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Estado de Minas GABRIEL GARCÍA MÁRQUEZ

Jornalismo literário de Gabo enfocado em coletânea de crônicas e reportagens

Obra mostra a versatilidade prosaica do autor colombiano para tratar desde denúncias de violência e de ditadura até histórias de fantasmas


31/07/2020 04:00 - atualizado 31/07/2020 07:50

"Não se passariam muitos anos antes que eu comprovasse na própria carne, até chegar a crer, como creio hoje mais do que nunca, que romance e reportagem são filhos da mesma mãe"

Gabriel García Márquez

“A mais bela das mulheres de aluguel nas vielas de Pigalle (Paris) era uma loura esplêndida que em lugar menos comprometedor seria confundida com uma estrela de cinema. Tinha um conjunto de jaquetas e calças pretas, que era a cor da moda, e na hora em que começou o vento gelado pôs um legítimo casaco de pele.

Assim estava, oferecendo-se por 200 francos diante de um motel da rua Duperré, quando um automóvel se deteve diante dela. Do assento do motorista, outra mulher bonita e bem-vestida disparou-lhe sete tiros de fuzil. Essa noite, quando a polícia encontrou o assassino, aquele drama suburbano já repercutira nos jornais, porque tinha dois elementos novos que o fazem diferente. Nem a vítima nem o matador eram louras e belas, e sim dois homens de fato e de direito, e ambos do Brasil.

A notícia pôs em evidência o que já se sabe de sobra na Europa: a prostituição de homens, e os mais cobiçados entre eles, os mais caros e os mais bem-vestidos são jovens latino-americanos disfarçados de mulher. Segundo os jornais, de duzentos travestis que trabalham nas ruas da França, pelo menos a metade chegou do Brasil”.

Esse é um trecho da crônica-reportagem A nova profissão mais velha do mundo, publicada no El País em 2/12/1980 e incluída na antologia O escândalo do século, que acaba de chegar ao mercado pela editora Record, com 50 textos tirados da extensa obra jornalística de Gabriel García Márquez entre 1950 e 1984.

Depois de trabalhar como repórter e cronista em jornais da Colômbia e da Venezuela e publicar alguns contos e o primeiro livro, A revoada, García Márquez desembarcou na Europa em 1955, como correspondente do jornal El Espectador. Dessa forma, se livrou das pressões causadas pela série de crônicas-reportagens Relato de um náufrago, sobre o navio que chegou à Colômbia vindo dos EUA com contrabando envolvendo oficiais da Marinha.

Ele ficou no Velho Continente durante quase três anos, até o fim de 1957, enviando textos para o El Espectador, desde denúncias de violência e exploração sexual de latino-americanos em Paris e outras cidades europeias, tráfico de mulheres da Europa para a América Latina, intrigas de cinema e até histórias de fantasmas, no melhor estilo do jornalismo literário e mesclando informação e opinião nos textos sobre tudo que lhe parecesse interessante.

"Como leitor e editor de García Márquez, escolhi textos em que se mostra latente essa tensão entre jornalismo e literatura, em que as costuras da realidade se estendem por incontrolável impulso narrativo"

Cristóbal Pera



IMPULSO NARRATIVO

A seleção de O escândalo do século foi feita por seu antigo editor Cristóbal Pera, que diz ter optado por critério apenas pessoal, sem qualquer predileção acadêmica, estilística ou histórica. “Como leitor e editor de García Márquez, escolhi textos em que se mostra latente essa tensão entre jornalismo e literatura, em que as costuras da realidade se estendem por seu incontrolável impulso narrativo, oferecendo aos leitores a possibilidade de desfrutar do contador de histórias”, afirma Pera no prefácio da obra.

Gabo escrevia sua obra de ficção empregando os recursos de sua profissão de jornalista. “Esses livros têm tal quantidade de investigação e comprovação de dados e rigor histórico, fidelidade aos fatos, que no fundo são grandes reportagens romanceadas ou fantásticas, porém, o método de investigação e de manejo da informação e dos fatos é de jornalista”, afirma Pera citando o autor colombiano.

Uma de suas principais reportagens na Europa é a que dá título à antologia, quando Gabo passou por Roma. E o subtítulo já tem um lastro na literatura: Morta, Wilma Montesi passeia pelo mundo. Foram 13 episódios consecutivos publicados no El Espectador em setembro de 1955, contando o mistério da morte da jovem italiana Wilma Montesi, cujo corpo foi encontrado na praia.

