatrizes que brilham para atestar não a morte, mas a vida, a vida.


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