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Estado de Minas

A estreia sinestésica de Bruno Marques


14/08/2020 04:00

Bruno Marques, jornalista e escritor: primeiro romance
Bruno Marques, jornalista e escritor: primeiro romance

Bernardo G. B. Nogueira
Especial para o EM

“A literatura não é o fato de uma linguagem se transformar em obra, tampouco é o fato de uma obra ser fabricada com a linguagem; a literatura é um terceiro ponto, diferente da linguagem e dife- rente da obra, um terceiro ponto que é exterior à reta que vai de uma à outra e que por isso mesmo desenha um espaço vazio, uma brancura essencial onde nasce a pergunta ‘O que é a literatura?’, uma brancura essencial que é essa própria pergunta...” 
Michel Foucault 

O momento mais escuro da noite é quando ela doa seu último aceno. Se despede. E o dia, ainda preguiçoso, nem sequer ainda percebeu sua hora. Em tom crepuscular, Bruno Marques inaugura sua carreira de escrevedor de romances com As noites mais escuras do inverno. De algum jeito, ele está sempre nesse interstício tão interessante, pois sua formação oscila entre a carreira consolidada no jornalismo e uma aventura que já se mostra profícua no direito. É pessoa de andanças, olhar agudo e misturado, como são os momentos crepusculares. Logo, uma obra, que atravessa o oceano, que diz daqui estando lá, e de lá estando aqui, pode já ser captada pela mais fina visão do que seja a literatura, pois, se como nos ensina Foucault, a literatura se mostra, sem mostrar, como um vértice entre obra e linguagem, Bruno, com riqueza e abundância de elementos, nos doa uma literatura. 

As histórias da personagem principal se põem sempre nesse a-caminho que diz literatura, vagueia entre o onírico e uma realidade por vezes endurecida, não é bom, nem mau, não possui localização precisa de morar, tampouco se deixa desprender de si, não é melancólico apenas, tampouco se apresenta como um crente no que vem, não ama, menos ainda, deixa de se expor como desejante que logo é. Um itinerário que atravessa continentes, mas que, ao mesmo tempo, impõe uma localização precisa – a de estarmos sempre com os sentidos atentos à próxima estação. 

Digo estação, pois, o não lugar, ou mesmo, deslugar, por onde peregrina o livro é exatamente o lócus privilegiado que diz literatura, ora, para além da boniteza das imagens que nos são oferecidas, entre Portugal, França e Brasil, o autor nos expõe a dimensões profundas e ao mesmo tempo corriqueiras de uma existência viandante; quer dizer, se com Derrida podemos ler que a literatura poderia ser considerada como algo mais interessante que próprio mundo, no mundo de Bruno Marques ocorre uma relação quase sinestésica entre o ato da leitura e nossas reações, a dizer, somos transportados a todo momento, o livro é uma espécie de diário de bordo existencial no qual o leitor é absorvido em uma cadência que mais uma vez mostra a grande cor da obra, ela se esconde a cada vez que tentamos dar um tom. 

Como na obra Drawing hands, de Escher, Bruno Marques tem a artesania de tornar o leito aquilo que seu livro ilustra; ao mesmo tempo em que percorremos as linhas, elas se insinuam em nossos corpos e daí em diante, como diz Alejandro Zambra ao início de seu Bonsai e a vida privada das árvores – “...No final, Emilia morre e Julio não morre. O resto é literatura” –, poderia agora dizer acerca da história de Bruno Marques: no final, raia o dia, no final nasce a noite, no final, Miguel morre, o resto é literatura. 


As noites mais escuras do inverno
• De Bruno Marques
• Páginas Editora
• 160 páginas
• R$ 44,90
• Live de lançamento no Instagram (@paginas_editora), na segunda-feira (17), às 19h. Pode ser comprado pelo site www.paginaseditora.com.br


* Poeta e professor da Faculdade Milton Campos, Bernardo G.B. Nogueira é doutor em teoria do direito pela PUC/MG e mestre em cências jurídico-filosóficas pela Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra.  


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