O crime envolveu corrupção e uso de drogas entre as elites políticas e artísticas do país. Ao longo de 62 páginas, García Márquez mistura narrativa policial e crônica social, como um repórter-detetive, para detalhar a investigação que nunca chegou ao assassino.

Boa parte dos textos são um passeio por fatos históricos da segunda metade do século 20. Gabo sempre esteve preocupado com as grandes questões do seu tempo, como as profundas transformações sociais e políticas. Na crônica Os cubanos diante do bloqueio, ele fala dos embargos dos EUA ao regime castrista após a revolução que derrubou Fulgêncio Batista, em 1959, e os seus desdobramentos (o que também lhe rendeu críticas por sua longa amizade com Fidel Castro e pela defesa do comunismo na ilha).

Escreve também sobre a tomada do poder pelos sandinistas na Nicarágua e a violenta repressão comunista na Hungria, que integrava a chamada Cortina de Ferro comandada pela temida União Soviética.

A obra inclui também fragmentos precoces de narrativas de Aracataca, nas quais já aparece a família Buendía, a mais famosa de suas obras, que se materializaria 15 anos depois em Cem anos de solidão. E reflexões sobre o ofício de ser escritor até os anos 1980. 

O FANTASMA DE LUDOVICO

Um curioso texto incluído em O escândalo do século é Conto de horror para a noite de ano-novo. Gabo, a mulher, Mercedes, e os filhos foram a Arezzo (Itália) em busca de um castelo medieval, com 82 quartos na planície toscana comprado pelo amigo do casal, o escritor Miguel Otero Silva. Ele informou aos dois que o castelo foi construído por Ludovico, “um senhor das artes e da guerra”, que, num momento de loucura, “apunhalou sua mulher no leito em que haviam acabado de se amar e em seguida atiçou contra si mesmo seus ferozes cães de guerra, que o despedaçaram a dentadas.”

Desde então, sempre depois da meia-noite, o espectro de Ludovico “deambulava pelo castelo de trevas tentando conseguir um instante de sossego para seu purgatório de amor”. Gabo e Mercedes desdenharam da história dizendo que não tinham medo de fantasmas e ficaram para passar a noite no castelo sinistro.

“Ao contrário do que temia, dormimos bem; minha mulher e eu num dormitório térreo, e meus filhos no quarto contíguo. Enquanto aguardava o sono, contei as 12 batidas insones do relógio da sala. Mas estávamos tão cansados que dormimos logo, num sono denso e contínuo. Despertei depois da sete, com o sol esplêndido. Ao meu lado, Mercedes navegava no mar tranquilo dos inocentes. 'Que tolice', pensei comigo mesmo, 'que alguém, nestes tempos, continue a acreditar em fantasmas'. Só então me dei conta, com um estremecimento de horror, que não estávamos no quarto em que nos deitáramos na noite anterior, mas no dormitório de Ludovico, deitados em sua cama de sangue. Alguém nos trocara de quarto durante o sono”, conta Gabo nessa crônica publicada no El País, em 30 de dezembro de 1980.

CIA: entrevista reveladora

A antologia de crônicas e reportagens O escândalo do século tirada da longa atividade jornalística de García Márquez não inclui o texto que mais interessa ao Brasil e que consta do livro Obra jornalística – Reportagens políticas – Volume 4, do escritor colombiano. Trata do financiamento feito pela CIA, a Agência Central de Inteligência dos EUA, de golpes militares na América Latina no século 20.

Com o título Entrevista com Philip Agee, o texto apresenta uma entrevista de Gabo (feita em Londres e publicada em 19 de dezembro de 1974 no jornal mexicano Excelsior) com um funcionário da CIA em Montevidéu, que estava lançando o livro Inside the Company: CIA Diary, em Londres, pela Penguin Books.

Philip Agee havia desertado da CIA em 1969 convencido de que os EUA financiavam “corrupção e injustiças” na América Latina para expandir seus interesses políticos e econômicos. E resolveu escrever um livro, num país não revelado, para relatar seu trabalho sigiloso. Ele conta a García Márquez como a CIA investiu milhões de dólares para financiar o golpe do general Augusto Pinochet que derrubou e matou Salvador Allende no Chile, em 1973 e em outras tomadas de poder na América do Sul.

Sobre o Brasil, Gabo conta o que ouviu de Agee: “A operação mais difícil, mas também a mais bem-sucedida, foi a do Brasil. Em 1963, ao regressar de uma viagem do Rio de Janeiro, Ted Nolan (diretor da CIA em Quito, no Equador) dissera a Agee que 'o Brasil é nosso problema mais sério na América Latina: mais sério do que Cuba desde a crise dos mísseis'. Para fazer frente àquele problema, a CIA financiou os candidatos de direita na campanha eleitoral de 1962 com uma operação que custou 'não menos de 12 milhões de dólares e talvez mais de vinte'. A campanha se fez cada vez mais intensa até conseguir, em 1964, não só a queda de João Goulart, mas também o estabelecimento absoluto do ‘poder gorila’ (ditadura). Agee diz: 'Parece que a decisão foi tomada pelo próprio presidente Johnson (dos EUA), não só para impedir um contragolpe a curto prazo, mas para estabelecer o mais rapidamente possível uma força de segurança interna que garantisse uma ação a longo prazo”. A ditadura militar no Brasil durou de 1964 a 1985.

Repórter aprendiz

Em sua autobiografia, Viver para contar, lançada em 2003, García Márquez revela o principal fato que o levou para o jornalismo e que ainda hoje é grande exemplo para futuros e jovens repórteres. No início dos anos 1950, ele trabalhava no semanário Sábado, em Bogotá. “Eu ainda não tinha sido vitimado pelo engodo do jornalismo como ofício, e como ciência me interessava menos ainda do que o direito”, pensava ele à época.

A guinada veio do inesperado. Gabo conta: “Num daqueles dias, Elvira Mendoza (filha do dono do jornal) fez uma entrevista de emergência com a declamadora argentina Berta Singerman que mudou completamente meus preconceitos contra o ofício, e fez com que eu descobrisse em mim uma vocação ignorada. Mais do que uma entrevista clássica de perguntas e respostas – que tantas dúvidas me deixavam e continuam deixando – aquela foi uma das mais originais publicadas na Colômbia. Anos mais tarde, quando já era uma jornalista internacional consagrada e uma das minhas boas amigas, Elvira Mendoza me contou que tinha sido um recurso desesperado para salvar um fracasso”.

A famosa declamadora chegou a Bogotá com estardalhaço e concordou em dar entrevista para o semanário que coube a Elvira, a inexperiente filha do dono, então coordenadora da seção feminina da publicação. Na pressa e na dúvida sobre o que perguntar a Berta, ela colheu sugestões com intelectuais conhecidos do pai, mas a estrela argentina foi arrogante, detestou e recusou todas as perguntas como “tolas ou imbecis” por causa da garota insegura, sem saber que por trás de cada pergunta havia um escritor que ela conhecia e admirava graças às suas várias visitas à Colômbia.

“Elvira, que sempre foi de gênio vivo, precisou engolir suas lágrimas e suportar a frio aquela ofensa. A entrada imprevista do marido de Berta salvou a entrevista, pois foi ele quem manejou a situação com um tato especial e um bom senso de humor quando tudo estava a ponto de ser converter num incidente grave”, lembra Gabo na autobiografia.

“Elvira não escreveu o diálogo que havia previsto com as respostas da diva, mas fez a reportagem sobre suas dificuldades com ela. Aproveitou a intervenção providencial do esposo e converteu-o no verdadeiro protagonista do encontro. Berta Singerman teve um dos seus históricos ataques de fúria quando leu a entrevista. Mas Sábado já era o semanário mais lido e sua circulação semanal acelerou sua ascensão até cem mil exemplares numa cidade de seiscentos mil habitantes”, conta o escritor.

O jovem Gabo, então, tirou sua conclusão: “O sangue frio com que Elvira Mendoza aproveitou a estúpida grosseria de Berta Singerman para revelar sua verdadeira personalidade me puseram a pensar pela primeira vez nas possibilidades da reportagem, não como meio principal de informação, mas como algo muito maior: como gênero literário. Não se passariam muitos anos antes que  comprovasse na própria carne, até chegar a crer, como creio hoje mais do que nunca, que romance e reportagem são filhos da mesma mãe”.

A entrevista que não existiu virou reportagem sobre a não-entrevista. A lição de repórter de Gabo lembra uma velha historinha recorrente nas redações sobre mau jornalismo com um repórter novato escalado para cobrir um espetáculo circense. Na volta, ao chegar à redação, o editor pergunta cadê a matéria. E ele responde: “Não tem porque o circo pegou fogo”.

"A campanha (da CIA) se fez cada vez mais intensa até conseguir, em 1964, não só a queda de João Goulart, mas também o estabelecimento do %u2018poder gorila%u2019 (ditadura)"

Trecho do livro Reportagens políticas


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